Apenas 55,5% da obra de transposição do rio São Francisco estão concluídas

A previsão de entrega é para dezembro de 2015 ao custo de mais de R$ 8 bilhões para os cofres públicos

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 22/03/2014 10:23 / atualizado em 22/03/2014 14:23

A ideia é antiga, mas foi apenas em 2007 que os 477 quilômetros de canais que irão transpor as águas do rio São Francisco começaram a ser construídos. Trata-se da maior obra de infraestrutura hídrica do país e pretende abastecer 12 milhões de pessoas em 390 municípios de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Prevista para terminar em 2012, apenas 55,5% da obra foram concluídas até o momento, de acordo com o governo. Em audiência pública realizada neste mês, a promessa foi de que até dezembro o empreendimento chegue a 75% e que esteja finalizado no mesmo mês do ano que vem.



Leia mais notícias do Ser Sustentável


O secretário substituto de Recursos Hídricos do Ministério da Integração Nacional, Robson Afonso Botelho, afirma que é natural que uma grande obra de engenharia encontre obstáculos. “Ela passa por diferentes ambientes geológicos, geomorfológicos e interfere em estruturas que já existem, como rodovias, linhas de transmissão de energia, aglomerados rurais e urbanos, entre outros.” Ele menciona como exemplos China, Estados Unidos, Espanha e África do Sul, que levaram, em média, 15 anos para concluir iniciativas semelhantes, enquanto o Brasil, apesar do atraso, vai terminar em sete.

Os eixos Norte, que vai de Cabrobó (PE) a Cajazeiras (PB), e Leste, com início em Floresta (PE) e término em Monteiro (PB), estão orçados em R$ 8 bilhões e integram o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Segundo Robson, 12% da verba do projeto (o que chega a quase R$ 1 bilhão) são destinados a ações socioambientais, que visam o desenvolvimento econômico com uso sustentável dos recursos naturais, reduzindo os impactos.

 

“Um dos programas, o Comunicação Itinerante, leva informações à população ao longo do percurso da obra”, explica. O projeto também investe na capacitação de agentes comunitários de saúde, agentes de combate a endemias e lideranças comunitárias em municípios de Pernambuco, Ceará e Paraíba. “Mais de 600 profissionais já foram treinados.”


Após o término, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf), órgão vinculado ao Ministério da Integração Nacional, será responsável pela operacionalização do projeto.

Críticas

Além dos atrasos, a transposição do São Francisco também é alvo de polêmicas. Entre ela, está a própria necessidade da obra. Para João Suassuna, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco que estuda o tema desde 1995, o Nordeste tem água suficiente para abastecer a população, mas falta uma política eficiente de distribuição.


“Temos mais de 70 mil represas em potencial no semiárido, o que daria para abastecer cerca de 34 milhões de pessoas, bem mais do que o que a obra promete, e custando muito menos”, defende. Ele lembra que, com a distância tão grande que a água percorrerá, boa parte acaba evaporando e se perdendo, o que não aconteceria com tubulações que buscassem o líquido nos açudes mais próximos.


Suassuna vê, ainda, riscos relativos à geração de energia elétrica. “O rio é responsável por cerca de 95% da energia da região e, como corre com pouca água hoje, seu volume pode não ser suficiente para a irrigação e produção de energia.”


O engenheiro lembra, também e especialmente, a questão humana, pois as famílias de pescadores já enfrentam dificuldades para encontrar os peixes. “Outra preocupação é com a qualidade da água, que é terrível. Cidades como Belo Horizonte, cujo rio é um afluente do São Francisco, despejam esgoto e criam um risco muito grande à saúde pública. Adianta chegar água para 12 milhões se ela estiver nessas condições?”, questiona. Para Suassuna, como a obra não tem volta, o caminho, agora, é planejar o melhor uso possível para a água e garantir que ela chegue limpa e abasteça o povo, não grandes plantações.

 

Beto Novaes/EM/D.A Press)

 

Histórias de Chico
A ideia da transposição é para lá de antiga. O primeiro esboço dessa empreitada foi apresentado em 1877, durante o reinado de Dom Pedro II (1831-1889). Intelectuais do Brasil Império acreditavam que a medida era a única forma de minimizar os efeitos do clima semiárido no sertão nordestino.
Os papéis, no entanto, tiveram de ser engavetados por falta de recursos de engenharia. Durante o século 20, voltou-se a se discutir a viabilidade do projeto, sem grande sucesso. O Nordeste setentrional ainda teria que esperar mais alguns anos para ver os primeiros sinais de integração do Velho Chico. 

 

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.