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Correio Braziliense ENEM 2019

Agora é outra história

Mediante redirecionamentos admitidos pelo Ministério da Educação, expectativa, em humanas, é de prova mais curta, técnica e conteudista


postado em 16/09/2019 07:00

Não bastassem as preocupações quanto ao conteúdo regular do exame, cresce entre candidatos ao Enem a expectativa de uma prova diferente das anteriores. Não é para menos. Na educação brasileira, muito tem mudado: a nova administração federal promoveu, desde o início do ano, constantes trocas de cargo no Ministério da Educação (MEC) e Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia responsável pelo exame.
 
Rodrigo Villar:
Rodrigo Villar: "Enem mais teórico este ano" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
Mais que isso, levantou controvérsias sobre o exame, como a exclusão do que considera “viés ideológico” e a possível leitura prévia das questões, hipótese descartada depois. A profusão de discursos resvala nos candidatos e pode influenciar, em especial, as ciências humanas. O Inep admite que a seleção dos conteúdos deste ano priorizou temas menos polêmicos e, presume-se a partir disso, mais técnicos e de abordagem direta ao ponto.

“Este ano tenho a impressão de que vai ser mais teórico, principalmente pela mudança no comando do MEC. Vão evitar temas controversos”, opina o estudante Rodrigo Villar, 17. Colega dele no Sigma, Vanessa Menezes discorda. “Espero que mantenham a mesma forma de anos anteriores. É uma prova em que você precisa ler e interpretar, e acho que continuará assim.”

Conteudista

O professor Orlando Stiebler enxergou o exame de 2018 como coerente com a tradição do Enem, de temas sobre minorias sociais e reflexões a respeito. Para 2019, a história é diferente. “Acredito que pode haver uma mudança no sentido da prova ser mais conteudista”, avalia. Por “conteudista”, ele entende indagações com menos reflexão sobre o problema apresentado e mais conhecimento estrito do fato ocorrido. “Ou seja, pode indagar o momento histórico da Revolução Francesa, mas não trazer aquilo para o diálogo com os dias de hoje”, exemplifica. “Mantém-se o conteúdo, mas a abordagem pode ser mais técnica e objetiva”, sintetiza.

O espectro de uma nova prova tem rondado o exame há algum tempo, acredita o professor Leandro Vieira. “No ano passado, já havia uma perspectiva de mudanças em função do governo, que havia passado às mãos de Michel Temer, mas isto não chegou a se concretizar. O padrão vinculado à resposta e à estrutura foi bem parecido”, avalia.

Anúncio de conteúdo machista constou na prova de 2016(foto: Propagandas Históricas/Reprodução)
Anúncio de conteúdo machista constou na prova de 2016 (foto: Propagandas Históricas/Reprodução)
Desta vez, a possibilidade de alterações é mais palpável. “A gente espera também uma prova mais encurtada em tamanho, como foi dito que fariam”, diz Leandro Vieira. “Em humanas, acredito que caiam menos questões que envolvam temáticas sociais como ambientalismo, racismo e escravidão. São temas que sempre foram mote da prova, aparecendo em larga escala.”

Dito isso, é de se esperar que a ditadura militar brasileira seja outro assunto limado do exame? “Não diria que será excluída, mas cobrada de modo diferente. Por exemplo, sob o viés econômico. Temas espinhosos como a política externa do Brasil atual é outro ‘vespeiro’ no qual não se deve mexer”, avalia Stiebler.

Prova perde

Questões de gênero e revisão do papel histórico da mulher também perdem força, na avaliação do professor Cláudio Hansen. Ele relembra que, em outras edições, o tema suscitou itens interessantes, como o pensamento de Simone de Beauvoir, em 2015, e o aumento da presença feminina em equipe da Nasa, em 2016. Esta traçava paralelo entre notícia sobre a agência espacial norte-americana e propaganda dos anos 1960, na qual se lia: “As mulheres do futuro farão da Lua um lugar mais limpo para se viver”. O anúncio era de um produto de limpeza, que uma “astronauta” segurava. “Pautas como essas devem perder força neste momento”, lamenta.

Em se concretizando, essa expectativa decepcionará o professor. “O Enem nasceu para ser uma forma diferente de pensar provas de ensino médio no Brasil. O propósito sempre foi buscar o conteúdo além do conteúdo, conversando com a realidade das pessoas.”

O professor de história Orlando Stiebler também lastima. “A prova trata de temas interdisciplinares e debate aspectos sociais graves do Brasil, sempre com viés crítico sobre qualquer regime, de esquerda ou direita”, diz. 

“Por isso, as questões quase não têm interrogação. Parece um detalhe pequeno, mas exemplifica o método do exame: o candidato mostra o contexto e procura a opção que melhor se relaciona. Quando evitamos temas reais, uma camada inteira de estudantes acaba se distanciando das questões”, acrescenta Hansen.

De todo modo, a rotina de Gabriela Gonzaga segue focada em informações para além da sala de aula. “Tento ler vários jornais, porque sempre trazem opinião de diferentes espectros políticos. A partir daí, filtro as informações, de acordo com o que é mais importante para o conteúdo em si”, conta. “Questões sobre desigualdade social te ajudam a crescer como ser humano também. Espero que continuem”, torce a candidata Vanessa Menezes.
 

* Estagiária sob supervisão de Jairo Macedo

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