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Correio Braziliense CIÊNCIAS DA NATUREZA »

As ciências da natureza no Enem

Área que engloba física, química e biologia, ciências da natureza e suas tecnologias preza por temas ambientais e raciocínio científico no cotidiano


postado em 09/09/2019 07:00 / atualizado em 09/09/2019 10:47

 

A segunda etapa de aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em 10 de novembro, guarda um dia puxado para quem é da “turma de humanas”. É nele que serão cobradas as 45 questões de ciências da natureza e suas tecnologias. Não tem sido fácil. Das quatro áreas de conhecimento exigidas, ciências da natureza foi a única que mostrou queda na média nacional. A média caiu de  510,6, em 2017, para 493,8, em 2018. No Centro-Oeste, a média foi de 494,76, atrás do Sul (504,40) e do Sudeste (500,80).

Além de destreza em cálculos e fórmulas, é preciso relacionar os conteúdos de física, química e biologia. Não é raro ver temas de mais de uma disciplina na mesma questão.
 
Anna Letícia Gama:
Anna Letícia Gama: "Detalhes que complicam a nossa vida" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
“É muita coisa!”, espanta-se Anna Letícia Gama, 17 anos, aluna do Sigma. O volume de assuntos, especialmente os de química, a preocupam. “São muitos detalhes, que complicam a nossa vida. Tenho trabalhado bastante o tempo, especialmente com simulados.” 

Luís Felipe Marques, 17, lembra que, no mesmo dia, há ainda outras 45 questões de matemática para enfrentar. O tempo disponível é de cinco horas. “Todo dia faço uma hora de treino de exercícios e de tempo.”

Habilidades 

Gabriel Borges:
Gabriel Borges: "Está difícil saber, mas não espero assuntos polêmicos" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 

Gabriel Borges, 19, tem dúvidas sobre o que esperar. Para ele,  a abordagem varia entre o puramente técnico e o contextualizado. “Está difícil saber o que pode acontecer, mas não espero assuntos polêmicos”, especula.

Os professores não veem motivos para alarde. O conteúdo cobrado é amplo, mas razoavelmente previsível. Mapeá-los a partir das edições anteriores é fundamental. “Em relação ao Enem 2017, o de 2018 manteve o nível médio de dificuldade, assim como uma distribuição de conteúdos semelhante”, avalia Ivys Urquiza, professor do cursinho on-line Física Total. “Como a matriz da prova é organizada por habilidades, e não por conteúdo, você deve mapear certos assuntos que são cobrados mais comumente e a abordagem proposta”, acrescenta Paulo Ferrari, professor de física do Sigma.

Coordenador pedagógico do colégio Mopi e professor de biologia, Luiz Rafael Silva também não acredita em grandes surpresas. “Na verdade, as mudanças até aqui não foram estruturais.”

Biologia atual

A porção de biologia privilegia assuntos voltados à ecologia, saúde e agropecuária. A degradação ou conservação ambiental, a partir da ação humana, dá o tom de boa parte da prova. “Ecologiaé mais tranquilo, porque já entendo na leitura do texto. Nos conceitos de manipulação do DNA, tenho mais dificuldade”, avalia o aluno Gabriel Choucair, 17. “Se você lê as notícias e está ligado nos debates ambientais, você consegue, pois está no seu dia a dia.”

“Saúde e ambiente são os dois pilares. Sempre temos perguntas que traçam um paralelo entre cultura agrícola e desmatamento”, exemplifica Luiz Rafael Silva. “Em saúde, o exame aborda a biologia humana, genética e doenças.”

Segundo o professor, há diversos temas no noticiário que têm ligação com o exame. Dentre eles, os focos de incêndio na Amazônia, debate atualíssimo, e a tragédia do rompimento da barragem de Brumadinho (MG), ocorrida em janeiro deste ano. Embora  não caiam diretamente, uma vez que a prova é definida com antecedência, a causa deles é pertinente ao Enem, sem dúvida. “Aí o candidato começa a estabelecer conexões entre os temas, como desmatamento e liberação de gás carbônico. A floresta é uma reguladora do ar e o fogo aumenta a camada de retenção de calor”, diz.

“O Enem cobra muita atualidade. Então, certamente haverá rompimento de barragem na prova, que tem a ver com pressão hidrostática. Tem que estudar, não é tão básico”, afirma Anna Letícia. “Eles sempre cobram a contextualização, como o desenho da barragem, por exemplo”, diz Raíssa Liberal.

Física aplicada

Laura Guazzelli, 17, vê nas questões de física a maior barreira pessoal. “Tenho mais dificuldade em física, especialmente em óptica e funções, matérias do primeiro e segundo ano”, diz. “Quando estudo resistência elétrica, que é mais do terceiro ano, tenho mais facilidade”, diz.

“É de se esperar  circuitos e energia elétrica em um terço da prova, e outro terço dedicado a fenômenos ondulatórios, incluindo temas como acústica e óptica”, diz Paulo Ferrari. O terço restante fica entre energia, princípios da dinâmica de Newton e hidrostática.

Nesta reta final, vale revisar mecânica, principalmente dinâmica de partículas. A dica é de Ivys Urquiza. “Também reforçaria os estudos de ondulatória, com ênfase na parte de fenômenos ondulatórios. Aprofundaria os estudos sobre calor e termodinâmica, também revisando questões com corrente elétrica, resistência elétrica, energia elétrica e circuitos. Com isso, o estudante vai garantir quase 80% da prova.”

Química preocupa

Luís Azevedo:
Luís Azevedo: "Equações químicas têm muitas regras" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 

“As questões em que predominam a química são, geralmente, consideradas as mais difíceis pelos alunos”, antecipa a professora do Sigma Juliana Gaspar. A maioria não nega: temas como estequiometria, termoquímica, equilíbrio químico e funções orgânicas preocupam. “É minha maior dificuldade, porque as equações químicas têm muitas regras e é difícil saber todas”, afirma o candidato Luís Felipe Azevedo, 17.

Para ultrapassar essas barreiras, ele mantém rotina de exercícios diários. “Enem é fazer exercício mesmo, não tem como”, define.

“Em equilíbrio químico, entender a lógica e fazer as relações é o mais complicado. Tenho feito muitos exercícios nessa parte”, concorda Gabriel Choucair. “Química é a mais difícil, justamente pelas reações. As regras são muito específicas, com muitas exceções”, acrescenta Raíssa Liberal. “Em eletroquímica e reações, fico atenta, porque certamente cai. Tenho mais dificuldade em química orgânica, que é mais decorar do que aprender”, avalia a estudante.

“Física exige conhecimentos e correlação de assuntos. Além disso, a abordagem vem do cotidiano, voltado muitas vezes para a tecnologia”, avalia Juliana Gaspar. “De 2009 a 2018, a área mais cobrada foi fisico-química. Equilibrio químico e termoquímica são questões de puro cálculo”, avalia a professora.

Não procede, portanto, aquela história de que muito da prova se responde apenas com boa leitura dos enunciados. “Tem que praticar o tempo todo, não dá para fazer só com interpretação”, diz Gaspar. Química geral vem em segundo lugar de recorrência e a dificuldade pode ser alta. “Para a nossa surpresa, em 2018 sentimos alto índice de erros em ligações químicas. É um assunto muito recorrente e usado no cotidiano”, acrescenta a professora.

Disciplinas dialogam

Raíssa:
Raíssa: "Visualizar sistemas" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 

O volume de cálculos também incomoda. “Física e química têm mais raciocínio do que propriamente cálculo. Em química, é preciso visualizar o sistema de uma reação. Em física, alguns processos mecânicos têm que ser entendidos na aplicação real”, exemplifica Raíssa Liberal. “Normalmente, a dificuldade está na habilidade adaptativa: pegar um conteúdo e transpor para novo contexto”, explica Paulo Ferrari.

Ivys Urquiza acredita que o exame se diferencia dos vestibulares tradicionais pela interdisciplinaridade. É na prova de ciências da natureza e suas tecnologias que ela se faz mais presente. “Algumas questões não têm limite claro sobre ser desta ou daquela matéria.”

Urquiza exemplifica com uma questão do Enem para Pessoas Privadas de Liberdade (Enem PPL), cujo banco de questões é o mesmo do exame comum. A questão fala sobre a incidência da luz em certas substâncias, “o que libera elétrons que, circulando livremente de átomo para átomo, formam uma corrente elétrica”, como diz o texto. Ivys explica: “Embora a questão solicite a identificação de um processo biológico, o texto (e a compreensão para solução do item) trata de um fenômeno físico, o efeito fotoelétrico. Sem esse tema da física, o item, considerado de biologia, não seria respondido corretamente”.
 
Luís Felipe Azevedo também se arrisca em um exemplo. “Hidrocarbonetos caem muito, especialmente pela demora da decomposição dos plásticos e consequente poluição. Isso dá para relacionar com a ecologia.”
 
 

* Estagiária sob supervisão de Jairo Macedo 

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