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Correio Braziliense ENTREVISTA MARIA INÊS FINI

Não adiamento do horário de verão preocupa, afirma presidente do Inep

Logística, segurança e sigilo não são preocupações para o Enem 2018, garante Maria Inês Fini, presidente do Inep. Em entrevista ao Correio, a educadora lamenta apenas o não adiamento do horário de verão, que classifica como "problema seriíssimo"


postado em 29/10/2018 07:00 / atualizado em 29/10/2018 12:14

Não é fácil fazer um exame que cobre todas as regiões do país, com cálculos diferentes de horários. Com toda a sinceridade, nós perdemos para as companhias aéreas e para as companhias telefônicas
Não é fácil fazer um exame que cobre todas as regiões do país, com cálculos diferentes de horários. Com toda a sinceridade, nós perdemos para as companhias aéreas e para as companhias telefônicas" (foto: Inep/Divulgação)

 
 
Quais são as novidades para este ano em termos de segurança?
Novidade, propriamente, não há nenhuma. Nós tivemos um exame de 2017 com muito sucesso, sem nenhum indício de fraude ou ameaça à segurança dos participantes. Continuamos com as mesmas parcerias: o Exército, as Polícias Federal, Civil, Rodoviária e Militar, além de um treinamento intensivo para os aplicadores e fiscais. Toda uma operação desenhada para garantir a segurança, incluindo o preparo para uso de detectores de metais e pontos eletrônicos. O número exato de aparelhos envolvidos nós não divulgamos, por orientação da Polícia Federal, mas todos os locais de prova estão plenamente monitorados, todos os locais têm na entrada detectores de metal, nas saídas dos banheiros também, bem como pontos eletrônicos.

Quantas pessoas estão envolvidas na logística e qual o caminho percorrido pela prova até chegar ao estudante?
Ao todo, são cerca de 600 mil pessoas na preparação do exame, desde a elaboração da prova até a impressão e o transporte dela. Ela é elaborada na sala segura do Inep. Daqui, ela sai acompanhada pela Polícia Federal, em dois voos diferentes, e entra na gráfica de segurança máxima. Ali, ela recebe a diagramação final e toda a impressão das provas é feita, caderno por caderno, prova por prova. A prova de cada aluno é identificada e, depois, distribuída para os locais já com todo o destino definido. A partir desse ponto, elas ficam guardadas em depósitos do Exército Brasileiro e saem para outras unidades do Exército. As provas saem para os locais no dia de aplicação, por meio dos Correios, sempre com escolta militar.
 
A senhora chegou a dizer, no passado, que trata-se de um esquema contra fraudes “quase doentio”. O que significa isso, na prática?
Doentia é a tentativa de fraude. É um exame cuidadoso, que faz tão bem para as pessoas, e há gente sempre querendo fraudá-lo. Hoje, temos orientações muito seguras da Polícia Federal, que trabalha conosco desde o momento da elaboração de provas. Já tivemos, de especialistas, a declaração de que, em 2017, não houve sequer indícios de fraude. 

O não adiamento do horário de verão, em termos logísticos, preocupa a organização? 
É um problema seriíssimo. Nós estamos, inclusive, em contato direto com os jovens, enviando mensagem, fazendo propaganda nas redes sociais, alertando-os de todas as maneiras. Não é algo fácil fazer um exame que cobre todas as regiões do país, com cálculos diferentes em relação aos horários. No nosso aplicativo, no qual os alunos estão consultando dados como locais de prova, reforçamos isso de agora até a hora da prova. Com toda a sinceridade, nós perdemos para as companhias aéreas e para as companhias telefônicas. Havia uma força muito grande por parte dessas companhias, que haviam feito trabalho antecipado com o horário de verão. Foram vistas hoje, inclusive, confusões das companhias telefônicas com a aplicação do horário de verão. Mas acredito que quem tomou a decisão abalizou bem e resolveu não apoiar o Enem.

Em 24h de divulgação, mais da metade dos inscritos havia conferido seus locais de prova. Isso traz alívio para a organização?
Eles sempre fazem isso, são muito poucos que deixam para a última hora. Há uma tensão muito grande por parte deles, procuram se orientar com antecedência, há um interesse genuíno deles nisso, de não deixar tudo para a última hora. Estiveram consultando o aplicativo.

Quais foram os custos para este ano?
O preço por aluno abaixou um pouco. Tivemos um custo médio muito justo, apertamos o cinto. Embora eu não saiba informar a fração exata, é certo que reduzimos em tudo o que foi possível, desde a negociação dos contratos de aplicação até o transporte. Temos muitos alunos do ensino médio em vulnerabilidade social, portanto, não têm como pagar. Quase 1,6 milhão de estudantes, concluintes da escola pública, não pagam. Há grande isenção.

É possível e necessário aplicar mais cortes para o Enem 2019?
Não acredito que seja possível apertar mais o cinto. Temos que fazer bastante força para conseguirmos manter esse preço. A decisão ainda está em andamento no Congresso Nacional, estamos esperando a votação do orçamento.

A senhora participou diretamente da criação do Enem, ainda em 1998. De lá para cá, o que mudou e qual a sua avaliação?
O Enem surgiu de maneira muito moderna, avaliando não só o conteúdo simplesmente, mas processos de pensamento. Processos cognitivos. Em 2009, ele ganhou outra dimensão e passou a ser um vestibular nacional, perdendo um pouco essa bandeira mais moderna de encarar a aprendizagem, voltando para um modelo um pouco mais conservador, como o vestibular tradicional. Hoje, é um exame muito bem feito, mas conservador e tradicional. Agora, com a nova Base Nacional Comum Curricular, voltamos a uma concepção mais abrangente de aprendizagem, privilegiando novamente essas estruturas de pensamento para além dos conteúdos da memória. O Enem — sua estrutura e sua matriz de referência — está aberto para fazer essas adequações, mas a partir de 2021. Não assustaremos os alunos. Temos que dar um tempo para que as escolas se organizem, com a nova BNCC. O Enem se adaptará a ela no tempo correto, seguramente.

O fato de ter diminuído o número de inscritos neste ano é natural? Deve ser a tendência daqui para frente?
Para mim, isso é ótimo. Nós tivemos 1,8 milhão de pessoas fazendo o Encceja, que é o exame que certifica o ensino médio atualmente. O Enem não tem mais esse papel. Em função disso, acertamos a comprovação da vulnerabilidade social econômica. Em anos anteriores, tínhamos sempre mais de 1,2 ou 1,3 milhão de pessoas que obtinham o certificado de isenção, faziam inscrição e não compareciam ao exame. Então, este ano apuramos um pouco mais essa responsabilidade. Afinal de contas, trata-se de dinheiro público.

O que recomenda aos alunos para a véspera e o grande dia de exame?
Na véspera, nada de balada. Não ficar acordado até tarde. Descanse, jante cedo, durma bem. Recomendo a eles irem muito confiantes do que eles sabem. A prova não tem “pegadinha” nem nada do gênero. É uma oportunidade para mostrarem tudo aquilo que sabem. Se ainda houver dúvidas, conversem com os professores, os pais, os colegas. Quando a gente debate um tema com alguém e ouve a opinião do outro, nós aprendemos a construir argumentos sólidos. Isso tudo é importantíssimo para a redação, por exemplo. E nada de correria de última hora. Saiba qual é o ônibus que o leva para o local da prova. Lembrem-se de que, no domingo, menos ônibus circulam pelas cidades, embora nós tenhamos pedido formalmente aos governadores e aos prefeitos que acionem as companhias de ônibus e metrô para fazer horários “cheios”, como durante a semana. Ainda assim, recomendo que os alunos se preparem cedo, não deixem para a última hora.

Como tem sido esse diálogo com os estados?
Tivemos diálogo direto com os governadores, fizemos um ofício para cada estado, solicitando apoio. As secretarias de educação e os secretários foram muito sensíveis no ano passado. No Ceará, por exemplo, deram lanche, fizeram peças de propaganda, orientaram todos. Outros também fizeram, mas o Ceará foi muito sensível. No Distrito Federal, o (secretário de Educação) Júlio Gregório também fez isso, incentivando e orientando os alunos.