Jornal Correio Braziliense

Enem

Professores aprovam tema de redação do Enem 2017

A proposta "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil" surpreende, mas está dentro da tradição do exame em abordar inclusão, respeito e diversidade

Os portões dos locais de prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) já se fecharam e candidatos do Brasil inteiro estão, neste momento, fazendo as provas de linguagens, códigos e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias e redação. Esta trouxe como tema ;Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil". O assunto vai ao encontro das novas medidas de aplicação do exame, que incluem pela primeira vez a aplicação de videoprova traduzida em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Em 2017, 1.635 estudantes com surdez ou deficiência auditiva estão fazendo a avaliação, 48 deles no Distrito Federal.

;É o discurso casado com a prática;, sintetiza Carol Darolt, professora do Centro Educacional Sigma. Ela aprova a proposta e a classifica como ;tranquila;. ;É um assunto bastante específico. Estamos falando de uma parcela pequena, mas relevante da população;, diz. Porém, cabe ao aluno habilidade e discernimento para não cair em fuga de tema. ;Embora não seja substancialmente difícil, exige o cuidado da leitura atenta da coletânea de textos. Não basta falar da educação de maneira geral e discutir apenas tangencialmente a questão dos surdos.;
[SAIBAMAIS]
Professor do Sistema de Ensino pH, Thiago Braga também observa a singularidade do tema. ;Trata-se de um recorte bastante específico, mas inserido em discussão ampla, que gira em torno do respeito à inclusão dos deficientes físicos na sociedade;, afirma. Para ele, acessibilidade e respeito pautaram as salas de aula de cursos preparatórios ao exame. O estudante atento e informado não será prejudicado. ;Abre espaço para o aluno escrever sobre a formação educacional dos surdos, o acesso universal às escolas e a construção de formação sólida para aqueles com algum tipo de deficiência.;
Dificuldade a ser enfrentada
A Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa-DF) comemorou o tema. Em nota, o presidente da associação Luis Claudio Megiorin afirmou: ;Notamos o abismo que existe na nossa sociedade quanto ao tema e o despreparo de nossas escolas e, por conseguinte, dos nossos estudantes. A dura realidade dos surdos deve ser enfrentada já! Imagino o quanto é dolorosa a vida silenciosa dos surdos nas nossas escolas, sobretudo, nas privadas, onde a inclusão passa longe.;

;Embora o tema tenha surpreendido, está dentro da abordagem clássica do Enem, que preza pela reflexão dos candidatos. Mais uma vez, está sendo exigido deles que pensem como cidadãos;, afirma Júlio Ferreira, professor e coordenador do curso Poliedro de São Paulo. Ainda que a deficiência auditiva seja inédita como tema de redação, é tradição do exame tocar em problemas pelos quais passam minorias marginalizadas ou que sofrem com dificuldades de acesso à ampla cidadania. ;Nesta tarde, milhões de alunos brasileiros vão pensar sobre um tema que não está, infelizmente, tão em voga como deveria. Como uma prova de alcance nacional, o Enem tem esse poder.;
Aline Rezende, 26 anos, conta que abordou o fato de haver poucos profissionais para esta parcela da população. "O governo tem que ofertar mais cursos de libras. Outro ponto de que falei é que não há muita discussão sobre isso nas escolas, o que atrapalha o desenvolvimento educacional dos surdos", diz. Ela, que faz o Enem pela terceira vez, terminou a prova cedo porque se preparou bem e escreveu a dissertação já na folha definitiva. "O tempo todo eu procurei atenção para não cometer erros", afirma. Ela sonha em ser advogada.
Direitos humanos
O veto à nota zero para dissertações que desrespeitem os direitos humanos, imbróglio que tomou conta dos noticiários nos últimos dias, não é preocupação para este tema, acreditam os professores. ;Discursos de ódio geram argumentos fracos e sem repertório. Aqueles que insistirem numa abordagem violenta e discriminatória terão, naturalmente, a redação inteira comprometida;, avalia Carol Darolt. Ela observa que, embora a atribuição de nota zero esteja suspensa, a competência 5 da proposta de redação do Enem segue valendo e pode tirar até 200 pontos do candidato que apresente defesa a tortura, discriminação e justiça com as próprias mãos.
Júlio Ferreira lamenta a polêmica, mas não enxerga a possibilidade de muitos candidatos levarem a escrita a esse extremo. ;É triste ver o Inep não podendo arbitrar sobre a própria prova. Muitos vão usar esse espaço para a intolerância, mas acredito que a maioria vai passar longe dessa abordagem.;