A Geração Z e a sustentabilidade

Fundadora de uma consultoria de gestão e educação para sustentabilidade, Roberta Valença traça um paralelo entre a geração dos hiperconectados e o meio ambiente

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postado em 10/07/2014 16:16 / atualizado em 10/07/2014 16:47

Por Roberta Valença*

 

Conexão é o DNA dessa geração. A TV está ligada enquanto ela se diverte no Minecraft do tablet, responde mensagens no Whatsapp e publica fotos no Instagram. Da mesma forma que a geração Y, é multitarefa e não é fiel a empregos e estilos de vida que não tenham afinidade com suas causas.



Mas esse acesso orgânico com a Internet e tudo o que existe nela pode ser um empecilho na hora de filtrar o que é importante e direcionar no que é necessário. Vejo muito disso em meu filho mais velho, hoje com 14 anos. Ele fica empolgado com algo, vai pesquisar na web e, quando vê, uma coisa leva a outra e no fim já se perdeu do seu objetivo inicial.

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Às vezes, essa ausência de algo maior deixa o indivíduo da geração Z em um estado de letargia mental e, consequentemente, não consegue realizar nada, ocasionando uma frustração sem qualquer motivo. Além disso, há pouco contato físico, o que atrapalha a socialização (não há troca de ideias pessoalmente, contato visual, memorização de lugares, cheiros e sensações). Nós precisamos auxiliá-los a agregar essas duas frentes, pois elas são complementares.

Uma variável inquestionável é a criticidade que percebo neles em relação à abordagem da sustentabilidade.

Desde pequenos eles receberam na escola as informações sobre os desafios gerados pelo consumismo. Vivem na pele uma tímida, mas perceptível, divisão de pessoas que já se fartaram do nosso modelo mental e tudo o que foi ocasionado até aqui: mudanças climáticas, a “velha” desigualdade social, empresas que lucram em detrimento ambiental e humano, violência que aponta para uma Guerra Civil. Enfim, elementos resultantes de uma sociedade que acreditava que o ter era mais importante que o ser e de pessoas que insistem em ficar no modus operandi. As pessoas da geração Z clicam no unfollow sem nenhum pudor, preservam a originalidade e mudam com facilidade desde que sejam bem convencidos.

No entanto, apesar de saberem disso e terem uma conexão imensa com a tecnologia, a geração Z tende a se fechar em um mundo virtual que pode mascarar a urgência de mudança que nosso mundo precisa, principalmente nos atores principais e executores. É nessa hora que acredito que nós, de gerações anteriores (ou até mesmo os “Z’s” que estão atentos), temos que ajudar a direcionar essa paixão pela tecnologia para acelerar a mudança.

Dentro da organização, devemos tentar fazer o link de objetivos da empresa com as próprias causas dessa geração, pois ela é bem engajada quando encontra sentido. Essa premissa deve estar bem clara entre os gestores, para que possam desenvolver sensibilidade e perceber essa relação sem tornar a busca em um interrogatório desesperado ou sem um viés natural (o que é necessário). Esses jovens são atentos aos exemplos vindos de “cima” apesar de não considerarem muito a lógica de hierarquia.

Uma ação eficiente é o incentivo e apoio a programas de intraemprendedorismo de forma aberta. Ou seja, lança-se o desafio atrelado a alguma dificuldade ou meta da empresa e eles podem trabalhar algumas horas em cima disso livres em termos de metodologia, usando a criatividade para propor algo nunca feito na companhia.

É o muito importante para esse tipo de iniciativa a participação da alta direção e dos gestores, apenas com o intuito de direcionar essas ideias de forma sutil para os objetivos propostos. Esse processo pode ser bem prazeroso, pois normalmente empresa e colaboradores aprendem e descobrem paixões em comum por meio de vivências e perspectivas bem diferentes daquelas de quem está na esfera estratégica e na linha de frente.

Tenho muita crença de que a tecnologia conseguirá encontrar caminhos criativos e eficientes para problemas ambientais, sociais e econômicos. E a geração Z, com sua leitura sustentável e engajada, poderá ser útil nas transformações necessárias tanto nas empresas quanto na sociedade. Assim, poderá fazer de sua época uma passagem marcante e positiva para os grandes desafios que temos pela frente. Basta querer.

 

*Roberta Valença é graduada em Administração de Empresas, pós-graduada em Marketing pela ESPM e em Gestão da Sustentabilidade pela UNICAMP. É fundadora da Arator, consultoria de gestão e educação para sustentabilidade.

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