Pequizeiros florescem: espetáculo encanta estudiosos e artistas da capital

A vegetação floresce e, com eles, um espetáculo que encanta estudiosos e artistas. Comum no cerrado, tem publicações a seu respeito desde 1824

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postado em 16/10/2014 16:21 / atualizado em 16/10/2014 16:24

 

 

Os pequizeiros estão em flor. Há deles, não muitos, espalhados pelo Plano Piloto, a maioria nativa remanescente do tempo em que não havia Brasília, só o cerrado em estado de plenitude. A flor do pequi exala erotismo na forma, no cheiro, na polinização. O órgão sexual masculino da flor se divide em centenas de estames, filamentos pontiagudos — um único exemplar pode ter mais de 500 estames!, conta, com exclamação, a professora Sueli Maria Gomes, do Departamento de Botânica da Universidade de Brasília (UnB). “Essa característica é pouco comum entre as espécies de plantas que habitam nosso planeta”, diz Sueli. É exótica a flor do Caryocar brasiliense, nome científico do pequizeiro.



A artista plástica goiana Elma Carneiro, do site caliandradocerrado.com.br, exalta o caráter sexual dos estames. Outra pintora, Therese von Behr, também se impressiona com o formato sensual da floração: “As flores enormes com muitos estames insinuam o propalado efeito afrodisíaco”, escreveu em A flora no Planalto Central do Brasil, coleção de aquarelas de flores do cerrado. É a flor do pequi quem abre a luxuosa brochura.

É à noite que se dá a polinização. Não é uma fertilização convencional — não são passarinhos ou abelhinhas os responsáveis pela multiplicação das espécies. A flor do pequi escolheu um polinizador mais viril — o morcego. Os mamíferos voadores são atraídos pelo cheiro exalado das pétalas internas da flor, como ensina Sueli Gomes. “Em cada noite, uma a três flores ficam abertas por inflorescência quando são visitadas pelos morcegos, que fazem a polinização.”

Há um inaudito erotismo na descrição que a professora faz do encontro do morcego com a flor: “Eles se orientam pelo olfato para localizar as flores. Buscam-nas porque há uma recompensa esperando por eles. Trata-se do néctar, que é produzido perto do ovário do gineceu. O nectário (estrutura que produz o néctar) fica na base, circundando o ovário. Quando os morcegos estão se alimentando do néctar, eles se encostam nas anteras dos estames, lambuzando principalmente as cabeças com o pólen e também se encostam na região receptiva do gineceu.”

A professora Sueli Gomes se utiliza de ferramentas científicas para descrever a polinização da flor de pequi, mas a narrativa cairia muito bem numa prosa sensual: “Quando a flor abre, os estames estão férteis, liberando o pólen, mas o gineceu ainda não está receptivo. Somente cerca de duas horas depois que a flor se abre é que o gineceu se mostra receptivo, o que pode ser percebido pelo fato de que o estigma (situado na ponta do gineceu) fica úmido. Essa umidade é mucilaginosa, pegajosa, possibilitando que o pólen fique ali aderido. Quando a cabeça do morcego encosta no estigma úmido, o polén fica grudado na mucilagem estigmática”. Completa-se a polinização.

Numa mesma árvore, pode-se observar a floração nos vários estágios, e a formação de frutos, em cachos graúdos. De dezembro a fevereiro, dá-se a colheita do pequi. Seu nome científico, Caryocar brasiliense, vem do grego caryon (núcleo ou noz) e kara (cabeça), em referência à forma globosa do fruto. Brasiliense, por ser originário do Brasil. O pequi foi descrito, pela primeira vez, pelo francês Auguste de Saint-Hilaire em Flora Brasiliae Meridionalis, publicado em 1824 (original disponível na internet).

Arredia
Tombado como árvore típica do cerrado, pelo Decreto 14.783, de 17 de junho de 1993, o pequizeiro não facilita a produção de mudas. Daqui a dois meses, os jardineiros da Novacap começarão a coletar frutos para o demorado processo de germinação artificial da espécie. São acondicionados em sacos plásticos, nos quais permanecem por 10 dias até que a casca e a polpa fiquem amolecidas, segundo explica o engenheiro agrônomo Raimundo Moreira Lima, chefe da Divisão de Agronomia do Departamento de Parque e Jardins.

Passado o descanso, casca e polpa são retiradas para que deles só restem a semente e a amêndoa existente dentro dela. O caroço é, então, submetido a uma quebra química de dormência a fim de que, finalmente, germine. É preciso esperar de 60 dias a um ano para que da semente brote uma plantinha. As primeiras brotações podem ocorrer em dois meses, mas um ano depois ainda haverá novas mudas surgindo no canteiro semeado.

A flor erótica e exótica que produz um fruto de sabor acentuado de cheiro penetrante tem o nome retirado do tupi — py = casca e qui = espinho. Arisco e ao mesmo tempo incisivo, crispado no tronco e delicado na floração, o pequizeiro é o sumo do cerrado — estranhamente belo. E a flor, a explosão erótica do pequi.

Encontre aqui
Alguns locais onde há pequizeiros em Brasília: Parque da Cidade, intersecção da Avenida das Nações com a Estrada Parque Aeroporto, superquadras, pista de Aeromodelismo no final da Asa Sul, Eixo Monumental, bosque próximo ao Supremo Tribunal Federal. gramado próximo à pista que sai da Epia e dá acesso ao Setor Policial Sul, Parque das Sucupiras e Sudoeste Econômico.


Mapa do pequi
Locais onde foram plantados pequizeiros entre 2007e 2009.
É o levantamento mais recente do Departamento de Parques e Jardins da Novacap
Local - Mudas
» Parque da Cidade - 130 mudas
» Parque Vila Planalto - 18
» Parque Asa Sul - 25
» Área adjacente 216 Sul - 17
» Sudoeste - 20
» Epia - 50
» Eixo Monumental - 20
» Parque Burle Marx - 16
» Total - 296 mudas

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