Investimento no futuro

Programa aborda crianças socialmente vulneráveis para ensinar cidadania e a importância da água. Iniciativa já formou mais de duas mil em 13 anos

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postado em 06/11/2014 17:31

Sinclair Maia/Esp. CB/D.A Press
 

 

Era o início de uma manhã ensolarada quando Willian Brito encontrou seus amigos. A brincadeira do dia era encher bexigas com água para refrescar o dia quente e seco que começava. Mas Willian se chateou ao ver um deles deixando a torneira aberta. “Desliga, desliga! Você não sabe que a água tá acabando? Não pode desperdiçar!”, disse em voz alta. Imediatamente a torneira foi fechada.



Com apenas 7 anos, a consciência que muitos adultos ainda não têm já faz parte da educação do garoto. “Só pode usar um pouquinho da água, o que precisar, sem gastar. Ela é muito importante para a natureza. Senão, a gente morre. Sem água não pode ter vida”, diz. Ele, o irmão Weverton e outros 478 alunos fazem atualmente parte do Projeto Golfinho, iniciativa da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) que, desde 2001, já atendeu 2.680 crianças em situação de vulnerabilidade social.

Terezinha Viegas, coordenadora do projeto, conta que, 13 anos atrás, a Caesb sentiu a necessidade de ter seu próprio projeto social. “Foi decidido que investiríamos na infância. Já desperta o cuidado e a atenção à importância da água desde pequenos”, explica. De acordo com a coordenadora, a ideia é formar os pequenos cidadãos sobre a importância da água para o meio ambiente e para o ser humano. “Isso desperta na criança esse compromisso com a natureza”, diz. Várias cidades do entorno do DF foram atendidas ao longo dos anos. Hoje, o projeto está concentrado no Itapuã, em Ceilândia e no Paranoá.

Além de ensinar como o ciclo da água funciona, o projeto, que atende as crianças de segunda a sexta por meio período, inclui prática de esportes, rodas de leitura, oficinas de escrita, raciocínio lógico e a importância do meio ambiente. A Caesb também oferece merenda e transporte. Os ensinamentos teóricos são depois colocados em prática com visitas a estações de tratamento de água, ao zoológico, a hortas, pomares e riachos.

Grupos de risco
Terezinha conta que, apesar dos esforços, às vezes, professores e monitores recebem a notícia de crianças do projeto que foram assassinadas ou que entraram na adolescência e não resistiram ao mundo das drogas. “Infelizmente, é sempre uma dor, mas esse é o nosso público, a nossa realidade. Eles fazem parte desse contexto de vulnerabilidade, por isso é um trabalho tão importante.”

Para ampliar o alcance dos ensinamentos do projeto, Terezinha e os demais educadores envolvidos buscam estimular as crianças para que elas levem para casa e repliquem o que aprendem. É o caso dos irmãos Lorena, 8 anos, Lohane, 8, e Nixon Gomes Alves, 10. “A gente tem mais três irmãos e muitos primos, mas eles não podem vir aqui no projeto. Então, a gente mostra para eles que não pode brigar com os amigos nem jogar comida fora. Tem sempre que comer tudo”, conta Nixon.

SINCLAIR MAIA/Esp. CB/D.A Press
 

 

“Temos que fazer um trabalho muito forte para que eles tenham força para fazer diferente, mesmo estando inseridos em uma família ou bairro vulnerável do ponto de vista social. Isso é difícil, mas é o nosso desafio”, diz Terezinha.

Inclusão social
Após completar 14 anos, os alunos atendidos pelo Projeto Golfinho costumavam ser dispensados, já que o programa tem como público crianças de 6 a 14 anos. Mas a necessidade material de muitos deles fez com que, a partir de 2010, a Caesb passasse a absorver parte dos ex-alunos no projeto Empregado Aprendiz.

Entre 14 e 16 anos, os integrantes do Empregado Aprendiz podem trabalhar como auxiliar administrativo na empresa e conciliar os horários com a sala de aula. A partir dos 16 anos, eles iniciam cursos técnicos em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

Márcia Freire, gerente da área de qualidade de vida e responsabilidade da Caesb, explica que o Empregado Aprendiz é a ponte entre o adolescente e o mercado de trabalho. E também uma oportunidade a mais de inclusão social aos ex-alunos do Golfinho. “Como esses jovens são vulneráveis, eles não têm só uma condição financeira complicada, muitas vezes a questão é estrutural. Por isso, há toda uma integração entre a gente, as escolas e as famílias. Nós queremos que os jovens e os pais se envolvam nesse ideal comum”, afirma.

É o caso de Karoline Teixeira, moradora do Sol Nascente, uma das comunidades com menor renda per capita do DF. Aluna do Golfinho desde os 6 anos, Karoline continuou até os 14 como uma das alunas mais aplicadas do projeto. Como mérito, em seguida, juntou-se ao quadro dos menores aprendizes da Caesb. Hoje, aos 16, contribui para o sustento da família com a ajuda de custo de R$ 390 que ganha. “É uma alegria poder ajudar meus pais e irmãos”, conta.

Investimento nas gerações futuras

Todo o dinheiro investido no projeto — cerca de R$ 700 mil por ano — vem da arrecadação de multas aplicadas pela Caesb em decorrência de infrações cometidas pela comunidade, como depósito de gordura ou óleo na rede de esgoto ou gato na rede de água. “É o dinheiro do erro retornando à comunidade por meio de um projeto social”, explica Terezinha.

 

Boa ação
480 é a quantidade de alunos atendidos atualmente
R$ 600 é o custo por aluno
2680 crianças foram atendidas pelo projeto desde 2001
6 a 14 anos é a faixa etária deles

 

Minha história
“Entrei no projeto Golfinho e comecei com 6 anos a participar das aulas de natação. Minha mãe também inscreveu minhas duas irmãs, mas depois de um tempo, a gente foi morar no Sol Nascente e elas desistiram. Lá é muito longe e quase não passa ônibus, aí ficou difícil. Eu continuei participando. Todo mundo falava que era muito bom e que podia ser importante para mim. Disseram também que, um dia, eu poderia trabalhar aqui na Caesb quando crescesse. Esse sempre foi meu sonho. Foi o que aconteceu. Quando completei 14 anos saí do Golfinho e comecei a trabalhar como menor aprendiz. Hoje, tenho a alegria de poder ajudar minha família. Dou o vale-refeição para minha mãe, ajudo a pagar a conta de luz, a água e outras coisas. De renda mesmo só tem a minha, o salário do meu irmão e o do meu pai, para sustentar seis pessoas. Também tem o lado de pensar na minha carreira. Na Caesb, trabalho como auxiliar administrativa. Desde que entrei, ganhei muito conhecimento. Antes de vir para cá, não conhecia esses programas de computador. Aprendi tudo. Eu até penso em ir para a universidade, mas quero mesmo é ter um emprego para ajudar minha família a ter uma condição de vida melhor.”

Karoline Teixeira, 16 anos, ex-aluna do projeto Golfinho e atual integrante do projeto Empregado Aprendiz.

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