Secretária da ONU pede liderança do Brasil para novo acordo climático; ouça

Christiana Figueres veio ao Brasil na semana passada e falou com exclusividade para o Ser Sustentável

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postado em 26/06/2013 08:00 / atualizado em 25/06/2013 19:10

Marcos Serra/CB/D.A Press

Faltando dois anos para entrar em vigor o novo acordo climático da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a secretária executiva Christiana Figueres veio ao Brasil, na última semana, pedir a liderança do país nas negociações internacionais, ao se reunir com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. O apelo da representante da ONU não acontece à toa. Na semana retrasada, a última rodada da conferência sobre mudanças climáticas em Bonn, na Alemanha, não trouxe esperanças com a insistência da Rússia — acusada de criar políticas para comprometer os acordos para conter a emissão de gases poluentes — em atrasar as negociações.


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Na passagem pelo país com "capacidade científica muito impressionante em matéria de mudanças climáticas", ela participou de uma comissão no Congresso e de um debate na Universidade de Brasília. Em entrevista exclusiva ao Ser Sustentável, a costarriquenha ainda falou sobre as manifestações que tomam as ruas de várias capitais: "Esses problemas que estão por trás dessas demonstrações, por exemplo, o transporte público insustentável, podem ser solucionados ao mesmo tempo em que se solucionam os problemas de mudanças climáticas". "Ao melhorar o sistema de transporte e torná-lo um sistema sustentável, o que se está fazendo é beneficiando duas agendas: a nacional e a global", completou.

Com 195 partes, a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima antecede o Protocolo de Quioto, de 1997, e tem o objetivo de estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera em nível que impeça a interferência humana no clima. Segundo o documento, os países industrializados e em transição para uma economia de mercado têm limitação de emissões com vinculação jurídica e compromissos de redução.

Ouça trechos da entrevista


Ser Sustentável - A conferência do clima em Bonn, na semana passada, ocorreu enquanto parte da Europa Central, inclusive a Alemanha, era castigada com inundações. Como está a situação da mudança climática no mundo?

Christiana Figueres - A verdade é que os efeitos extremos da natureza golpearam quase todos os países. É difícil encontrar um que não tenha tido um desastre natural. E é aí que me parece que os governos estão se dando conta de que têm de acelerar uma resposta política sobre as mudanças climáticas. A tendência do volume total de emissões de gases de efeito estufa segue subindo, apesar de os governos trabalharem sobre uma solução que possa ser usada a partir de 2015, 2020.

Porém, no momento, as emissões continuam crescendo e já ultrapassaram o limite de 400 partes por milhão — a mais alta concentração de gases na atmosfera em toda a história da humanidade. Isso significa que é preciso apurar, que cada vez está mais difícil e custoso buscar uma solução para a mudança climática. Temos de nos apressar.

Nos últimos anos, esse assunto tem se popularizado e preocupado até as nações mais poluidoras. A China, por exemplo, decretou que as indústrias do país terão de diminuir as emissões atmosféricas em 30% até 2017. Como a senhora enxerga essa mudança de paradigma?

Incrivelmente, alguns países estão se dando conta de que têm de fazer algo tanto pela saúde do seu próprio povo, que é a razão na China, quanto pela qualidade do ar que respiram. A China precisa restringir suas emissões e, sobretudo, necessita controlar a queima de carbono, que é o que polui o ar, mas ele não é o único (país poluidor). Todos os países do mundo estão se dando conta de que, para seu próprio interesse, é preferível tomar as medidas que também são soluções para as mudanças climáticas.

Na quinta-feira, na Câmara dos Deputados, a senhora relacionou as manifestações que acontecem no Brasil com a agenda climática, pois elas reivindicam um transporte público de qualidade. Como o transporte precário está associado ao problema?

As manifestações no Brasil são um problema interno que precisa ser solucionado no Brasil. Elas não têm nada a ver com as mudanças climáticas, porém, esses tipos de demonstrações, esses problemas que estão por trás dessas demonstrações, por exemplo, o transporte público insustentável, podem ser solucionados ao mesmo tempo em que se solucionam os problemas de mudanças climáticas. Ao melhorar o sistema de transporte e torná-lo um sistema sustentável, o que se está fazendo é beneficiar duas agendas: a nacional e a global.

As mudanças climáticas impactam as questões sociais?

Claro, porque as mudanças climáticas têm impacto sobre qualquer atividade humana. Praticamente não há atividade humana que não seja afetada. Daí que todos têm a responsabilidade de contribuir para buscar a solução.

A senhora também destacou a posição privilegiada do Brasil por ter reduzido as emissões mesmo sem ter obrigações internacionais e enfatizou que "o Brasil não escapa da liderança que terá de enfrentar em 2015". O que se espera do país nas negociações do novo acordo climático?

Espera-se que o Brasil continue com uma liderança nacional e internacional, como já tem tido ao longo da convenção do clima, e que funcione como uma ponte entre as nações industrializadas e os países em desenvolvimento. Além disso, que consiga colocar opções alternativas sobre a mesa de discussões e as apresente aos outros países.

Por que há essa expectativa?

Porque o Brasil é um país muito importante, é a sexta economia do mundo, tem uma capacidade científica muito impressionante em matéria de mudanças climáticas e porque possui uma das melhores diplomacias do mundo. Portanto, tem muita capacidade de poder ajudar os outros países.

E como o Brasil está se colocando nessas discussões no cenário internacional?

O Brasil sempre tem tido uma posição de liderança e se espera que ele siga com essa posição, tanto em nível nacional, como internacional, colocando propostas sobre a mesa para a consideração dos outros países.

Sobre as negociações do novo acordo climático, que ocorreram na Alemanha, qual é a expectativa para 2015? Como os países têm se comportado?

A cada conferência, surgem mais detalhes e uma direção mais clara, mas acho que essas negociações não estão se dando com a rapidez que merecem e que nos dita a ciência. Espera-se que os países continuem trabalhando em direção a um acordo; e eles têm feito isso. Agora, na última seção de Bonn, começaram a discutir como pode ser a estrutura desse documento. Espera-se que se desenvolva um rascunho para 2014, e o acordo final para 2015.

Qual é o maior obstáculo para isso?

É a complexidade da negociação, pois o que está se tratando aqui é transformar a estrutura e a lógica econômica e energética do mundo, então é uma negociação extremamente complicada.

A principal novidade do acordo é que, pela primeira vez, o documento pretende cobrar reduções de emissões de gases de efeito estufa dos países em desenvolvimento, mesmo aqueles que não têm responsabilidade histórica. Como isso vai ser feito, já que os países menos industrializados contribuem menos para os problemas climáticos?

O novo acordo climático para 2015 será diferente do Protocolo de Quioto, criado somente para os países industrializados. Desta vez, se prevê um acordo universal, em que haverá obrigações diferenciadas, porém para todos os países do mundo. É óbvio que o Brasil, apesar de ser a sexta economia mundial, não tem responsabilidade histórica em mudanças climáticas, pois a responsabilidade histórica cai sobre os países industrializados.

Porém, a mudança climática é um tema global, e a atmosfera não sabe nada de política. Cada um dos países e dos governos tem uma responsabilidade futura. O Brasil tem que fazer uma ponte difícil entre as economias industrializadas e as economias em desenvolvimento e buscar uma maneira em que todos possam contribuir, respeitando a responsabilidade histórica, a responsabilidade futura e fazê-la de uma maneira que esteja na capacidade de cada país e na equidade entre os países.

A União Europeia tem a proposta de que os países determinem seus próprios compromissos, em vez de se estabelecer um compromisso global. É possível que essa ideia seja aprovada?

É uma ideia de que cada um dos países tem de medir quais os melhores esforços que podem ser feitos, e, em seguida, haveria uma revisão desse esforço individual e coletivo. É uma proposta que está aí, que tem de ser considerada tanto pelos seus méritos, quanto pelas suas falhas, e que todos os países determinem o que vão fazer com essa proposta.

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Em 2015, além de o novo acordo climático ser apresentado, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) substituirão os Objetivos do Milênio. No entanto, Figueres explica que há grande diferença entre os dois. "Eles estão intimamente ligados, porque não há desenvolvimento sustentável sem redução de emissões, mas os ODS são uma declaração política, uma recomendação, enquanto o acordo do clima traz obrigações aos países."
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