Investimentos de empresas ajudam comunidades a preservar o cerrado

Com foco na geração de renda e na inclusão social, projetos beneficiaml agricultores, assentados da reforma agrária, pescadores, extrativistas e guias turísticos

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postado em 11/09/2014 16:46

Sinclair Maia/Esp. CB/D.A Press.



São quase 400 quilômetros de distância entre Brasília e São Domingos (GO). À beira da estrada, apenas pequenas comunidades e muito cerrado preservado podem ser vistos. Mas para chegar à cidade de dez mil habitantes, localizada no nordeste de Goiás, é preciso percorrer alguns quilômetros dentro da Bahia. E é ao atravessar a divisa dos estados que se pode ver claramente a fronteira agrícola de algodão e soja que devastou a terra que antes era mata. No entando, graças a iniciativas nacionais e internacionais, parte do cerrado está protegida da produção de commodities.


São Domingos é um exemplo dessa realidade. Apesar de estar bem próxima das plantações na divisa com a Bahia, a pequena cidade tem sua floresta original preservada. Um dos motivos é o projeto de desenvolvimento sustentável implementado em 2005 pela Fundação Banco do Brasil na região. Com foco na geração de renda e na inclusão social de pequenas comunidades, o projeto beneficia dois mil agricultores, assentados da reforma agrária, pescadores, extrativistas e guias turísticos, que vivem em 74 municípios de Goiás e de outros três estados.

Por meio do Centro de Desenvolvimento Agroecológico (Cedac), o projeto implementou um centro de formação em agroecologia em Goiânia, que oferece às famílias beneficiadas cursos em manejo de frutos do cerrado, beneficiamento, produção agroecológica e certificação orgânica. Anualmente, cerca de 400 pessoas são capacitadas no local.

Gualdino Pereira foi um dos primeiros a serem beneficiados pela iniciativa. Nascido na Bahia e morador de São Domingos desde 1978, Gualdino conta que sempre viveu do extrativismo e da agricultura familiar, mas somente após a chegada do projeto à sua região a qualidade de vida dos moradores melhorou. “A gente colhia os frutos e tinha um atravessador que comprava. Mas ele não pagava o justo e muitas vezes demorávamos até um ano para receber o valor da venda”, conta. “Com a chegada do projeto não tem mais atravessador. Vendemos direto para a indústria e recebemos em até 30 dias. Ganhamos mais e em um tempo mais curto. Nós conquistamos isso. E, em troca, preservamos.”

A importância do extrativismo

Além de garantir até 50% dos rendimentos do mês por meio do extrativismo, Gualdino e seus companheiros entendem a necessidade de preservar o bioma. “Não somos extrativistas só pelo dinheiro, mas também pela preservação da natureza. Antes era um descontrole enorme. Agora o desmatamento está sob controle na região”.

Ele conta que a consciência ambiental, antes exceção entre os moradores, agora faz parte do dia a dia da cidade. “Era comum a gente colher uma vez o baru e depois derrubar a árvore para fazer cerca. Com os ensinamentos do Cedac a gente percebeu que desmatar era jogar dinheiro no lixo”, conta o conselheiro e diretor financeiro da Coopcerrado, cooperativa que representa os extrativistas e pequenos agricultores. “Hoje temos consciência da importância de manter a floresta em pé, não só pela renda que ela nos fornece mas também pela conservação do meio ambiente. Se não for assim, em pouco tempo nossas crianças vão conhecer o cerrado apenas pelos livros”.

De olho na preservação
Osmar Alves de Sousa, conselheiro da cooperativa e companheiro de Gualdino na extração dos frutos do cerrado, explica que o que não falta é variedade de alimentos em meio aos troncos retorcidos. “Tem gente que acha que cerrado é só mato, mas o que mais temos são alimentos e riquezas por aqui”.

Entre os produtos colhidos estão a favela, a castanha de baru, o jatobá, o pequi e a sucupira. No total são 200 plantas manejadas, cultivadas e comercializadas pela cooperativa. “Mas a gente não tira aleatoriamente, temos um cálculo para não faltar alimento para passarinhos e outros animais”. De acordo com Osmar, os extrativistas são orientados a deixar 10% das frutas nas árvores. “E eles nos ajudam também porque muitas vezes uma paca come a fruta aqui e lá na frente defeca a semente que dá outro pé. A natureza é inteligente e a gente tem a obrigação de deixar ela se renovar”.

Sinclair Maia/Esp. CB/D.A Press.


Investimento estrangeiro
Não são só instituições brasileiras que reconhecem a importância do cerrado. Organismos internacionais, como o Banco Mundial, também valorizam a diversidade do bioma. Tanto é que no ano passado o banco, em parceria com o Fundo de Investimento do Clima, anunciou projeto que contará, a partir deste ano, com investimento de R$ 14 milhões na preservação do bioma. Do valor total, 70% vão diretamente para comunidades indígenas e tradicionais que praticam a agricultura familiar, o extrativismo sustentável e o artesanato com foco na diminuição do desmatamento, da produção de carvão, da ocupação desordenada e das queimadas.

De acordo com Jailton Hycroh, que trabalha com processamento de cajus na empresa Fruta Sã, no Maranhão, 20% da matéria-prima processada na empresa em que trabalha vêm da agricultura indígena, porém, esse número poderia chegar a 50% se os indígenas tivessem condições de extrair e transportar essas frutas com segurança. E é esse tipo de ajuda que o Banco Mundial pretende dar às comunidades beneficiadas. “O cerrado, em algumas áreas, já está em estado de desertificação por causa das queimadas e o fogo também afeta as frutas, que dão alimento a tanta gente. Por isso é tão importante preservá-lo”, diz Hycroh.

Números do cerrado
» Ocupa 22% do território nacional, o equivalente a 2,039 milhões de quilômetros quadrados
» Cerca de 50% da floresta original foram desmatadas
» É considerado a savana mais rica em biodiversidade do mundo
» Possui 11.627 espécies de plantas nativas, 199 espécies de mamíferos e 837 espécies de pássaros
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