Aquecimento global já é quase irreversível

Em relatório alarmante, IPCC indica que planeta deve se mobilizar para baixar temperatura global. Impactos do aquecimento vão de ondas de calor ao aumento da fome no mundo

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postado em 03/11/2014 14:53 / atualizado em 04/11/2014 15:45

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Um futuro próximo catastrófico está a caminho, caso não se tomem medidas urgentes e drásticas de contenção do aquecimento global. Ainda há tempo para provocar mudanças, mas ele é cada vez mais curto. O alerta é de um novo relatório divulgado ontem pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas. Os especialistas afirmam que as emissões dos três principais gases que provocam o efeito estufa estão em seu maior nível em 800 mil anos.



“A influência humana no sistema climático é clara, quanto mais perturbamos nosso clima, mais riscos temos de impactos graves, amplos e irreversíveis”, avisou o diretor do IPCC, Rajendra Pachauri. O documento, divulgado após uma semana de intensos debates, indica que a Terra caminha para um aumento de pelo menos 4ºC até 2100, na comparação com nível da era pré-industrial. Em consequência, haverá grandes secas, inundações, aumento do nível do mar e extinção de muitas espécies, além de fome, populações deslocadas e conflitos potenciais (veja quadro). “A justificativa científica para dar prioridade a uma ação contra a mudança climática é mais clara que nunca. Temos pouco tempo pela frente antes que passe a janela de oportunidade para permanecer abaixo dos 2ºC”, ressaltou Pachauri.

O relatório considerado o mais alarmante já publicado pelo IPCC chamou a atenção de ONGs e de grupos da sociedade civil. “Os cientistas fizeram o trabalho deles, agora é a vez dos políticos começarem a agir. Líderes de todo o mundo têm tudo o que precisam para agir: evidências científicas claras, conjuntura econômica e grande apoio do público. A única coisa que falta aos políticos é força de vontade”, disse May Boeve, diretora executiva da 350.org, ONG ativista contra as mudanças climáticas.

 

 

 

O relatório indica que, para que a temperatura do planeta se mantenha sob esse patamar, as emissões têm de cair entre 40% e 70% em todo o mundo de 2010 a 2050, e chegar a zero até 2100. A divulgação ocorre antes das negociações de dezembro em Lima, ocasião em que se pretende traçar o caminho para a grande reunião de dezembro de 2015 em Paris, que tem como meta a assinatura de um compromisso para alcançar o objetivo dos 2ºC. E segundo organizações da sociedade civil, isso não será possível sem a mudança do modelo de negócio da indústria de combustíveis fósseis. “O relatório explicita a necessidade imediata do mundo parar de utilizar combustíveis fósseis. É um claro indicativo de que carvão, gás natural e petróleo não devem mais ser explorados. A indústria de combustíveis fósseis e um planeta onde podemos viver é uma combinação simplesmente incompatível”, afirma Boeve.

Custo
As negociações esbarram há vários anos no debate sobre quais países deveriam assumir o custo da redução das emissões de gases do efeito estufa, que procedem principalmente de petróleo, gás e carvão. O documento do IPCC afirma que o uso de energias renováveis, o aumento da eficiência energética e o desenvolvimento de outras medidas destinadas a limitar as emissões custariam muito menos que enfrentar as consequências do aquecimento global.

A conta a pagar atualmente para atingir a meta ainda é possível, mas adiar a resposta aumentaria consideravelmente a fatura para as gerações futuras. “Os custos das políticas de limitação variam, mas o crescimento mundial não seria gravemente afetado”, afirma o relatório do IPCC, que calcula que curvas ambiciosas de redução de carbono provocarão uma queda de apenas 0,06% no crescimento mundial neste século, que deve ser em média anual de entre 1,6% e 3%.

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“Comparado ao risco iminente dos efeitos irreversíveis da mudança climática, os riscos a assumir para alcançar uma redução são administráveis”, destaca Youba Sokona, um dos cientistas responsáveis pelo relatório. O relatório adverte que, sem ações adicionais para limitar as emissões, o aquecimento até o fim do século 21 “conduzirá a um risco de impacto irreversível generalizado globalmente”.

Nesse sentido, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou ontem, em uma coletiva de imprensa, que “a ação contra o aquecimento global pode contribuir para a prosperidade econômica, para uma saúde melhor e para cidades com melhores condições de vida”. “Uno minha palavra política à palavra dos cientistas, que trabalharam muito duro. O tempo não está a nosso favor. Vamos trabalhar juntos para construir um mundo mais sustentável. Vamos preservar o nosso planeta Terra e promover desenvolvimento de maneira sustentável”, discursou.

“Quanto mais tempo passamos trancados em um debate sobre questões ideológicas e políticas, mais crescem os custos da inação”, declarou o secretário de Estado americano, John Kerry, que criticou “aqueles que decidem ignorar ou questionar a ciência” da mudança climática, que “coloca todos em perigo, assim como nossos filhos e netos”. A França defendeu uma “mobilização universal e imediata” para a redução das emissões.

 

 

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