Arte feita a partir do lixo

O lixo ganha outro valor sob o olhar de artistas plásticos da regiÃo, como Marcelino Cruz, que transforma resíduos em telas e esculturas. Além disso, ele ensina como aproveitar o material

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postado em 04/06/2014 17:31 / atualizado em 05/06/2014 15:48

Tina Coelho/Esp. CB/D.A Press
 

 

Marcelino Cruz dá valor a tudo que virou lixo para alguém. A renda dentro do convite de casamento, por exemplo, ganhou novo significado ao receber diversas camadas de tinta. O pedaço de couro de bode encontrado na fazenda do pai no sertão nordestino, hoje, é o rosto de mulher. A sacola de compras velha dá textura à obra na parede. As telas trazem cores vibrantes e fortes, reflexo da personalidade alegre do artista plástico. A arte deu novo sentido à vida do homem de 52 anos.



Cruz chegou a Brasília em 1980. Veio de União, cidade a 65km de Teresina, Piauí, para estudar. Sem saber ao certo qual profissão queria, prestou vestibular para diferentes cursos, como engenharia e matemática; acabou optando por administração. Trabalhou muitos anos na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Casou-se, teve duas filhas e decidiu voltar à faculdade. Desta vez, sem dúvida alguma, escolheu artes plásticas, área que o encantava desde criança.

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Em 1995, ingressou na Universidade de Brasília (UnB). Marcelino foi da primeira turma do período noturno. No curso, começou a experimentar o conceito que iria seguir como artista. “Na UnB, pirei com as obras do Arthur Bispo Rosário, porque eram muito expressivas. Acabei estudando arte moderna, dadaísmo. Como fiz o curso de forma bem despretensiosa, não tinha dinheiro para gastar com tinta francesa. Decidi trabalhar com o que tinha. Foi assim que comecei a brincar com couro, madeira, tapete, faixas e tudo que possa vir a me inspirar”, conta.

Para criar as obras, o artista busca inspiração na arquitetura da cidade, na riqueza do cerrado e no próprio material que tira do lixo. De cortina a pano de prato, tudo pode servir para dar forma às telas. Entretanto, as faixas de propaganda encontradas nas quadras do Plano Piloto são a base da maioria dos quadros. “Geralmente, me confundem com o cara que rasga as faixas. Acho interessante o protesto dele contra a poluição visual. Vou além de destruir a faixa; levo para casa mesmo”, revela, aos risos.

Criação
Marcelino aprendeu na faculdade a técnica que usa para transformar o tecido comum em tela para pintura. Com tinta PVA, ele fecha todos os pequenos espaços entre a trama do tecido até que pareça uma lona. O trabalho pode ser feito com qualquer tipo de pano, mesmos os mais finos. Depois, a intuição toma conta do processo. “Tem artista que faz rascunho antes. Eu nunca elaboro uma tela. Na verdade, não sei como ela vai sair. Começo a pintar uma, outra e outra. Quando vejo, estou fazendo 50 ao mesmo tempo. Só sei distinguir os temas, mas nada pré-determinado”, explica.

O processo de criação é solitário. No ateliê, no Park Way, é impossível contar com exatidão a quantidade de telas prontas e o material para novas obras. Depois de feitas, são colocadas no quadro. Até a armação é reaproveitada do lixo. “Tem gente que joga obra de arte fora. Já achei até chassi na rua”, comenta.

O ensino
Marcelino não deixou a profissão de administrador. Hoje, concilia o tempo no ateliê com o trabalho de gestor público no Palácio do Buriti, pela manhã, e como professor de arte no Centro de Ensino Fundamental (CEF) da 102 Norte, à tarde. O cotidiano pode parecer exaustivo, mas o cansaço é esquecido durante as horas de pintura. O que aprendeu com o lixo também é repassado aos alunos. “Ensino que se pode fazer uma obra sem gastar nada. Até a caneta que vai para o lixo pode ser reaproveitada. Do bico sai uma tinta a óleo maravilhosa”, afirma.

O ensino é um desafio. Despertar o interesse dos alunos consite um trabalho árduo. “A maioria das crianças não têm dinheiro para comprar material, como tinta e tela, mas nas minhas aulas isso não é desculpa para não fazer arte. Meu trabalho como artista acaba influenciando-os a terem criatividade. Para quem achava que não venderia nenhum quadro, comercializei muitos. Já fiz mais de 50 exposições. Também não acreditava que isso não iria acontecer nunca”, diz Marcelino.

Séries de pinturas de Marcelino Cruz (elaboradas desde 2000 e expostas a partir de 2007)
 
Outdoor 
Tecidos e faixas de propaganda deixados nas ruas de Brasília são alguns dos materiais utilizados nas obras dessa série. O  reaproveitamento da tipografia impressa neles serve de base para a composição estética das pinturas, que remetem ao grafite dos centros urbanos.

Vista aérea
Foi inspirada na percepção das imagens formadas pelo relevo, vegetação, plantações, áreas urbanas e áreas rurais vistas de dentro do avião. As paisagens são fotografadas e servem de inspiração para uma pintura simplificada por cores e linhas, numa profusão entre a geometria e o abstracionismo. 

Geométrica
Pintura baseada em vitrais, azulejos, cerâmicas, arabescos, cobogós, tecelagens e cestarias presentes na diversidade cultural brasileira.

Objetos
Feitos com papelão, couro, osso, madeira que remetem ao colecionismo e ao fluxus.

Painéis
Feitos com tecido, lona, lonita, faixa de propaganda e papelão.

 

Louco e gênio
Arthur Bispo Rosário era um artista plástico sergipano considerado por alguns, louco e, por outros, gênio. Construía objetos com diferentes tipos de materiais retirados do lixo e da sucata. Foi comparado ao pintor e escultor Marcel Duchamp. O francês foi o criador do termo “ready made” — conceito revolucionário para o mundo da arte, pois dava a possibilidade de usar outros tipos de material para as obras. A ideia era trazer objetos do cotidiano, a princípio não reconhecidos como artísticos, ao campo das artes.

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