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Correio Braziliense

Professores analisam assuntos polêmicos do primeiro dia de Enem

Enunciado confuso e questões sobre comunidade LGBTQ dividem estudantes


postado em 05/11/2018 16:44

Violência contra a mulher, Declaração Universal dos Direitos Humanos, democracia, Ditadura Militar brasileira, misoginia, Getúlio Vargas, socialismo e homossexualidade foram alguns dos temas abordados nas questões do primeiro dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Frente aos recentes debates políticos e sociais, alguns desses assuntos podem ser considerados polêmicos. Em live no Facebook, os professores do Sistema Positivo de Ensino ressaltaram algumas questões que poderiam causar repercussões ou confusão no ponto de vista de interpretação da prova:

O dialeto dos transsexuais e gays
 
Considerada como a questão mais polêmica da prova, a pergunta nº 31 da prova amarela abordou a linguagem típica entre gays e travestis, fazendo uma relação direta com uma linguagem de matriz africana. Segundo Camila Souza, professora de filosofia e sociologia do Sistema Positivo de Ensino, esses são dois temas que normalmente geram bastante discordância e até rejeição de determinados grupos. “São temas que, dependendo da falta de compreensão da pessoa, ela pode responder baseada em estereótipos e não em conhecimento científico nem na base do texto apresentado para ela.”

Para a professora, a questão foi muito bem elaborada, deixando claro o foco na diferenciação de dialeto enquanto elemento linguístico. A professora de língua portuguesa, Lucienne Lautenschlager, conta que, do ponto de vista técnico, a resposta correta seria aquela que afirma que o Pajubá ganha status de dialeto, “especialmente por ser consolidado por objetos formais de registro”.
 

Alternativas distratoras em literatura

 
Outra questão comentada pelas professoras foi a nº 38 da prova amarela, que apresenta um diálogo entre mulheres de uma mesma família a respeito do significado da palavra “lésbica”. A professora Bianca Buzzi explica que o principal fator de confusão é o enunciado, que pede que o estudante identifique qual a “tensão fundamentada” no texto. “Todos os elementos que estão nessa narrativa geram, de alguma maneira, uma tensão na interpretação. Por isso, optamos por seguir pelas palavras-chave no texto, que mencionam o silêncio e o medo de falar”, explica Bianca, apontando a opção “silêncio em nome do equilíbrio familiar” como a alternativa correta.

Juliana Fernandes complementa que o texto apresenta três visões de personagens a partir de um só olhar, o que pode trazer diferentes interpretações. “Quem conta é a garota, que sente-se descoberta e acaba interrompida pela aparente inocência de uma criança, então essa é uma questão que pode gerar confusão pela complexidade dos pontos de vista.”
 
Quanto às outras competências, apesar de temas que poderiam render debates, as questões foram bem parecidas com as edições anteriores do Enem. Em artes, os professores do Sistema Positivo de Ensino afirmaram que as questões foram bem elaboradas, mas faltou um pouco de pensamento crítico exigido dos estudantes. Os temas de literatura foram todos interpretativos, sem abordar gramática ou noções especificamente literárias, e história seguiu o padrão dos últimos anos.