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Correio Braziliense ENEM 2019

A vez da turma de humanas

Prova de ciências humanas e suas tecnologias tem histórico voltado para questões bem contextualizadas e de relevância para o debate público. História e geografia são as disciplinas mais recorrentes na área de conhecimento


postado em 16/09/2019 07:00 / atualizado em 15/09/2019 18:45

 
A galera ligada em humanas chega com retrospecto positivo no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019. Ciências humanas e suas tecnologias foi a área de conhecimento com maior crescimento na média geral nacional no ano passado, pulando de 519,3 em 2017 para 569,2 em 2018. Nada mal para uma prova que envolve longos conteúdos de quatro disciplinas e prima – ou, pelo menos, primava – por questões bem contextualizadas, de debate cotidiano e exigência de pensamento social e crítico.

Nas 45 questões da prova, a ser aplicada em 3 de novembro, são cobradas as disciplinas de geografia, história, sociologia e filosofia. A distribuição das matérias tem a tradição de ser igualitária, com exceção das duas últimas. “Nos últimos anos, vemos a sociologia e a filosofia somarem algo perto de um terço da prova. Então, dividimos entre um terço para história, outro para geografia e o terceiro dividido entre as demais”, calcula Cláudio Hansen, professor de geografia e diretor pedagógico do curso on-line Descomplica.
 
Gabriela Gonzaga:
Gabriela Gonzaga: "Foco em geografia e história, pois têm mais conteúdo" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
De acordo com levantamento do Sistema de Ensino Poliedro, os temas mais recorrentes em humanas, de 2014 a 2018, giraram em torno de formas de organização coletivas, movimentos sociais, pensamento político e ação do Estado. Eles correspondem a 52% das questões, seguidos por diversidade cultural, conflitos e vida em sociedade (23%). A abordagem proposta requer do inscrito a habilidade de relacionar conteúdos. “Há questões em que você bate o olho e sabe que dizem respeito a uma disciplina só, mas é um exame interdisciplinar, em que conteúdos se misturam. Conceitos filosóficos e sociológicos, embora apareçam menos, podem ser inseridos em história ou geografia”, afirma Leandro Vieira, professor de filosofia e sociologia do ProEnem.

“Tenho focado mais em geografia e história, porque é mais conteúdo. O restante, acredito que pode ser mais de interpretação de texto”, avalia Gabriela Gonzaga, 17 anos, aluna do colégio Sigma. Rodrigo Villar, 17, acredita que precisa de conhecimento amplo para alcançar a vaga almejada por ele, em engenharia elétrica. “Estudo de modo tradicional, aqui na sala de aula, fazendo provas antigas e participando de aulões. Nas ciências humanas, a gente precisa ter a capacidade de assimilar as coisas. Tenho dificuldade em história, mas ficou mais fácil quando comecei a perceber os reflexos que a disciplina tem no dia a dia.”

Temas nacionais

Miguel Gomes:
Miguel Gomes: "História geral é menos específica que Brasil" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 

Dos cinco assuntos mais cobrados nos últimos anos em história, quatro são de contexto nacional – Segundo Reinado (12,3%), governos após a abertura política (12,3%), Era Vargas (11%) e República Velha (9,9%). O tema mais cobrado, porém, é sobre as causas e os efeitos da Segunda Guerra Mundial (13,6%). “Não dá para dizer que há diferença substancial de volume entre história do Brasil e geral”, afirma Orlando Stiebler, professor de história e atualidades do QG do Enem.

Os temas nacionais são aqueles nos quais os alunos mais tropeçam. “Especialmente no período todo do Império, tanto o Primeiro Reinado quanto o Segundo Reinado. Eles não entendem os interesses políticos e como o parlamentarismo se deu.”

Miguel Gomes, 16, preocupa-se com a parte nacional. “Tenho visto mais história do Brasil. Nesta parte, eles cobram conteúdos muito específicos. Por exemplo, já caiu questão sobre a polaca, constituição na Era Vargas. Quando é história geral, é mais raso, menos específico”, diz. “Em termos internacionais, aposto em abordagens mais factuais e temas clássicos, como o Iluminismo e a Revolução Industrial”, avalia o professor Stiebler.

“O conteúdo abrange tudo o que é do ensino médio, em grande revisão de tudo o que foi visto”, acrescenta ele, para quem o exame inseriu temas pouco comuns em vestibulares. “Já há um bom tempo, o Enem trouxe a parte de história antiga, o que não víamos em outras provas.”

Geopolítica e ambiente

Vanessa menezes, 17:
Vanessa menezes, 17: "Em filosofia e sociologia, o conteúdo é cobrado sempre em cima do texto que abre a questão." (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 

“Em geografia, acredito que caiam questões sobre globalização e problemas ambientais, com muita interpretação de gráficos”, espera Vanessa Menezes, 17, moradora do Cruzeiro Velho que busca uma vaga em medicina.

As questões vão do meio ambiente à urbanização, passando por clima, demografia, geografia agrária, globalização e cartografia. O leque é amplo, e a dificuldade vem aumentando. “Quando a gente pensa em ‘novo’ Enem, de 2009 para cá, o que levamos em consideração é que o exame aumentou muito o nível nas últimas edições. Antes, era mais simples”, contextualiza o professor Cláudio Hansen. A prova não pega leve mais, acredita ele. “O mito de que o Enem se faz apenas de modo interpretativo não é verdade. Na verdade, o fator interpretativo é fundamental, mas desde que aliado aos estudos e com conhecimento prévio”, diz.

“Um pouco mais da metade da prova gira em torno de geografia do Brasil, e o restante é de geografia geral e geopolítica”, mapeia Marcel Milani, professor da disciplina no Poliedro. Ambiente (15,5%) e climatologia (10,4%) são os temas mais comuns, segundo o levantamento da instituição. O professor Cláudio Hansen espera a continuidade dessa tendência. “Esperamos que a parte de geografia física tenha peso maior, o que já vem acontecendo, de todo modo. Não são questões fáceis e demandam tempo dos candidatos. A expectativa é de que ganhe força este ano e mais ainda em 2021”, projeta.

“Relevo e morfologia normalmente caem muito, mas geografia também tem uma ‘pegada’ de atualidades. Então, pode vir geopolítica, os movimentos separatistas da África e da Ásia”, acrescenta Miguel Gomes. “É uma geopolítica que não demanda muita polêmica, pois são questões internacionais: refugiados e conflitos envolvendo Estados Unidos, Oriente Médio e China”, afirma o professor Cláudio Hansen.

Sociologia e filosofia

Miguel Gomes está mais tranquilo a respeito de sociologia e filosofia. Estas “até caem”, na avaliação do jovem, mas sob perspectiva mais generalista e de resolução por meio do contexto. “Não são o foco do Enem. Aparecem mais como interpretação de texto, não exigindo conhecimento tão aprofundado. Normalmente, o próprio enunciado já entrega a questão”, afirma. Vanessa Menezes concorda com o colega. “Em filosofia e sociologia, o conteúdo é cobrado sempre em cima do texto que abre a questão.”

Não é bem assim. Claudio Hansen nota crescimento gradual das duas disciplinas, em volume e em dificuldade. “Houve aumento de questões nas quais predominam filosofia e sociologia. Mais do que isso, os alunos notaram que andam errando muito. Há mais dificuldade hoje”, avalia.

Ele percebe, ainda, entre os alunos, a falta de base para corresponder à evolução exigida. “Quando o Enem dá um recorte sobre os pré-socráticos, por exemplo, muitas pessoas nem entendem de que grupo estamos falando. Política antiga e pensamento helênico, também”, afirma. Aristóteles e cultura helênica são os conteúdos mais recorrentes (18,6%) em filosofia. Nos estudos sociológicos, a sociologia contemporânea é a mais abordada (28,6%), seguida por cidadania, cultura e educação.
 

* Estagiária sob supervisão de Jairo Macedo

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