Publicidade

Correio Braziliense

Provas tiveram temas como refugiados, direitos das mulheres, democracia e novas linguagens

Textos publicitários e artes foram usadas para sublinhar as lutas por direitos de diversas minorias


postado em 04/11/2018 19:31 / atualizado em 04/11/2018 23:32

As provas de linguagens, códigos e suas tecnologias e ciências humanas e suas tecnologias do Enem 2018 foram aplicadas neste domingo (4). Os professores analisaram a prova como muito bem construída, mas sem grandes surpresas. A predileção por temas da atualidade e a abordagem que privilegia a interpretação de texto, tão presente em outras edições, permanecem. Formada por 45 questões cada, as duas áreas de conhecimento envolvidas trouxeram importantes temas sociais, como conflitos de imigração e democracia, em pormenores que envolveram luta política pelo voto feminino e abertura política pós-ditadura. 

“Foi uma abordagem extremamente padrão em relação aos outros anos, nada muito diferente. 
Considero que a prova cobrou conteúdos de ensino médio que sempre vemos”, afirma Eduardo Valladares, professor de linguagens e redação no Descomplica. Ele classifica a avaliação como densa e com muitos textos. “Notei aspectos interessantes, como a tendência de abordar minorias, como as novas linguagem das travestis com influência do Iorubá. Outras questões envolviam violência contra mulhere, deficientes visuais, mulheres dentro do futebol. Falaram também de um aplicativo dentro do cinema que ajuda o cego a assistir o filme”, enumera. 
 
Edson Pereira quer nova formação no currículo(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Edson Pereira quer nova formação no currículo (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
 
Apesar de já ter três formações (direito, comunicação e pedagogia), Edson Pereira, 47 anos, quer acrescentar mais uma no currículo, dessa vez na área da Saúde. Por isso ele dedicou o domingo para a prova do Enem. “O curso eu vou escolher dependendo da nota que conseguir. Gosto de me reinventar, acho que temos que sempre buscar novos desafios”, afirmou. Dentro de casa, não falta apoio para essa busca pelo conhecimento. A esposa de Edson é formada em Direito, uma das filhas estuda Medicina e a outra Arquitetura. Para ele, o primeiro dia de exame foi tranquilo, mas a prova de exatas será mais difícil. “Essa primeira prova requer conhecimento acumulado ao longo da vida”, acredita. Segundo ele, é preciso ter atenção principalmente na interpretação de texto. A prova extensa acaba deixando os estudantes cansados e desatenta principalmente nas últimas questões. 
 
Quanto à parcela de artes presente em linguagens, o clássico Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, foi abordado na linguagem de histórias em quadrinhos, assim como um texto de Graciliano Ramos. “Houve alguns textos que falavam do papel da internet e sua influência, mas nada ligado a governo ou questão política.”
   
Renato Pellizzari, professor de história do Descomplica, concorda com o colega. “Foi uma prova boa e equilibrada, que exige do candidato boa dose de interpretação de texto.” Ele frisa que não houve nenhuma grande surpresa de temáticas, mas a abordagem foi rica e bem contextualizada. “Exigiu do aluno maior amadurecimento dentro das ciências humanas, um candidato com dificuldade de estabelece conexões não se sairá bem.”

Estereótipos femininos
 
Em ano de eleições, houve duas questões que tratavam diretamente sobre democracia e direito ao voto. A primeira tratava da Primeira República, período marcado pelo coronelismo e voto de cabresto. A segunda ligava o tema à luta pela representatividade feminina. Abordava o código eleitoral provisório de 1932, no governo de Getúlio Vargas. Pela primeira vez, após grande campanha nacional, as mulheres asseguraram o direito ao voto. “Foi uma questão bem interessante, pois coloca o voto não como uma benesse posta por Getúlio, mas um resultado palpável de um processo de luta.”
 
 
Em outro momento, uma questão era aberta com peça publicitária dos anos 1940. "Ella seria adorável... si não fosse doentia", diz o texto, sobre um tônico para a saúde da mulher. O enunciado questionava os estereótipos “atribuídos historicamente a uma suposta natureza feminina”. Em linguagens, o universo feminino também foi abordado, em texto e imagem que falavam de denuncia ao assédio. "Rompa o silêncio", diz a imagem. 

 
Ainda sobre direitos conquistados, esteve presente um texto do quadrinista e cronista Henfil. Em carta, ele critica a abertura política pós-ditadura, que se deu no governo do presidente Geisel, de modo mais lento do que o artista e os exilados gostariam. “Em carta aberta ao presidente, Henfil, simbolicamente, devolve o passaporte, criticando o limitado processo de abertura política do país.” Temas tido como clássicos no exame, como Guerra Fria, também marcaram presença.
 
Ana Clara quer seguir os passos do pai e fazer engenharia na UnB(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Ana Clara quer seguir os passos do pai e fazer engenharia na UnB (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
Inspirada pelo pai, que se formou na Universidade de Brasília (UnB) em engenharia, Ana Clara Valadares, 20, se mudou do município de Itaberaba, na Bahia, para Brasília, sempre com o sonho de estudar na mesma universidade e cursar Letras. Essa é a terceira vez que a jovem faz o Enem. Apesar da aprovação nas outras duas vezes, por morar em outra cidade, ela não conseguiu assumir a vaga. “Este ano, a prova foi bem interessante, mais fácil do que nos anos anteriores e tranquila de fazer”, avalia.

Preconceito, escravidão e imigração

As provas trouxeram também uma homenagem à escritora mineira Conceição Evaristo. As frases das capas das provas, que os candidatos devem transcrever para o cartão-resposta, são trechos selecionados de sua obra, marcada por temas políticos e sociais do preconceito contra a mulher negra de periferia. “E não há quem ponha um ponto final na história”, diz uma das frases apresentadas. 

“Houve uma questão sobre a vida do escravo”, conta Renato Pellizari. “Falava de artefatos de origem religiosa, itens que o ajudariam a enfrentar a vida de privações e violência. É uma questão muito interessante, pois foge do conteúdo didático puro e simples. O aluno precisava compreender e analisar a vida do negro no Brasil.”

Conceição Evaristo foi homenageada no Enem 2018(foto: Joyce Fonseca/Divulgacao)
Conceição Evaristo foi homenageada no Enem 2018 (foto: Joyce Fonseca/Divulgacao)


Professor de geografia, Cláudio Hansen lembra que o dilema dos refugiados foi citada em duas questões. A primeira era tinha abordagem filosófica e sociológica. “Falava que os refugiados estavam em todo lugar e em lugar nenhum, citando a dificuldade de pertencimento”, explica. Mais do que a informação de um grupo específico, a abordagem era sobre o conceito de refugiado. A outra questão questionava a segregação seletiva nos conflitos de fronteiras. “Como elas são, em termos econômicos, muito abertas, mas fechada para as pessoas”, afirma o professor do Descomplica. 

Para ele, a edição 2018 trouxe o Enem de novo ao debate de temas importantes para a sociedade. “Historicamente, a prova é bem diversa. Sempre cobrou muitos assuntos. Ano passado, percebemos maior presença de geografia física e, desta vez, não foi diferente. É uma tendência real”, analisa. Nessa área, ele destaca a recorrência de três questões sobre clima, abordando formação de furacões, dinâmicas de massa de ar e tipos de clima.