Entre idas e vindas, brasilienses reforçam múltipla identidade da capital na rodoviária

Para especialista, o local fascina pela capacidade de reunir pessoas de diferentes estilos, necessidades e classes sociais. Conheça histórias de quem constrói a própria vida em um dos lugares mais movimentados da cidade

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postado em 21/04/2014 07:00 / atualizado em 21/04/2014 10:52

No meio do caminho tem uma rodoviária e, todos os dias, milhares de pessoas passam por ela. Rumo ao trabalho, ao encontro de um amigo, para fazer compras, ir a um show na Esplanada dos Ministérios ou para, finalmente, chegar em casa, brasilienses de nascimento, e também de coração, inserem no trajeto do dia a dia um dos projetos arquitetônicos criados por Lucio Costa. Apesar de Brasília ser conhecida mundialmente por suas obras de arte a céu aberto, a rodoviária do Plano Piloto, um dos monumentos que mais fazem parte do cotidiano dos cidadãos da cidade, nem sempre é lembrada da forma como deveria.


No cruzamento dos dois Eixos – o rodoviário e o monumental -, a rodoviária, ou simplesmente “rodô”, como é chamada por muitos, não tem o glamour cosmopolita presente em monumentos de outras capitais de mundo afora, mas chama a atenção justamente pelo contrário. Isso porque ela não é feita somente de ônibus, mas, principalmente, de gente que passa e resolve ficar, nem que seja por um par de horas. “Ela é o coração de Brasília, o ponto onde todos os estilos, interesses, necessidades e classes sociais se cruzam. É como se todas as pessoas que se encontram em algum local de Brasília tivessem que, antes, passar por lá”, explica professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) Cláudio José Queiroz.

Segundo ele, a rodoviária foi construída como ponto crucial de Brasília, sendo capaz de se afirmar diante de tudo que está ao seu redor. “A construção amarra a cidade nos quatro sentidos cardeais e é uma grande obra de arte, servindo de inspiração para muitos arquitetos. Apesar do descaso de manutenção pelo qual passa, a rodoviária tem um jogo de sentido que emociona quem a vê”, comenta. É na rodoviária que estão, ao mesmo tempo, o marco zero da capital federal e o ponto inicial da vida de muitos brasileiros.

Homem de barro, coração de gelatina


Na plataforma superior, uma estátua viva toda pintada de barro faz desacelerar os passos rápidos de quem atravessa o calçadão que leva até o Conjunto Nacional. A figura serena de um homem abraçando um grande coração atrai os curiosos, que também se deparam com mensagens positivas escritas em pedaços de madeira com o formato do símbolo do amor. Quando param para observar o artista de rua, as pessoas também percebem que uma música calma - que até parece vir do próprio coração - é tocada, criando um clima tranquilizante, totalmente inverso do que acontece ao redor.

Sarita González/Esp./CB D.A Press


Denis Messias, de 40 anos, o homem de barro em questão, conta que a ideia é tentar amenizar o sentimento dos brasilienses por um problema que, segundo ele, é um dos mais sérios de quem vive na cidade. “Brasília tem muitas qualidades, mas o sistema de transporte público deixa a desejar. Os ônibus vivem cheios, demoram a chegar e, por isso, muitos passageiros chegam ou saem da rodoviária estressados. Minha intenção é fazê-los pensar que, por mais que estejamos irritados por algum motivo, nunca é tarde para respirar fundo e tentar acalmar o coração”, conta.

Nascido em Dourados, no Mato Grosso, Denis mora no Vale do Paraíso, em Rondônia. Ele revela que se tornou artista de rua em 2006, após realizar uma viagem para Barcelona, na Espanha. Desde então, viaja para várias cidades e ganha a vida como homem de barro. “Vi que lá os artistas de rua eram muito respeitados e viviam bem. Não pensei duas vezes e me tornei um. Artista de rua é livre, não atrapalha a vida de ninguém”, defende.

A primeira vez que Denis se apresentou em Brasília foi no Natal de 2012. Neste ano pretende permanecer 20 dias na cidade. Mas por que se apresentar na rodoviária do Plano Piloto? “É o lugar mais movimentado da capital. Aqui eu vejo gente de todo o tipo e isso me faz gostar cada vez mais da cidade. Fui bem acolhido desde o primeiro momento e espero sempre poder voltar para me apresentar”, torce.

Fotógrafa de rostos e de almas


Maria Auciterlânia, de 40 anos, fotografa dezenas de rostos desconhecidos na Rodoviária do Plano Piloto todos os dias. Com uma cabine instalada no local, a clientela de Maria são as pessoas que passam apressadas, indo ou voltando de seus compromissos. Nascida no Ceará, mas moradora de Brasília desde os três meses de idade, ela aprendeu o ofício com o pai, quando ainda era criança. “Eu o via fazendo fotos em sua cabine na rodoviária e ficava muito curiosa com o trabalho dele”, revela.

Por lidar com várias pessoas que passam pelo terminal rodoviário diariamente, ela acredita que seu trabalho envolve um quesito fundamental: a sensibilidade. “Muita gente chega para tirar uma foto e acaba ficando mais tempo, porque precisa desabafar. Eu sinto que posso ajudar de alguma forma e empresto meus ouvidos”, confessa, acrescentando que também já ajudou pessoas que tinham acabado de chegar à cidade, mas que não tinham dinheiro o suficiente para pagar uma foto de que precisavam. “Fico com dó de ver que a pessoa não tem condição. Com o tempo, a gente sente que ela está sendo honesta e o jeito é ajudar”, revela.

Na cabine de fotos, onde trabalha das 6h às 21h, Maria também tira cópias e plastifica documentos. Mas é com as imagens que mais tem prazer e tem o desejo de um dia poder fazer um curso de fotografia para aprender mais sobre o ofício. “Fotografar na rodoviária me permite conhecer milhares de rostos diferentes e ver que cada um deles tem uma história para contar”, diz.

Sorriso que vem do pandeiro


Quem já passou ao menos uma vez, nos últimos três anos, pela plataforma superior da rodoviária deve ter se deparado com Luiz do Pandeiro, de 63 anos. Mesmo sem uma das pernas, que gangrenou após complicações de saúde, Luiz se desloca sozinho todos os dias para o local. “Vim para a rodoviária por intuição e sou muito feliz com o que faço. Hoje sou famoso por aqui”, comemora.

Sarita González/Esp./CB D.A Press


Sentado no chão, sob um guarda-sol aberto e colorido, Luiz do Pandeiro canta para todos que passam por ele. “Canto do bolero ao choro e já gravei um CD com oito músicas minhas. Muitas delas defendem o fim da violência na cidade”, justifica.

Luiz do Pandeiro sabe que é nordestino, mas não exatamente de que lugar. “Saí novo de lá e a vida não foi fácil. Mas não reclamo, sou muito feliz”, garante. Há 35 anos em Brasília, o cantor diz que o que mais gosta na cidade é da paisagem. “Todo mundo fica falando do mar como se ele fosse a melhor coisa do mundo. Brasília não tem mar, mas é tão linda como se tivesse”, afirma.

Segundo Luiz do Pandeiro, a capital ficaria ainda mais perfeita se não houvesse violência. “Todo dia a gente ouve notícia de assalto, morte, estupro. É uma pena ver uma cidade tão bonita enfrentar esse tipo de sofrimento”, diz.

O futuro nas mãos dele

Um passeio pela Rodoviária do Plano Piloto não permite que os cantos do local sejam ignorados. Em um deles, no segundo andar do terminal rodoviário, uma loja colorida chama a atenção mesmo daqueles que não têm intenção de comprar algo. O cheiro de incenso convida o visitante a entrar na loja, que expõe roupas de dança do ventre, elefantinhos da Índia, santos e artigos de várias religiões. O dono, o jornalista e professor de Ciências Sociais Wagner Sresthas, de 65 anos, ama fazer parte da história de um dos monumentos mais conhecidos da capital. “Já trabalho há 30 anos aqui”, diz.

Sarita González/Esp./CB D.A Press


Nascido em Feira de Santana (BA) e filho de mãe indiana, ele diz ser um sobrevivente do período da ditadura militar. Anistiado político durante anos, Sresthas também participou da luta em defesa das cotas raciais nas universidades públicas brasileiras. De tão apaixonado por Brasília, em 2007, ele escreveu, junto com sua esposa, o livro “Capital diferencial – A cidade mais inteligente do mundo”. Nele, Sresthas faz uma interpretação matemática sobre a capital. “A cidade não está restrita às linhas egípcias, como muitos imaginam. Brasília é a cidade mais propícia para o bem-estar dos moradores”, acredita.

Enquanto se envolve em questões do presente, Sresthas também aproveita para prever o futuro dos brasilienses - e ganhar algum dinheiro com isso. Além de ler mãos, ele joga tarô e búzios a qualquer hora. Dividido entre tantos talentos e a variedade de produtos que seu comércio oferece, Sresthas traduz a diversidade da Rodoviária do Plano Piloto. “Assim como Brasília sou essa mistura de elementos e, por isso, me identifico tanto com essa cidade”, destaca.
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ADELMAR
ADELMAR - 21 de Abril às 08:29
depois da minha cidade natal Amarante Piaui eu amo Brasilia