A natureza agradece

Projetos da Universidade de Brasília dão utilidade a materiais que acabam no lixo e poluem o meio ambiente. Algumas das iniciativas, como a de transformar bitucas de cigarro em papel, já foram adotadas pela indústria

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postado em 01/09/2014 16:54

 

 

Com o mundo ultrapassando os 7 bilhões de habitantes que produzem, cada um, entre 1kg e 2kg de lixo diariamente, já não há espaço para tantos resíduos sólidos. As estimativas das Nações Unidas são que, até 2025, 2,2 bilhões de toneladas de restos de alimento, plástico, madeira, papel etc. sejam descartados no planeta. Se não há como evitar a geração de lixo, a solução apontada por cientistas é o reaproveitamento. Na Universidade de Brasília (UnB), professores e alunos mostram que é possível transformar os resíduos em bens tão distintos quanto biocombustível, papel e até substância para preenchimento de rugas.



“Temos um problema ambiental, não há mais onde jogar lixo, e as cidades cada vez consomem mais”, atesta o químico Paulo Suarez, diretor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico da UnB. Na quinta-feira passada, a instituição organizou uma mostra de 11 produtos criados e patenteados por pesquisadores da universidade, sendo que dois deles já tiveram a tecnologia transferida para empresas, que vão produzi-los em nível industrial.

Uma companhia de reciclagem de Votorantim (SP) apostou na ideia de transformar bituca de cigarro em celulose, um projeto de Suarez, do biólogo Marco Antonio Barbosa Duarte e da professora do Instituto de Artes (IdA) e decana de Extensão da UnB, Thérèse Hofmann. Segundo os inventores da tecnologia, dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam que, em 2001, o Brasil consumiu 140 bilhões de unidades de cigarro, totalizando 30 mil toneladas de resíduos sólidos. Quando chove, o filtro entope bueiros e tubulações, contaminando também a água, pois há quase 5 mil substâncias tóxicas entranhadas nos bastões.

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Por meio de uma reação química, os cientistas conseguem transformar esse lixo em polpa de celulose, usada para fabricar papel. “A UnB é pioneira na questão ecológica e ambiental, sempre foi muito engajada”, observa Hofmann. “O que estamos apresentando é o reaproveitamento de matéria-prima de fácil acesso, que pode ser absorvida tanto pelo pequeno empresário quanto pela indústria”, diz. Se a empresa Poiato Recicla, de São Paulo, pretende produzir papel em larga escala, a mesma tecnologia da guimba de cigarro pode ser aplicada por artesãos para confecção de papéis artísticos, usados em agendas, cartões e bloquinhos, por exemplo.

O presidente da empresa de Votorantim, Marcos Poiato, pretende, ainda, fazer uso do invento dos professores da UnB para substituir a garrafa PET na semeadura. No município paulista, usam-se 10 mil garrafas por mês para produção de mudas, mas o papel, além de mais ecológico, ajuda a reter a umidade da terra, sendo mais eficaz.

Carrinho
Quando ainda era estudante de desenho industrial da UnB, o hoje designer Henrique Meuren foi desafiado em uma disciplina a inventar um produto para espaços pequenos. “Eu não queria ficar nessa coisa de móvel, aí uma colega viu um gari tentando manusear o carrinho de lixo e propôs uma coisa nova: juntar algo pequeno e sustentável, social”, explica. Foi assim que surgiu o coletor feito de banner, projetado especialmente para a limpeza urbana. Ergonômico, leve e flexível, é feito de vinil, lona e tecido, com custo de produção muito baixo. Enquanto o carrinho tradicional usado em Brasília saiu a R$ 500 na última licitação, o inventado pelos pesquisadores da UnB custou R$ 250. “Esse preço cairá muito, porque o nosso carrinho foi feito artesanalmente, e não em escala industrial”, conta Meuren.

Para chegar ao desenho do produto, primeiramente os inventores foram atrás dos principais usuários: os garis. Eles descobriram que, além de pesado, o carrinho que circula nas ruas da cidade não tem regulação de altura nem inclinação. Principalmente para as mulheres, ele é bastante pesado. Além disso, esquenta demais, machucando as mãos, e não tem espaço para guardar objetos pessoais — os garis ouvidos pela equipe contaram que envolvem as marmitas em um saco plástico e a depositam no mesmo espaço onde o lixo será colocado. O banner foi escolhido para matéria-prima por ser um plástico resistente e altamente descartado.

Cosmético
Até mesmo o setor de estética, um dos mais cobiçados pelos brasileiros, pode ser beneficiado pelo lixo. Um dos produtos apresentados na mostra da UnB foi o bioplástico produzido a partir do resíduo da indústria de biodiesel. Incubada no CDT, a empresa de bioprocessos Integra é a responsável pelo processo.

A bióloga Nadia Parachin explica que os cientistas usam um tipo de levedura modificada geneticamente para produzir o L-ácido lático, matéria-prima do bioplástico. Esse material pode ser usado na manufatura de diversas embalagens, como garrafas d’água, copos descartáveis e sacos para armazenamento de cereais, entre outros. Além disso, o mesmo bioplástico serve para preenchimento de rugas. Os fungos produzem o ácido quando são colocados em um reator junto com o lixo proveniente da fabricação de biodisel. “A mágica da nossa levedura é converter o resto da indústria de biodisel em um produto de alto valor agregado”, diz Parachin.


As invenções

Bioplástico a partir de resíduo da indústria de biodisel: com leveduras modificadas geneticamente, os pesquisadores produziram L-ácido lático, precursor do bioplástico

Ração de macaúba: alimento energético e proteico para ruminantes feito com resíduos da macaúba, planta usada na produção de biodisel

Enzimas para bioetanol: produção de enzimas para uso industrial em processo de degradação de biomassa (bagaço da cana, palha, capim etc.), para produção de combustível

Celulose e papel a partir de bituca de cigarro:
reciclagem da bituca para obtenção de celulose e confecção de papéis com alta durabilidade

Reciclagem de papel moeda:
tecnologia que permite a retirada da resina de formol e melamina que reveste notas de dinheiro, recuperando, assim, a celulose do papel Hidrocarbonetos leves a partir da gordura: reaproveitamento de resíduo de óleo de soja e rejeitos de gordura animal para produção de biocombustível leve e solventes

Conversão de óleo em combusível: reator que converte óleos e gorduras em combustível

Móveis sociais: desenho industrial para móveis desenvolvidos a partir de madeira de demolição descartada no lixão

Carrinho de lixo:
ergonômico e dobrável, fabricado com vinil, lona e tecidos

Polimerização térmica de óleos e gorduras: óleos e gorduras de origem vegetal, animal e microbiana são usados na produção de tintas e lubrificantes

Telha-coletor solar: tem a dupla função de cobrir telhados e captar energia solar

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