Programa identifica espécies de pássaros a partir do som que eles emitem

Testes foram desenvolvidos com gravações de aves encontradas no Brasil

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postado em 12/08/2014 18:19

A observação de pássaros é um hobby antigo que envolve paciência, dedicação e, principalmente, um bom ouvido para distinguir o canto de cada espécie. Essa habilidade costuma ser uma das maiores dificuldades encontradas pelos novatos, mas um novo equipamento desenvolvido por pesquisadores ingleses promete facilitar a vida de quem está se iniciando na arte de admirar os bichos emplumados. O método computadorizado consegue identificar sons individuais e em conjunto de aves, com bastante precisão. A novidade promete também ajudar pesquisadores dedicados a estudar a evolução desses simpáticos seres.



Dan Stowell, professor da Escola de Engenharia Eletrônica e Ciência da Computação da Queen Mary University of London, é um dos mentores do projeto, apresentado recentemente em artigo na revista Peer J. Ele explica que a vontade de criar um método de classificação das aves pelo som surgiu após um desafio proposto por uma empresa privada. “Um grupo de pesquisa francês desafiou uma série de desenvolvedores de sistema computacionais a analisar automaticamente gravações de pássaros do Brasil, e nós resolvemos entrar na disputa”, conta.

 

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A nova técnica utiliza um algoritmo de classificação que cria um sistema capaz de distinguir cantos mesmo quando várias espécies estão reunidas. “Nosso sistema faz uma análise poderosa. Ele funciona por meio de uma grande quantidade de padrões de áudio que ocorrem regularmente. Eles são ‘peças de um quebra-cabeça’ que constroem o som de cada ave”, explica.

Para testar o método, Stowell e colegas utilizaram gravações de pássaros individuais e de coros do amanhecer fornecidas pela British Library Sound Archive, além de outras disponíveis na internet, como o arquivo holândes xeno-canto. O sistema de classificação se saiu bem no teste inicial, conseguindo identificar mais de 500 espécies brasileiros, um dos territórios mais ricos do mundo em diversidade de aves. “Pássaros tropicais como os do Brasil soam de maneira única. Esse país é um caso importante a ser estudado”, destaca o pesquisador.

Para Pedro Develey, biólogo e diretor de Conservação da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (Save Brasil), a tecnologia deve facilitar o trabalho de identificação. “Esse sistema pode diferenciar várias espécies simultaneamente, o que pode ser muito útil na análise de gravações remotas nas quais um gravador capta os sons sem a presença de um pesquisador. Isso facilitaria a padronização de coletas de dados em grande escala, além de dispensar a necessidade de colocar vários ornitólogos treinados em campo”, avalia. Segundo ele, em uma floresta tropical, cerca de 90% das identificações são feitas através da vocalização das aves.

O especialista brasileiro também destaca o modo pelo qual a ferramenta foi testada. “É muito interessante o uso de vários sons do arquivo xeno-canto, especialmente no caso das aves brasileiras. Trata-se de uma plataforma da web em que os ornitólogos ou observadores de aves depositam e tornam públicas suas gravações. Ou seja, esse é um bom exemplo de como a participação do cidadão pode contribuir com a ciência”, ressalta.

Aperfeiçoamento

Apesar dessas vantagens, Develey acredita que o projeto merece ter continuidade para que se aperfeiçoe. “Segundo os próprios autores, o método ainda precisa ser melhorado. Além disso, um ornitólogo em campo pode coletar muito mais informações do que apenas a identificação dos cantos. O trabalho é interessante, mas o método é muito mais ligado à engenharia e à física do que à biologia, sendo difícil de entender para quem não é da área”, completa.

Para o criador do método, o programa deve ajudar especialmente no estudo da evolução dos pássaros. “Tenho colegas que gostariam de usá-lo para analisar grandes quantidades de som e responder a perguntas sobre como os cantos de aves evoluíram. Uma coisa realmente interessante é que esses animais evoluem ‘socialmente’, já que a ave aprende a canção dela a partir da música que ouve, e os biólogos buscam compreender esse processo”, destaca Stowell.

Develey acrescenta que o algoritmo será mais útil especialmente para lugares com uma grande variedade de pássaros, como o Brasil. “No país, existem 1.901 espécies de aves e ainda precisamos conhecer muito sobre nossa avifauna. Um método de classificação de cantos automático pode ajudar consideravelmente o treinamento de ornitólogos. Vejo uma importância didática muito interessante nessa pesquisa, apesar de acreditar que nada substitui a ida a campo e a vivência do ornitólogo na floresta”, completa.


Turismo
O Brasil tem a segunda maior diversidade de aves, atrás somente da Colômbia. Por isso, observadores do mundo inteiro costumam visitar o país, que é palco de encontros internacionais. Um dos maiores eventos desse tipo é o Avistar Brasil, com atividades turísticas organizadas em locais como a Mata Atlântica, o Pantanal e a Amazônia.

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