Entre móveis, flores e remédios

Artesãos encontram no cerrado matéria-prima. Ofício ajuda a disseminar a importância da preservação do bioma

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postado em 11/09/2014 17:33

Sinclair Maia/ Esp CB/DA Press

 

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Com o olhar distante de quem está pensando na próxima peça a compor,Tunico Lages é direto. “O cerrado é tudo”, resume. “Mas precisa ser mais bem tratado, porque é um ambiente único e está diminuindo. Este afã de querer mais do que se precisa é o que destrói.” Sua arte é criar móveis de madeira com troncos de árvores do cerrado que morreram naturalmente. Tunico não gosta de ser chamado de designer de móveis porque vê na denominação um caráter mercadológico e impessoal. Prefere ser conhecido como artesão, como chama os 12 funcionários que o ajudam.



Tunico cria mesas, armários, bancos e outras peças únicas, com troncos de jacarandá-do-cerrado, sucupira-branca, angico, pau-terra, araticum, entre outras árvores, que caíram naturalmente, provenientes sobretudo da cidade de Formosa. O jeito simples do artista não dá pistas do alcance da sua obra, que se encontra em pelo menos 30 países, mas sugere uma história de vida interessante. Economista por formação, o artesão faliu enquanto trabalhava na bolsa de valores, em 1971, e decidiu viajar pelo planeta. Quatro anos depois voltou ao Brasil e foi acometido por uma epifania: iria se tornar marceneiro, para o desespero da família. Deu certo e ele exerce o ofício há 38 anos. “Isso aqui para mim não é trabalho, é brincadeira. E brincadeira é a coisa mais séria do mundo. Já viu criança brincando, a concentração?”

Parceira de Tunico não só como esposa mas também como ponto de apoio do seu trabalho, Grace Elissa conta que algumas vezes procuraram o ateliê oferecendo a possibilidade de cortar uma árvore grande e antiga. “Então acaba sendo um trabalho muito pedagógico, na recusa do corte da árvore, de conscientizar as pessoas para preservar a natureza e aproveitar o que parece inútil, o que está morto.” O marido concorda. “Não vou mudar o mundo, mas sinto que muita gente está mais sensibilizada quanto à causa.”

A preocupação do casal com a vegetação local é coerente, já que o ambiente é o que fornece o sustento dos artistas do cerrado, e os mais veteranos já sentem a devastação. Josemar Fernandes trabalha há 42 anos em frente à Catedral de Brasília fazendo arranjos de flores e folhas. “A maioria dos brejos aonde a gente ia colher a matéria-prima virou prédio", conta o artesão, que utiliza em seu trabalho as plantas sempre-viva, pimentinha, rabo-de-raposa, sobreira, capim-arroz, barba-de-bode e folha-moeda.

Além de produzir artesanato, Josemar é professor. Guajará Ferreira foi um de seus aprendizes 32 anos atrás. Hoje seu vizinho de banca, o cearense Guajará enfatiza a necessidade de se preservar o cerrado. “A natureza tem um papel muito importante e por isso a gente precisa preservá-la. Só pegamos os materiais na época certa, e mesmo assim fica cada vez mais difícil encontrar”.

Seguindo a mesma linha de pensamento, a artesã Roze Mendes propõe uma solução. “O que eu queria mesmo é que houvesse uma reserva para que todas as pessoas que trabalham com isso pudessem colher a matéria-prima lá, e que fosse ao mesmo tempo um centro de pesquisa, porque assim as pessoas valorizam.”

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