Reciclagem criativa

Equipamentos permitem transformar peças de plástico em filamento de impressoras 3D. Com isso, garrafas PET podem virar, por exemplo, capas de celular feitas em casa. A técnica já beneficia cooperativas de catadores em alguns países

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postado em 05/11/2014 15:35

China Daily
 

 

Por sua simplicidade e acessibilidade, a impressão tridimensional tornou-se a grande promessa para a reciclagem de plástico. Copos, garrafas e outros objetos descartados já podem ser reaproveitados de forma criativa em casa, com a ajuda de equipamentos especiais que transformam o polímero em um filamento que, depois de derretido, cria objetos novinhos em folha. O processo é barato, não exige conhecimento especializado e está sendo adotado por empresas e cooperativas que oferecem opções ambientalmente corretas da matéria-prima da criação 3D.



Pesquisadores da Universidade Tecnológica de Michigan, nos Estados Unidos, foram os primeiros no ramo a criar uma máquina chamada Filabot, que transforma plástico velho em filamento, a “tinta” usada na impressão 3D. O Filabot tritura os resíduos e derrete os pedaços de plástico para formar um fio colorido. A máquina funciona com termoplásticos, como ABS, PEAD, PEBD, e consome pouca energia no processo. O grupo da universidade usou a técnica para construir projetos que vão desde um ursinho de pelúcia a uma câmara climatizada.

A tecnologia de reciclagem caseira ajuda a combater a poluição global causada pelo lixo plástico. De acordo com dados da ONG norte-americana Ocean Crusaders, há cerca de 100 milhões de toneladas de plástico flutuando nos oceanos do mundo, uma massa que pode levar de 500 a mil anos para se decompor. Uma das causas desse problema é que o plástico não é considerado um resíduo tão valioso quanto o alumínio ou o papel. Assim, acaba descartado sem cuidado pelo usuário e passa despercebido pelos recicladores.

Se os consumidores puderem fazer a reciclagem em casa, o resíduo terá um tratamento totalmente novo, e um copo descartável, por exemplo, pode ser transformado em capa de celular. E há um ascendente mercado oferecendo corantes e outros aditivos que podem ser usados para personalizar o filamento caseiro. Esse tipo de reciclagem também pode derrubar o preço do material que abastece as impressoras 3D, um dos maiores obstáculos para quem tem interesse em materializar objetos em casa.

Algumas companhias já têm produzido o filamento com plástico reciclado, vendido a preços mais baixos. E há iniciativas de cunho social, como a ProtoPrint, da Índia, que oferecem o produto feito por cooperativas de catadores. Sidhant Pai, responsável pelo projeto, conta que não foi fácil desenvolver uma máquina capaz de reciclar resinas de polietileno de alta densidade, mas que conseguiu criar um equipamento bom o suficiente para ser testado com um grupo de 15 catadores. “Realmente levou algum tempo para que a organização funcionasse, mas descobrimos que os catadores eram muito empreendedores e interessados”, lembra. Por enquanto, o material ainda é usado para testes, mas em breve o grupo espera expandir o projeto para uma produção comercial.

Ética
Para o pesquisador Joshua Pearce, da Universidade Tecnológica de Michigan, propostas como a indiana mostram que o maior benefício da nova estratégia é social. “Ao se permitir que os catadores de resíduos processem o plástico em um filamento de impressora 3D, eles se tornam capazes de obter mais do seu trabalho. Isso pode ajudá-los a sair da pobreza, ao mesmo tempo que dá aos consumidores um filamento de baixo custo, ambientalmente correto e socialmente positivo”, analisa Pearce.

O grupo de Pearce desenvolveu uma máquina chamada Recyclebot, que transforma jarros de leite e outros lixos plásticos em filamentos a um custo acessível. Mas ele acredita que a tecnologia não é o suficiente. Ele propõe a criação de um conjunto de normas de comércio ético. Para isso, ele deu início à Fundação do Filamento Ético, que já aceita a filiação de pessoas ou de pequenas empresas.

De acordo com os parâmetros da organização, uma companhia que trabalhe com a reciclagem de plástico para a fabricação de filamentos deve atender a determinadas condições, como garantir que os trabalhadores recebam salários justos, seguir práticas de produção ambientalmente conscientes e proibir a discriminação e o assédio entre seus empregados. Mesmo com todas essas garantias, Pearce afirma que o “plástico social” pode custar a metade do tradicional, sem perder a qualidade. Segundo o pesquisador, a pressão competitiva pode forçar os preços para baixo a ponto de o filamento ético se tornar mais caro. As medidas propostas pela fundação dele fariam com que as cooperativas continuassem tendo lugar no mercado.

O Plastic Bank é uma das empresas pioneira do movimento, ajudando pessoas atingidas tanto pela pobreza quanto pelos problemas causados pela poluição. Eles oferecem oportunidades de emprego para catadores, transformando-os em recicladores. A máquina usada pelo grupo está sendo aprimorada por meio de parcerias com universidades, e uma versão industrial do aparelho foi disponibilizada na rede como um projeto open source para quem quiser construir uma igual.

Com o equipamento da impressão 3D, os integrantes do grupo podem classificar os resíduos de plástico recolhidos e transformá-los em um produtos vendidos diretamente para o consumidor final. A iniciativa tem planos de abrir uma sede no Peru, onde vai trabalhar com 16 coletores de resíduos. “Vamos completar o teste piloto até dezembro, quando começaremos as operações em grande escala”, adianta Shaun Frankson, cofundador do Plastic Bank, que deve chegar em breve ao Haiti e às Filipinas.

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