Coleta seletiva completa seis meses no DF e cooperativas pedem mudanças

População e governo têm impressões distintas dos resultados. Atualmente, 8,8% de todo o resíduo coletado são reaproveitados

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postado em 19/08/2014 14:24

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
 

 

Dione Rodrigues é uma cidadã dedicada. Quando soube que o governo implementaria a coleta seletiva no Gama, cidade onde vive, a nutricionista fez questão de separar o lixo seco do orgânico. “Eu me sinto bem em contribuir para o bem-estar da cidade”, diz. Além de aplicar a rotina de separação de resíduos na rotina, estimula os familiares a fazerem o mesmo. Mas todo o esforço “vai por água abaixo”. “Continuo separando, mas sei que, no fim, o caminhão mistura tudo e o nosso esforço não adianta muita coisa.” A nutricionista conta que, após a implementação, por duas ou três semanas o serviço funcionou bem. “Eles passavam direitinho e a gente tinha certeza que o resíduo ia separado até o destino final. Mas isso durou pouco.”



O relato de Dione não é isolado. Implementada em 17 de fevereiro, a coleta seletiva ainda enfrenta muitas críticas da população. Além da mistura dos tipos de lixo, moradores de várias regiões administrativas reclamam que os caminhões não passam no horário divulgado pelo Serviço de Limpeza Urbana (SLU), órgão responsável pela gestão do programa. É o caso de Lucimar Teixeira, que afirma ter visto o caminhão passar nas redondezas pouquíssimas vezes.

Moradora do Setor Militar Urbano, Lucimar comenta que gosta da ideia de separar o lixo doméstico, mas que se sente desestimulada diante do descaso das autoridades. “Eu deixava o lixo na porta de casa porque era para toda quarta-feira o caminhão passar lá, mas, quando esteve lá, nunca foi no dia combinado e aí ficava aquele monte de sacos na calçada”, desabafa.

Em situação parecida, a aposentada Rosemer da Costa conta que não está incluída na rota do programa do SLU. Ela e a família moram em um condomínio localizado em uma avenida movimentada perto da EPTG e do Jockey Clube de Brasília. Logo ao lado ficam as regiões de Vicente Pires e do Guará 1, ambas beneficiadas pelo sistema de coleta. “Por acaso, esta semana vi o caminhão passar no fim da rua, mas, aqui em casa, nunca foi recolhido nada.”

O diretor adjunto do SLU, Hamilton Ribeiro, reconhece que o serviço tem problemas. “Muitas pessoas entram em contato conosco para informar deficiências do sistema e, graças a essa contribuição, temos condições de buscar, ao longo do tempo, sanar essas questões”, avalia. Ribeiro conta que áreas que têm registrado maior problema no programa — e um rendimento bastante abaixo do restante do DF —, são elas: Candangolândia, Núcleo Bandeirante, Samambaia, Santa Maria, Recanto das Emas, Riacho Fundo 1 e 2.

Sobre a mistura dos dois tipos de resíduos, ele pede que a população contribua evitando colocar as sacolas próximas umas das outras nas calçadas. “Não tem como o funcionário identificar saco por saco e, como não existe um raio-x do lixo antes dele parar no caminhão, é complicado saber o que tem ali dentro”, explica. Mesmo com tanto problemas, dados oficiais mostram que, no quesito reciclagem, o SLU colhe resultados positivos: 8,8% do total. No ano passado, apenas 3% do lixo seco eram reciclados. O objetivo estabelecido pelo governo é chegar, até o fim deste ano, a 10% de reaproveitamento de todo o resíduo seco produzido no Distrito Federal.

Cooperativas

A separação indevida do lixo não apenas incomoda a população como também gera prejuízos às cooperativas, que contam com a coleta seletiva para melhorar a qualidade do trabalho diário. A principal reclamação dos catadores é o forte odor gerado por restos de animais e de comida, já que os galpões não são preparados para receber resíduos orgânicos.

Luzia Borges, presidente da cooperativa Acapas, reclama que a mistura de lixo orgânico e seco atrasa o trabalho de triagem. A entidade recebe diariamente entre quatro e cinco caminhões da coleta seletiva e, segundo ela, a qualidade do material piorou. “Além de misturado, o lixo vem muito prensado e as garrafas de vidro chegam ainda mais quebradas. A gente vive cortando a mão aqui.” Devido às novas condições de trabalho, a presidente da cooperativa comenta que o lucro mensal também foi afetado negativamente. Situação semelhante é vivida por 55 trabalhadores da Recicla Brasília, reconhece o presidente da cooperativa, Roque Moreira de Almeida.

Atualmente, 100% do que é coletado é destinado para as 32 cooperativas de catadores cadastradas no sistema do GDF. Segundo o SLU, somente no mês de julho, foram recolhidas 6,3 mil toneladas de resíduos secos nos domicílios do DF.

Como está

Cinco regiões administrativas contavam com a coleta seletiva até o ano passado. Hoje, todas as 31 são atendidas. Em 2013, 3% do lixo produzido no DF era reciclado e, atualmente, o número corresponde a 8,8%. Hoje, 100% do lixo seco coletado é levado para as cooperativas.

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