Correio Braziliense

Destino: autoconhecimento

Troque as férias badaladas e os roteiros de festa por uma viagem de calmaria rumo ao interior de suas emoções; Quem fez garante que a experiência é única e intransferível


postado em 12/12/2018 23:17 / atualizado em 13/12/2018 18:29

Quando o excesso de bagagem é feito de sonhos, vale a pena carregar esse peso. Gente que fez as malas para embarcar rumo a uma viagem marcada de simbolismo, além dos que estão impressos nos postais, viveu sensações inesquecíveis. Independentemente do destino, o viajante que vai não é o mesmo que volta: maturidade, experiência e autoconhecimento são algumas das habilidades desenvolvidas ao percorrer um lugar novo. Aventureiros como Catarina, Pedro, Sandra e Victoria, decidiram não só explorar um país diferente ou uma cidade nova, mas, sim, desvendar os mistérios da própria alma.

 

Movida por uma promessa

 

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

 

Foi um sonho que levou Catarina Coppini, 27 anos, a caminhar mais de 505 quilômetros e rumar para o caminho de Santiago de Compostela. Mas o projeto inicial não era ideal próprio, e sim do pai dela, que faleceu em 2009. Um propósito que ela decidiu manter vivo, mesmo depois da despedida dele. Por isso, determinou: quando completassem 10 anos do falecimento, Catarina e o irmão seguiriam por uma das peregrinações mais conhecidas do mundo. No entanto, a paulistana optou por realizar a caminhada sozinha e, em 2018, um ano antes do previsto, cumpriu a homenagem.

 

Considerado patrimônio mundial pela Unesco desde 1993, o Caminho de Santiago de Compostela tem como objetivo chegar à cidade de mesmo nome, localizada na região da Galícia, na Espanha. Segundo a tradição, no local, estão os restos mortais de São Tiago, um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo. A peregrinação, conhecida desde a Idade Média, possui diversas rotas, e a mais conhecida é a feita por via francesa, que tradicionalmente parte da pequena cidade Saint-Jean-Pied-de-Port, no sudoeste da França. No entanto, a opção de Catarina foi partir de Burgos, território espanhol, em função da limitação de tempo.

 

A escolha da data da partida não foi ao acaso. Catarina perdeu o pai no dia do aniversário dela, 17 de julho, e decidiu começar a caminhada no mesmo mês para passar a data durante a peregrinação. A administradora de empresas preparou uma mochila básica — o peso é inimigo do peregrino —, separou capa de chuva, roupas de exercício e botas impermeáveis e, então, seguiu as setas amarelas que marcam toda a rota estabelecida, desde os anos 1980.

 

Embora tenha ido sozinha, Catarina cruzou com muita gente com quem compartilhou momentos especiais e experiência. Entre eles, uma família de brasileiros, que a acolheu com todo o carinho na noite de seu aniversário, com direito, inclusive, a bolo de chocolate. Também guarda a lembrança de Fernando, um senhor espanhol que a ajudou a carregar a mochila e garantiu que o pai dela, certamente, estaria muito orgulhoso da façanha assumida. “É engraçado porque, às vezes, você conhece alguém em uma cidade e pode ser que nunca mais o veja. Mas isso também é uma lição: as pessoas vão entrar na sua vida para te ensinar algo e nem sempre vêm para ficar”, conta.

 

Como toda peregrinação, o caminho tem dificuldades. Também há influência da época do ano: a paulistana foi no verão — quente e chuvoso. Subidas íngremes e cansaço foram alguns dos obstáculos que a jovem superou durante o trajeto, mas, para ela, “o caminho é 70% mental e 30%, físico. Um dos maiores aprendizados é ter respeito: por si mesmo, pelo caminho e pelas pessoas que você encontrará durante a caminhada”, garante.

 

Ao chegar à cidade de Santiago de Compostela e completar a rota, em 26 de julho, Catarina recebeu a Compostela — pergaminho em latim emitido pelo Escritório do Peregrino do local. Durante a peregrinação, a paulistana descobriu seu propósito de vida, sentiu o despertar de uma vontade de trabalhar com questões sociais e aprendeu que tudo tem um começo, um meio e um fim. “O caminho de Santiago é uma escolha de vida, não é um passeio à Disney. Você vai com uma mochila pequena, dinheiro contado, cada dia dorme em um lugar, lida com vários tipos de pessoas. É uma mudança que você começa a sentir desde o momento em que começa o caminho e traz isso de volta com você”, reflete.

 

Imensidão da natureza

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

A ideia de Pedro Almeida, 22, era fugir da agitação da cidade grande. Depois de passar por Londres e Dublin, o designer fez o caminho em direção às falésias de Moher, no sudoeste irlandês, e se encantou com as paisagens exuberantes antes mesmo de chegar ao destino final. A força da natureza e a pequena representação do ser humano diante de tamanha grandiosidade o fizeram despertar para questões importantes sobre como via o mundo e levava a vida.

 

“A experiência te proporciona contato com algo que é transcendental. Em um contexto urbano, você tem noção do que o homem é capaz de fazer.

 

Quando visita um local como as falésias, você revê qual a sua importância no mundo, deixa de ser autocentrado e passa a olhar para o outro, para a natureza”, garante.

 

Pedro escolheu um pacote de turismo com transporte de ônibus para conhecer a região. Desde a capital do país até a costa, o trajeto de 285 quilômetros percorre pequenas cidades povoadas por pessoas que vivem de atividades dedicadas ao trabalho no campo e à criação de ovelhas.

 

A paisagem, que já foi cenário de grandes produções como o filme Harry Potter e a série Game Of Thrones, “faz você se sentir muito pequeno diante da imensidão da natureza”, explica o designer. É um conjunto de penhascos que se estende por oito quilômetros, sendo que a região mais alta alcança 214 metros de altura.

 

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
Pedro fez a viagem em janeiro deste ano e conta que o frio nem sempre é aliado. Roupas com proteção térmica, suéteres de lã, mais meias do que de costume e um grande casaco — de preferência, impermeáveis — são essenciais para aguentar as baixas temperaturas lá do alto. O vento também é um problema: a potência dele é resultado da força da natureza. A sensação é de que ele quer te empurrar das alturas.

 

Durante o trajeto, em certas partes da trilha, não existem barreiras entre os visitantes e o paredão. “Ali, senti uma coisa que nunca havia sentido. Uma mistura de medo e adrenalina. Se eu escorregasse, já era. Lá embaixo, você é só um pontinho”, conta. O contato com outros viajantes também faz diferença. “O resultado foi um momento de reflexão e conexão único. “Deus é muito maior do que a gente pensa. Não temos tanto poder e controle sobre as coisas. Foi um momento de fuga e interiorização espiritual indescritível”.

 

Roteiro às terras santas

 

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

 

“Eu senti um impacto muito forte por estar pisando no mesmo chão em que, eu creio, Jesus pisou”, relembra Sandra Paiva, 65 anos, sobre a sua visita a Jerusalém. A aposentada, o marido e os filhos foram à cidade em 2008, e ela conta que a experiência foi transformadora, especialmente para a família evangélica. O lugar mais sagrado do mundo por três religiões — cristã, judaica e muçulmana — reúne pontos descritos na Bíblia e é visitado por milhares de turistas do mundo inteiro todos os anos.

 

A riqueza do país não envolve apenas a religiosidade da famosa Jerusalém. Israel, reconhecido como independente apenas em 1948, é um destino que oferece paisagens naturais belíssimas, como o deserto de Negev, a moderna capital Tel Aviv e a peculiaridade do Mar Morto.

 

Jerusalém está dividida em quatro bairros: judaico, cristão, armênio e muçulmano. Além do roteiro cristão, o Muro das Lamentações, sagrado para os judeus, é o que restou do Segundo Templo de Jerusalém, no lugar do original Templo de Salomão. Todos os dias, homens e mulheres — em áreas separadas — visitam o local de veneração. A cidade também abriga o terceiro local mais sagrado do islamismo: a Mesquita Al-Aqsa. A entrada é restrita, porém, existem outras mesquitas na região nas quais a visitação é permitida — desde que com vestimentas adequadas.

 

Antes mesmo de chegar ao destino, os guias prepararam o grupo de Sandra para entrarem no clima de conexão espiritual. “Nós já chegamos à cidade ouvindo o hino de Jerusalém, vendo a cidade de cima do Monte Scopus”, relata. Lá, eles ofereceram suco de uva em um cálice de carvalho, como símbolo de boas-vindas da cidade aos novos visitantes. Depois, o grupo atravessou o Mar da Galileia em um barco de madeira, reconhecendo todos os pontos narrados nas passagens bíblicas.

 

“Viajar para Jerusalém é mexer com as emoções, especialmente se você for cristão. Estar ali, mais de dois mil anos depois, é rever um pouco da história e, de certa forma, se sentir parte dela”, garante a aposentada. “Não tem como você estar em Jerusalém e não se lembrar de Jesus Cristo. Lá, tudo inspira religião”, relembra Sandra.

 

Paris dos livros

 

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

 

Quando criança, Victoria Franco, 22 anos, costumava ler muito e o seu livro favorito era Lineia nos Jardins de Monet, que ela pegou emprestado na biblioteca e, por anos, recusou-se a devolver. A história infantil retrata a realização do sonho de Lineia — apaixonada pelas obras do pintor impressionista Monet — em conhecer a França. A personagem visitou a capital francesa e a casa onde o pintor morou — entre 1893 e o ano de sua morte, em 1936 — na cidade de Giverny, a cerca de uma hora de distância da capital.

 

Aos 13 anos, Victoria finalmente conseguiu convencer os pais a conhecerem Paris, porém, era só uma escala de 24 horas. “Eu fiquei feliz, mas muito frustrada por ter ido ao lugar que eu mais queria no mundo e não ter encontrado os locais do meu livro”, lamenta.

 

Anos depois, durante um intercâmbio estudantil para Portugal, ela se programou para finalmente fazer a viagem como gostaria. “Escolhi uma semana na minha estação favorita para ir. Não me prendi a roteiros, não combinei de encontrar ninguém, separei dinheiro para gastar com o que quisesse e decidi ir sozinha para ter uma experiência só minha”, relata.

 

A ideia era conhecer Paris com uma vivência muito além dos pontos turísticos. Victoria queria sentar-se em algum dos parques da cidade e desenhar; carregar a própria baguete na bolsa, e se perder pelo bairro de Montmartre. Para completar o sonho, a estudante pousou na cidade no Dia da Música, data em que parisienses tiram para tocar todos os tipos de instrumentos pelas ruas. “Paris já parece um cenário cinematográfico. Eu me senti no filme da minha vida com a minha própria trilha sonora”, alegra-se.

 

O mais esperado ainda era a visita à casa de Monet, que foi exatamente como na história literária. “Eu me senti em um lugar muito mágico e único. É o jardim mais bonito que eu já vi, e cada cômodo da casa é de uma cor”, descreve. Mas ainda faltava o mais importante: encontrar o livro. Na Casa de Monet, Victoria achou vários exemplares da obra infantil.

 

Para encerrar uma experiência tão única, ela foi até o museu L’Orangerie, onde ficam as famosas Ninfeias de Monet — um quadro que aparece na obra. Ela se sentou no chão e começou a reler aquelas páginas: “Foi muito mágico. Entrei em contato com a minha criança interior de uma forma muito única e, por todas essas coisas, estabeleci uma conexão muito especial com a cidade. Sinto que acabou ali”, diz.

 

*Estagiária sob a supervisão de Flávia Duarte 

 

 

 

 

 

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