Contra corrente

Professor da Universidade de Brasília afirma que mudanças climáticas são causadas em pequena escala pelo homem, o oposto do que a academia no mundo pensa sobre o assunto

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 29/09/2014 18:49 / atualizado em 30/09/2014 14:49

Edu Lauton/UnB Agência

 

Diante da quantidade relevante de pesquisadores que defendem a ideia de que o homem é o principal agente transformador do clima, vertentes de cientistas tentam prova o contrário. É o caso do professor do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), Gustavo Macedo de Mello Baptista, que há anos leva o assunto para novas discussões.



Para ele o que de fato influencia nas alterações de temperatura na Terra são as manchas solares, as erupções vulcânicas e as oscilações de oceanos. Outro ponto discutido com bastante ênfase é o real impacto do dióxido de carbono -- ou CO2 -- no aquecimento global. Segundo ele, o grande vilão do acúmulo de calor é o vapor d’água, responsável por 95% do efeito estufa. O CO2 contribui apenas com 3,6% na soma final e, no final das contas, apenas 0,1% deste dióxido de carbono tem contribuição humana. Para entender mais sobre a tese climática do Gustavo Baptista, leia a seguir a entrevista concedida com exclusividade ao Ser Sustentável.

Um texto publicado no site da UnB faz um breve resumo das ideias defendidas pelo senhor. Porque decidiu estudar o tema? Qual foi a questão que o motivou a estudar o assunto?


Esse tema me incomoda há cerca de 20 anos, quando começamos a ver na mídia discussões sobre o papel do homem nas mudanças climáticas. Por ter lecionado climatologia por muitos anos, percebia que as hipóteses levantadas partiam de premissas equivocadas. Todo um discurso baseado no carbono como o grande regulador térmico ia contra o papel que o vapor d'água tem no efeito estufa. Além disso, como geocientista tenho a compreensão que na história climática do planeta já tivemos momentos mais quentes e mais frios, mesmo quando o homem não fazia parte da biosfera planetária.

Qual foi o seu objeto de estudo e que resultados alcançou no final da pesquisa?

Meu objetivo sempre foi mostrar aos estudantes e ao grande público a outra versão da dinâmica climática terrestre e quais os elementos que realmente interferem nos ciclos de aquecimento e de resfriamento. O resultado de toda essa reflexão foi publicado em 2009 no livro "Aquecimento Global: ciência ou religião?" Seu título retrata o aspecto dogmático que a discussão do tema acabou tomando. Tanto que os que não acreditam no aquecimento gerado pelo homem ou antropogênico são chamados de "céticos"; os que acreditam são os "crédulos". É quase uma seita climática. Acho que todo acadêmico deve ser cético, pois aceitar as questões de forma dogmática não combina com pessoas que trabalham com ciência e que investigam os fenômenos naturais.

Quais foram os pontos da pesquisa que indicaram que a mudança climática não é resultado direto da ação humana?


Veja bem. A interferência humana no clima ocorre em escala local de forma muito clara. Quando desmatamos uma área e a impermeabilizamo-na reduzimos a umidade do ar e geramos desconforto térmico. Isso é interferência do homem no clima e gera um fenômeno chamado "ilhas de calor". Tenho diversos artigos que tratam desse problema. Mas o que discuto é qual é a interferência do homem na escala global. Principalmente quando partimos do CO2 como o grande vilão da história. Quando avaliamos os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) temos a certeza que nunca antes no planeta tivemos temperaturas tão altas e que o CO2 é o grande responsável pelo problema. O clima planetário já teve momentos mais quentes e mais frios que o atual. Quando os vikings navegavam o ártico estava descongelado. A Groenlândia é chamada em inglês de Greenland, ou terra verde, porque quando foi descoberta não estava coberta por gelo. E o principal gás de efeito estufa é a o vapor d'água e ele responde por 95% do efeito. O CO2 representa 3,6% e destes, 3,5 são naturais e o homem contribui com 0,1% do efeito estufa decorrente do CO2.

De alguma forma é possível afirmar que o homem possa ter influência indireta nas mudanças climáticas?

Sim, principalmente em escalas mais locais. E é o grande agente de mudanças, mas pela alteração do padrão de cobertura do solo e não por emissão de CO2.

Se o homem não é a grande causa das mudanças climáticas, o que as causa, então?


O principal controlador do clima é o Sol e este varia de acordo com os ciclos de manchas solares. Depois temos a temperatura dos oceanos que variam em ciclos que duram de 20 a 30 anos. Começamos em 2007 um novo ciclo frio do Oceano Pacífico e a tendência é que tenhamos resfriamento nesse período, com o predomínio de eventos de La Niña sobre os El Niños. Temos as atividades vulcânicas que também interferem, pois quanto mais poeira vulcânica na atmosfera menor tende a ser a entrada de radiação e há tendências de resfriamento. Esses são os principais.

Semana passada aconteceu a Cúpula do Clima, na sede da ONU em Nova Iorque. Um dos pontos mais discutidos é a redução da ação humana negativa na natureza (ou pelo menos uma intervenção sustentável do homem no meio ambiente). De que forma o seu estudo confronta ou apoia estas posições?

A discussão foi em relação ao desmatamento e dos BRICS, Brasil, China e Índia não assinaram essa proposição. A discussão de desmatamento é muito importante, pois temos realmente alterações climáticas locais decorrentes dessa ação, mas isso não entra na discussão do aquecimento global antropogênico. Os BRICS representam um novo modelo de desenvolvimento e que assusta os países tradicionais, principalmente os desenvolvidos. Se você coloca o CO2 como grande vilão e cria estratégias de controle de emissões desse gás, você controla a queima de combustíveis fósseis que é a base energética dos países emergentes. Mas porque as reuniões climáticas não saem do papel e não chegam a ações eficientes? Porque ninguém quer pagar a conta. Ainda mais quando a premissa é muito frágil sob o ponto de vista científico.

O que se discute hoje em dia é que é preciso mudar a forma de produção industrial e energética, bem como diminuir o desmatamento e criar políticas de incentivo à redução da emissão de gases poluentes. Essas ideias ainda são viáveis a partir do ponto que o homem não seja responsável pelo aquecimento global?


São fundamentais e não invalidam os pontos que defendo. Todas essas questões são fundamentais para que tenhamos qualidade de vida para a atual e futuras gerações. O que não concordo é ser acusado de cometer um crime contra a humanidade por ser um ser emissor de CO2 e não é correto que sejamos responsáveis por uma culpa que não temos. Mas precisamos rever todas esses pontos, como produção industrial, energética, desmatamento, poluição, pois nessas questões somos responsáveis pelos nossos atos.

De acordo com os resultados da sua pesquisa, existe alguma forma de frear as mudanças climáticas. Se sim, quais são essas formas e de que maneira o homem pode contribuir?


As mudanças climáticas sempre existiram e não há o que frear, pois elas fazem parte da dinâmica do planeta. Clima significa inclinação e enquanto a Terra for inclinada em relação ao seu plano de órbita teremos climas. O que temos que fazer é verificar os pontos que são importantes para vivermos bem e com harmonia com os nossos irmãos de humanidade e com o planeta que nos acolhe e que é tão maltratado pela nossa espécie.

De acordo com a sua pesquisa, de que forma o aquecimento global/mudanças climáticas pode mudar a vida no planeta?

As mudanças ocorrem em ciclos maiores que determinam glaciação e não glaciação, ciclos médios multidecadais que determinam aquecimento/resfriamento e ciclos curtos que geram El Niño/La Niña. Esses ciclo interferem nos períodos de estiagem e chuvas, bem como na temperatura das localidades. Na década de 70 falávamos de uma nova era glacial que se aproximava, nos anos 2000 falávamos de aquecimento global. A tendência é que a mídia volte a falar de novas eras glaciais e assim sucessivamente.

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.