Brasília, meu amor foi o nome de um dos artigos de Niemeyer no Correio. Publicado no dia em que a capital federal completou 41 anos, o brasileiro que gravou o próprio nome na história da arquitetura moderna mundial, escreveu: ;Olho os jornais, as revistas estrangeiras, e constato, satisfeito, que Brasília está sempre presente. Uma cidade pensada e construída por brasileiros ; com o suor dos nossos irmãos mais pobres, que para ela acorreram confiantes, como se a vida fosse justa para todos;. Nas páginas do Correio, Niemeyer comemorou junto com os brasilienses ; os de berço e os de coração ; os aniversários da capital federal, criada com a missão de trazer o progresso para o interior do país. Lembrou os primeiros dias, o barracão coberto de zinco onde os palácios foram desenhados, os canteiros de obra. Falou do sonho de JK. Dos desafios. Das conquistas.
Criador zeloso, não abandonou aquela que fez nascer. Voltou a Brasília tantas e tantas vezes. Nem sempre gostou do que viu. Mas não se calou. Em uma das visitas, escreveu um inventário melancólico da cidade. Nos passeios, fez questão de registrar o que o desagradava em texto e fotografias. Da grade instalada entre a Praça dos Três Poderes e o Palácio do Planalto para conter os grupos que tentavam sensibilizar o governo com manifestações. Das propagandas que poluíam o visual de ;prédios pessimamente construídos; num desacerto inqualificável;. Da barreira montada à frente do Congresso Nacional. Niemeyer quis acertar os desacertos. Quis ter sua voz ouvida e seus pleitos atendidos. O fez no Correio, que publicou em 3 de maio de 1999 as imagens e os detalhes do documento escrito pelo arquiteto. Na reportagem, Niemeyer constatou: a arquitetura e o urbanismo de um dos patrimônios culturais da humanidade estavam sendo ;ofendidos por equívocos;. Só naquele ano, que sequer havia chegado à metade, o jornal havia publicado outros cinco artigos do mestre da arquitetura.
Na noite da última quarta-feira, o Correio manteve o tratamento especial dedicado nos últimos dos quase 105 anos de vida do artista. Toda a redação se mobilizou. O resultado foi uma edição histórica, elogiada nas bancas e nas redes sociais, dentro e fora do Brasil. Em inglês, um designer brasileiro parabenizou a primeira página do Correio no Twitter. Traduziu o significado da palavra ;adeus; e sintetizou: ;a morte de Oscar Niemeyer na ótima capa do jornal Correio Braziliense;. De Londres, outra designer retuitou. Jornalistas de vários lugares do mundo também reconheceram o trabalho jornalístico e criativo do periódico e divulgaram a capa, desde já histórica, na internet.