Sustentabilidade corporativa

Pesquisa mostra que 99% das empresas brasileiras utilizam sustentabilidade no seu dia a dia

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postado em 11/11/2014 15:11 / atualizado em 11/11/2014 18:57

A preocupação com o bem-estar da população e com a preservação dos recursos naturais já é realidade nas empresas brasileiras. É o que mostra levantamento divulgado este mês pela Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil). Segundo a pesquisa, 99% das corporações aplicam a sustentabilidade em gestões e práticas.



Dos participantes, 34% afirmam incorporar o tema nos processos de gestão e 26%, nas estratégias do negócio. Outros 21% dizem adotar políticas e procedimentos para atender à legislação e 18% já influenciam na mobilização para um amplo envolvimento do mercado nas questões de sustentabilidade. Apenas 1% dos entrevistados diz ainda não inserir o assunto em suas práticas e responsabilidades. Foram consultados 105 representantes de diversos setores da economia brasileira.

E os empresários não consideram essas práticas e como um custo a mais. Segundo os entrevistados, vários benefícios podem ser identificados no processo de implementação e retorno de ações focadas em questões sociais e ambientais como: o estímulo a inovação e visão de longo prazo, 33%; a maior eficiência na gestão e redução de riscos do negóicio, 32%; admiração e orgulho da marca com o público interno e melhoria do clima organizacional, 21%; melhoria da imagem e da reputação da empresa, 14%; e facilidade de acesso a mercado, crédito e financiamentos, 1%.

“Podemos ver como o tema da sustentabilidade vem evoluindo dentro das empresas e contribuindo para o desenvolvimento delas. Se fizéssemos essa pesquisa há 10 anos, a maioria das companhias negariam a sustentabilidade ou adotariam práticas para atender à legislação”, diz Daniela Aiach, diretora de Sustentabilidade da Amcham.

Desafios pela frente
Apesar dos resultados positivos colhidos pelo levantamento, o empresariado aponta que há muito o que avançar na questão da sustentabilidade corporativa no Brasil. Dados da pesquisa mostram que 25% dos consultados disseram que o principal desafio para o avanço da questão nas empresas é o descompromisso de executivos com a causa. A falta de visão e o comprometimento de conselheiros, CEO, acionistas e diretores vem em segundo lugar, com 14%.

Para 25%, a maior barreira é a falta de incentivos de clientes, fornecedores e consumidores para quem aplica as práticas, além da dificuldade de garantir crédito e financiamentos que estimulem a gestão da sustentabilidade. Daniela explica que o mercado avançou muito na questão e que está aberto para isso. Mas a executiva lembra que é preciso que as empresas incentivem a capacitação de fornecedores e envolvidos a fim de atender às novas demandas das empresas por operações sustentáveis. “Tem que haver um estímulo do empresariado ao mercado, que sempre responde de forma positiva.”

Além disso, 17% afirmam que dificuldades com o resultado financeiro não permitem avanço com o tema. E 19% destacam também a falta de incentivos governamentais. Sobre o assunto, Daniela é taxativa. “A sustentabilidade não é prioridade para o governo e todos os processos que envolvem o tema, como aprovação e regulamentação de produtos mais sustentáveis, são muito burocráticos”, diz. “Por isso, é necessário que as corporações ajam e tomem a dianteira dos processos sustentáveis para que a evolução prossiga e resultados positivos continuem sendo alcançados, como tem acontecido nos últimos anos”, afirma.

Amcham/CB/D.A Press
 

 

Perguntas para Daniela Aiach, diretora de Sustentabilidade da Amcham.

 

O que motivou a Amcham a fazer esta pesquisa?
A Câmara organiza uma premiação há 32 anos que elege as empresas mais sustentáveis do país. É o prêmio mais antigo do Brasil nesta área. Quando elaboramos a pesquisa aproveitamos esse universo de empresas que participam da nossa premiação. Os representantes dessas corporações estavam reunidos em um evento que organizamos para que eles pudessem apresentar cases de sucesso de sustentabilidade para outros empresários. Foi nesta oportunidade que aproveitamos a presença das 150 empresas para fazer a pesquisa. Enxergamos esse levantamento como uma chance de incremenmtarmos ainda mais o históricos e evolução da questão da sustentabilidade no cenário brasileiro.

Como você avalia o cenário atual?
Evoluímos mas temos muito chão pela frente. Muitas empresas ainda engatinham nesse tema. Elas têm dúvidas primárias como por exemplo como podem adotar esse novo modelo em seus negócios. Isso por que há cada vez mais pressão da sociedade para que os negócios adotem medidas sustentáveis. As empresas terão sempre um caminho para seguir e evoluir, mesmo as que já estão em um nível avançado. Mas para isso acontecer de forma eficaz tem que vir de cima, da presidência, da diretoria, decisões que são tomadas pela matriz, como uma política interna da empresa.

Como foi a evolução das empresas em relação à sustentabilidade?
Evoluímos e muito. O termo ecologia surgiu durante a Eco 92, evento ambiental que aconteceu no Rio de Janeiro em 1992. Naquela época as empresas investiam em projetos embrionários como escolas para funcionários e pequenos projetos para comunidades. Vinte e dois anos depois falamos de inserção de conceitos sustentáveis na gestão como modelo de negócio que não é só para fazer o bem à comunidades e meio ambiente. É um ação conjunta que traz inclusive benefícios financeiros e de ganho de imagem para as marcas que aplicam na prática a sustentabilidade. Foi uma evolução gigantesca e o Brasil é referência nesse tema para o resto do mundo.

Como as empresas enxergam hoje o conceito?

Hoje deixou de ser um custo a mais para as empresas a adoção de práticas sustentáveis. Por muito tempo os empresários faziam por quererem uma boa imagem, mas isso ficou no passado. Hoje isso afeta a sobrevivência da empresa. Um bom exemplo é a Coca Cola, que tem como matéria prima um dos principais recursos naturais - 97% é água. Se não houver um cuidado da água, a empresa nao vai em algum momento deixar de existir.. Todas as empresas estão comprometidas com alguma matriz, que é sempre finita. É preciso cuidar disso. Tem também a questão da ética, da transparência, tudo isso entra no âmbito da sustentabilidade. Mão de obra escrava, infantil. Se os fornecedores não estão preparados para atender esses aspectos, a empresa vai morrer na praia. Não é só um projeto de ecoeficiência ou um projeto social, é um projeto integrado.

Falta de água, escassez de energia e outros problemas já estão sendo enfrentados pela indústria brasileira. Como a Amcham avalia que as empresas se adaptarão a isso?
Teremos de nos reinventar, inovar nos processos, buscar fontes alternativas de energia que é um trabalho que já deveria ter sido feito no Brasil. São Paulo era a cidade da garoa, agora temos um clima desértico. A mudança já está aí e para enfrentá-la teremos que adotar a inovação como guia em nossos processos de desenvolvimento, nos modelos de gestão. E as empresas ja estão tendo que evoluir nisso. A falta de recursos naturais como a água tem impacto no crescimento das empresa e dos países, já que os processos produtivos precisam de água. É um problema sério, mas toda a crise traz uma oportunidade. Chegou a hora de investir em inovação.

Como o Brasil se insere na questão da sustentabilidade empresarial?
Algumas coisas aqui são surpreendentes. O Brasil sempre teve uma diferença social muito grande. Exatamente para diminuir este problema que o empresariado começou lá atrás investindo na sustentabilidade como um tema emergencial para o país. A partir daí começa um caminho que evoluiu bastante. Os brasileiros também são muito criativos. E isso contribui também para nossa evolução. Brasileiro precisa se reinventar, e as empresas se reinventaram. Somos um grande exportador de commodities e para continuar exportando precisamos seguir regras internacionais. E há uma série de exigências em relação à ecologia, à transparência, à ética. É preciso seguir essas exigências se quisermos continuar crescendo nossas exportações.

Pequenas empresas também já fazem parte dessa realidade?
Tivemos cases incríveis que pudemos observar nos últimos anos do Prêmio Eco nas pequenas e médias empresas brasileiras. Desde uma empresa de cosméticos veganos que exporta 70% de sua fabricação até a produção de frango sem antibióticos. A JBS, maior produtora de carne do mundo, faz o rastreamento de gado para saber se há desmatamento, se há invasão de terras indígenas. É uma sofisticação surpreendente que o mercado reconhece e dá retorno.

Como o governo participa?
Hoje a sustentabilidade não é prioridade para o governo e todos os processos que envolvem o tema, como aprovação e regulamentação de produtos mais sustentáveis, são muito burocráticos. Infelizmente não há incentivos e um assunto que deveria ser responsabilidade do governo é hoje assumida pelo empresariado. As corporações agem e tomam a dianteira dos processos sustentáveis. Por isso a evolução continua e resultados positivos continuam sendo alcançados como tem acontecido nos últimos anos. Aqui a iniciativa privada tem de tomar a dianteira como por exemplo a questão social e proteção ambiental. O empresariado tem um papel fundamental nessas questões.

O que levou as empresas a este cenário atual tão positivo?

Necessidade das empresas já que cada uma delas depende de uma materia prima que é finita. Elas entram nisso por sobrevivência. Atualmente o Brasil está a frente de países como a Alemanha e Suécia, que têm uma grande preocupação em relação ao tema. Mas eles avançaram não pelas mesmas questões que nós, que avançamos mais emergencialmente, somos mais imediatistas. Lá é por uma questão de consciência, de cultura.

Como está o cenário internacional? Em que pé o Brasil está em relação ao tema se comparado a outros países?
Por causa da forma como se faz negócio, a África é a região do planeta que está mais atrasada na questão da sustentabilidade. Não existe transparência e ainda é difícil fazer negócio com o continente. Mas a China também sofre de problemas parecidos. Ainda é complicado fazer negócio com a China, que enfrenta problemas trabalhistas seríssimos e um nível de poluição absurdo. Mas tem países que evoluem muito rápido. Quinza anos atrás a Colômbia era gobvernado pelo narcotráfico. Hoje é um país voltado para negócios, totalmente aberto, com regras bem definidas e onde já pode se ver um movimento de transparências nas relações empresariais e comerciais. Para alcançar a abertura do mercado para fazer negócios com o exterior é preciso se adaptar às regras do mercado e isso inclui a sustentabilidade. Vender carne para a Europa você precisa prestar constas. Essa fazenda foi desmatada? Ela avança em áreas indígenas? A carne é certificada? A partir do momento que o país e a emprsa se abre para o mercado é preciso estar sujeito às regras e isso inclui conceitos de sustentabilidade. O Brasil está muito bem no cenário internacional, já é reconhecido por estar na dianteira dos processos. Hoje exportamos idéias, conceitos sustentáveis. E a tendência é continuarmos evoluindo.

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