Do carvoeiro ao pequi

Inventário mostra que fruta associada aos goianos é o produto mais procurado pelos brasilienses. Em áreas não florestais, destaca-se a embaúba

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postado em 11/09/2014 17:45 / atualizado em 11/09/2014 17:49

 

Os habitantes do cinquentenário retângulo inscrito no meio de Goiás podem até negar algumas semelhanças com os vizinhos mais antigos. Mas, quem diria, um dos ícones da culinária goiana, o pequi, é o produto não madeireiro mais procurado pelos habitantes do Distrito Federal nas áreas de cerrado que ainda cercam a capital do país. A revelação faz parte de um levantamento das áreas verdes do Brasil, o Inventário Florestal Nacional (IFN). O Correio teve acesso com exclusividade a uma prévia dos dados do DF, que deverão ser publicados em breve na íntegra pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB).



A ida a campo ficou a cargo de equipes da Universidade de Brasília e permitiu a identificação de 331 espécies diferentes. Consideradas as áreas não florestais, lideram a lista a embaúba, entre as nativas, e a mangueira, das exóticas. Algumas espécies ameaçadas de extinção pouco apareceram. Apenas três exemplares foram encontrados do coração-de-negro, uma das árvores mais altas do cerrado. Da aroeira só foram encontradas 25 árvores.

Do catálogo do Jardim Botânico de Brasília, somente 331 foram encontradas, ou 77,5%. “Não podemos dizer que o número tem a ver com extinção ou diminuição de espécies, mas com a metodologia de distribuição dos pontos amostrais. Algumas espécies são endêmicas de certas regiões, então caso o ponto amostral não tenha caído nessas áreas, elas não foram encontradas. Como o inventário não é um censo, pode haver essa discrepância", diz Raquel Leão, analista do SFB.

A engenheira florestal chama atenção para a periodicidade do levantamento. Cada um dos pontos amostrais deverá ser revisitado a cada cinco anos, para a criação de uma série histórica. “O bacana é esse ciclo. Esse foi só o primeiro, e a cada novo estudo, a qualidade dos dados aumenta. A função do inventário é justamente ter informações para basear políticas públicas do setor”.

As 1.211 amostras recolhidas em campo foram encaminhadas ao Herbário da Reserva Ecológica do IBGE. Devido ao tipo e às condições do material, apenas 261 foram incorporadas à coleção. Outra parte foi enviada para a identificação. “A maioria foi identificada no próprio herbário. Quando tínhamos duplicatas, mandávamos para especialistas, e a amostra fica com eles. É uma forma de pagar pelo serviço, já que não é pago em moeda”, explica a curadora do Herbário, Marina de Fonseca.

Ela diz que não esperava por amostras de mata virgem, mas ficou decepcionada. “Muitos pontos amostrais da ida a campo caíram em chácaras, em locais antropizados. Dentre as coletas vieram pinheiros, que não pertencem à nossa flora”. Apesar do quadro, Marina ressalta o valor do IFN. “Embora traga dados tristes, as muitas espécies invasoras devem ser analisadas, é um dado para se ficar alerta.”

Mosaico verde
Preferida dos brasilienses
Pequizeiro: 54 árvores encontradas

Mais frequente
Carvoeiro: 208 árvores encontradas

Mais encontrada fora das florestas
Embaúba: 25 árvores encontradas

Líder das exóticas
Mangueira: 49 árvores encontradas

Em risco de extinção
Aroeira: 25 árvores encontradas

Além do pequi
O IFN analisou toda a vegetação encontrada em 63 diferentes localidades do DF, de 4 mil m² cada, totalizando uma área equivalente a 25 campos de futebol. Como a distribuição dos pontos amostrais é, de certa forma, aleatória, alguns pontos caíram sobre chácaras e plantações, não só em regiões de cerrado. O inventário não contabilizou os vastos gramados e a arborização das áreas urbanas, sendo restrito às áreas rurais.

A conclusão é que cada brasiliense tem pouco mais de meio campo de futebol (0,5 hectare, ou 5 mil m²) de área de floresta para chamar de sua. As florestas ocupam 25% da área do DF (143 mil hectares) e a agricultura responde por outros 36% (208 mil hectares).

As entrevistas com moradores da área rural revelaram, além do gosto pelo pequi, que a proteção das nascente é o benefício direto das florestas mais lembrado pela população. Logo depois aparecem o lazer e a saúde. Os efeitos das mudanças climáticas já podem ser sentidos no dia a dia, acreditam 70% dos entrevistados.

 

 

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