Em defesa do cerrado

No dia dedicado ao bioma, ação de ONG promove o plantio de 70 árvores no Parque Ecológico da Asa Sul a fim de conscientizar a população para a importância da preservação

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postado em 12/09/2014 11:02



Mais do que uma celebração, o Dia do Cerrado, ontem, foi uma data para se refletir sobre a destruição desse bioma. Assim, com a intenção de conscientizar os moradores do Distrito Federal sobre a importância da preservação ambiental, a Ong WWF-Brasil promoveu o plantio de 70 mudas de espécies nativas no Parque Ecológico da Asa Sul.


Depois da Mata Atlântica, o cerrado é o bioma brasileiro que mais sofreu degradações com a ocupação humana. Além da abertura de áreas para a criação de gado e o plantio de grãos, há um progressivo esgotamento dos recursos naturais também com a exploração predatória para produção de carvão. Mais da metade do cerrado foi desmatada nos últimos 50 anos, e a taxa anual de desflorestamento é de 0,69%, maior do que a da Amazônia, indica o WWF-Brasil. Nesse ritmo, estima-se um prazo de 40 a 50 anos para o desaparecimento dos recursos florestais.

Para o coordenador do Programa Cerrado-Pantanal da Ong, Júlio César Sampaio da Silva, é preciso despertar a consciência da população. “A comunidade tem que abraçar a causa do meio ambiente. Cuidar dos parques e das reservas é cuidar da vida. Cada um tem que ser um agente ambiental”, reitera. Ele esclarece ainda que o plantio de 70 unidades de árvores foi simbólico, pois o período não é adequado. “A melhor época é entre novembro e o fim de fevereiro, quando estamos na fase chuvosa. Mas a data não poderia passar em branco”, frisa.

“A preservação é um trabalho diário”, definiu o presidente do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), Nilton Reis. O DF tem 73 parques, alguns com uso restrito e outros liberados para a população. As dificuldades em manter as áreas protegidas são várias, desde o desmatamento até o abandono das reservas. “Precisamos do amparo da comunidade. Alguns parques são tomados por usuários de drogas. Em outros, carroceiros despejam entulhos. Além do Ibram, é necessário que as pessoas cuidem dos parques, pois esse é um bem comum”, pediu.

Segundo o Ibram, o programa Brasília, Cidade Parque prevê que 1,6 milhão de árvores vão ser plantadas até 2015, a maioria com recursos de compensação ambiental e florestal. “É preciso repor essas árvores. Quem retira uma tem que replantar 30 para compensar o meio ambiente”, afirmou.

No Brasil, o cerrado tem apenas 7,44% de área protegida por unidades de preservação, sendo que aproximadamente 2,91% são resguardados na forma de unidades de conservação de proteção integral, tais como os parques nacionais, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente.

A gestora e educadora ambiental Márcia Godoy pede mais ações do governo. “Faltam políticas públicas para a área. No Brasil, as leis são sempre a favor da ocupação do solo, muitas vezes uma ocupação inconsciente. O homem precisa entender que ele não é o centro do planeta, há outros seres vivos. E a função do governo é regulamentar isso. O meio ambiente é onde a gente ocupa, onde a gente vive, não somente os parques e as reservas, caso contrário a espécie humana vai acabar”, alerta ela.

Pensando no futuro, em algumas escolas do DF, o ensino ambiental começa cedo. Em média, desde os 10 anos de idade, as crianças estudam o conceito. “As atividades ligadas ao meio ambiente são divididas em várias disciplinas. Nessa saída de campo em comemoração ao Dia do Cerrado, os alunos têm contato com a prática de teorias já vistas em sala. São crianças pequenas, é importante acordar o entendimento sobre o meio ambiente e a sustentabilidade”, explica a professora do ensino básico Ana Cristina.

Queimadas
Entre agosto e outubro, auge da seca, o cerrado sofre com as queimadas. Trata-se do bioma com o maior índice de incêndios do país, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A utilização do fogo como manejo da terra, principalmente por agricultores e na época de seca, oferece grande risco à biodiversidade e às pessoas. Além da destruição da fauna e da flora, as queimadas podem se alastrar para áreas próximas. “O uso do fogo é bastante perigoso, principalmente se a utilização de manejo acontece próximo às áreas urbanas”, explica o analista ambiental do Parque Nacional Chapada dos Veadeiros, Fernando Rebello.

Os prejuízos são grandes. Diminuição da qualidade do ar; problemas com infraestrutura, como a queda no fornecimento de energia elétrica; perdas em propriedades rurais e baixa visibilidade em rodovias são exemplos das interferências das queimadas. “Os problemas relacionados ao fogo afetam a vida das pessoas, estejam elas nas cidades ou em áreas rurais. Por isso, é importante entender que a ameaça vai além do impacto direto na natureza”, pontua Rebello.

22% do Brasil
O cerrado ocupa uma área superior a 2 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a 22% de todo o território nacional. Abriga 11.627 espécies de plantas nativas catalogadas. Dessas, 220 têm uso medicinal, e mais de 10 tipos de frutos comestíveis são regularmente consumidos e servem de fonte de renda para comunidades extrativistas.

Variedade
De acordo o coordenador do Programa Cerrado-Pantanal da WWF-Brasil, Júlio César Sampaio, 199 espécies de mamíferos, 837 de aves, 1,2 mil de peixes e 330 de répteis e anfíbios do cerrado são conhecidas. O bioma é refúgio, ainda, para 13% das borboletas, 35% das abelhas e 23% dos cupins dos trópicos.

Berço das águas

O cerrado tem grande reserva subterrânea de água doce e abastece as principais bacias hidrográficas do país: Amazonas, Tocantins/Araguaia, São Francisco, Paraná e Paraguai. Por isso, é fundamental para o abastecimento humano, para a geração de energia e para a produção agrícola. Em termos de variedade de espécies, concentra 5% da biodiversidade mundial e 30% da brasileira. Ocupa um quarto do território nacional e é um importante elo entre outros quatro biomas do país (Amazônia, Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal).
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