Publicidade

Correio Braziliense ENEM 2019

Línguas estrangeiras: como são as provas de espanhol e inglês no Enem

Inscritos no exame devem optar entre inglês e espanhol, que figuram na prova de linguagens. No 10º ano de aplicação das línguas estrangeiras, prova deve privilegiar capacidade de leitura e interpretação


postado em 21/10/2019 07:00 / atualizado em 20/10/2019 19:54


 
Daqui a 13 dias, ocorrerá o primeiro desafio para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019. Como é que se diz “estamos quase lá” em espanhol? E em inglês? É melhor saber, visto que a prova de linguagens, aplicada em 3 de novembro, envolve, além da língua portuguesa e de outras quatro frentes (artes, literatura, educação física, tecnologia da informação e comunicação), questões dedicadas ao espanhol ou ao inglês.

A escolha é do candidato. Seja qual for, não dá para ignorar a importância da língua estrangeira para alcançar a excelência em linguagens, área do conhecimento fundamental no acesso às vagas mais disputadas. A cobrança de línguas estrangeiras foi incorporada à prova em 2010. De lá para cá, tomou forma com cinco questões fixas por edição, sempre com textos de abertura na língua exigida, mas comando e itens em português.

O conteúdo e a abordagem, acreditam os professores, demonstram continuidade de ano a ano. “A prova vem seguindo os mesmos padrões, com muitos textos de música, poemas, charges. A prova quer saber se você é capaz de ler um texto e entender a ideia geral dele”, afirma Carina Fragozo, professora de inglês no canal English in Brazil. “O nível do inglês exigido no Enem não é extremamente difícil, mas requer conhecimento e domínio da língua para a leitura.”

O mesmo aplica-se ao espanhol, garante a professora do AulaLivre.net, Giovana Segat. “Desde que o espanhol entrou para a matriz de referência, percebe-se padrão e continuidade, sempre com textos com algum viés social ou literário”, afirma. “A prova exige leitura. Temos o texto da língua estrangeira, mas as alternativas são em português. É preciso bom desempenho de leitura, entendendo a informação contida ali.”
 
Maria Eduarda: paixão pela língua e cultura hispânica falou mais alto (foto: Nicolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
Maria Eduarda: paixão pela língua e cultura hispânica falou mais alto (foto: Nicolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 
Maria Eduarda Gonçalves, 18 anos, preferiu o espanhol. A secundarista, que busca vaga em medicina, viu o “incentivo para começar a gostar mesmo da língua e da cultura” nas aulas. “É o sonho da minha vida conhecer a América Latina e a Espanha.”

Ian Lopes, 18, optou pelo inglês, idioma no qual, acredita, já tem algum domínio. Mais que isso, o jovem estudante do terceiro ano do Colégio Sigma, é um apaixonado pela língua e vê as questões do Enem de modo lúdico. “Sempre fui bem nessa parte de língua estrangeira. Nos simulados que procuro fazer, vejo que tenho domínio e até me divirto fazendo a prova”, afirma. A falta de contato com a outra língua também pesou. “Só fui estudar espanhol no ensino fundamental, mas já estava muito mais familiarizado e confortável com a língua inglesa.”

Interpretação 

A exemplo do restante da prova de linguagens, a parcela que cabe aos idiomas estrangeiros é marcada pela riqueza de gêneros apresentados. Em 2018, por exemplo, houve cartum, textos de George Orwell e Eduardo Galeano, poema em inglês da indiana Kamala Dias e reportagens de veículos pelo mundo. Os assuntos trazidos envolvem Brasil, países de língua inglesa e hispanofalantes da Europa e América Latina. “Os temas passam por questões de outros países de língua espanhola, não só a Espanha. Nossos vizinhos todos também entram: Peru, Argentina, Chile, e outros”, observa Renata Duran, professora de espanhol do QG do Enem.

O material de cunho artístico requer atenção redobrada. “São textos que apresentam metáforas e figuras de linguagem. Assim como é difícil para um estrangeiro entender expressões do português, o inverso também vale. A prova traz textos que estimulam a subjetividade”, diz Giovana Segat. Carina Fragozo chama a atenção para os gêneros híbridos. “As tirinhas têm espaço garantido. É importante ler o texto junto à imagem. Em inglês, sempre tem artigos e notícias de grandes veículos também, como BBC e New York Times.”

Segundo levantamento do SAS Plataforma de Educação, leitura e interpretação de textos foram maioria absoluta nos temas de inglês e espanhol desde 2010. Na primeira, representou 51 questões (56,7%) e, na segunda, 47 (52,2%). Funções da linguagem, semântica e domínio lexical figuram em segundo lugar nas duas modalidades. “Em muitos vestibulares, surgem questões gramaticais e de vocabulário. O Enem não vai cobrar isso diretamente”, diferencia Carina Fragozo.

O predomínio da interpretação sobre a gramática é amplo, portanto. “É basicamente uma avaliação interpretativa. Nos textos que abrem as questões, você encontra a base para respondê-las”, garante Renata Duran. Para ela, o candidato deve “ter uma noção básica da língua” e mostrar desenvoltura no uso e aplicação dela. “No ato da leitura, é preciso entender qual é a visão do autor dentro do texto.”

Inglês no dia a dia 

Ana Beatriz:
Ana Beatriz: "Estudo assistindo séries para vivenciar a língua" (foto: Nicolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 

Dito isso, como trabalhar, então, a interpretação de texto na rotina dos estudos? Rafael Augusto, professor de inglês no Aula Livre, dá a dica: “É muito mais uma questão do aluno praticar conforme pode, como ler matérias em inglês ou assistir a um filme ou a uma série com legenda na língua. Tudo pode servir de exercício para aprimoramento”, diz. “Se você tem que estudar história, por exemplo, por que não ler um pouco sobre o assunto em inglês? Você estuda a disciplina e a língua na mesma atividade”, sugere Carina Fragozo.

Ana Beatriz Duarte, 18, conta que tem contato com o inglês desde pequena, como matéria obrigatória nas escolas. “Era uma língua com que já estava habituada. Estudo inglês assistindo a séries, porque nada mais fácil para vivenciar a língua. Então, não é uma parte tão longa em relação a linguagens e humanas.”

“Qualquer microleitura em outro idioma irá te agregar algum valor”, acrescenta Rui Ventura, professor do Kultivi. Ventura conta que iniciou o aprendizado em inglês pelo interesse pessoal em música. Não por acaso, hoje concilia as atividades de músico e professor, trazendo as canções para dentro de sala de aula. “Na música, o estudante encontra o vocabulário para desenvolver uma boa leitura. Além disso, leia o quanto for possível sobre cultura geral na língua estrangeira.”

Embora não seja a prioridade, todo o conhecimento em gramática ajuda na interpretação, é claro. “Em termos gramaticais, recomendo algum conhecimento sobre preposições e tempos verbais”, recomenda o professor Rafael.

“É importante que o aluno entenda os tempos verbais básicos, passado, presente e futuro. Para além disso, acrescente a eles o present perfect, que vai reportar ao passado, e os modal verbs, que aparecem bastante”, acrescenta o professor Rui, referindo-se aos verbos considerados auxiliares, complementando o sentido do verbo principal.

Rui Ventura lamenta que o formato proposto pelo Enem não encontra ressonância em boa parte das escolas brasileiras, que não preparam o aluno para esse tipo de prova. “Hoje, o sistema normal do ensino tem um pouco de interpretação de texto, mas ainda é focado quase inteiramente em gramática. Um ensino mais voltado à conversação e à compreensão mais ampla do idioma seria de muito melhor aproveitamento”, diz. “As pessoas devem aprender a se comunicar no idioma estrangeiro, e isso não vale só para o inglês.”

Espanhol em alta

A escolha da língua estrangeira divide os milhões de candidatos inscritos a cada ano. A tradição, no entanto, é que a língua espanhola leve sempre ligeira vantagem sobre a inglesa. Em 2019, 2,6 milhões de estudantes preferiram a primeira, contra 2,4 milhões que optaram pela segunda. São 52,% os que optaram pela língua latina, portanto, na esperança de que a similaridade com o português traga vantagens.

“Eles escolhem pela proximidade, sem dúvida. Acham que isso vai ajudá-los a resolver a prova. Mas tem que tomar cuidado, pois nos últimos anos, o espanhol do Enem vem crescendo em dificuldade”, avalia a professora Renata Duran. “Como docente da disciplina, fico preocupada, pois não é real essa impressão.”
 
João Rizzolo:
João Rizzolo: "Muita pressão em cima da gente" (foto: Nicolas Braga/Esp. CB/D.A Press)
 
“Meu contato com o espanhol se dá pelo entretenimento”, afirma Maria Eduarda Gonçalves. “A língua espanhola entra, sim, no cotidiano das pessoas. Se pensar na internet e nas plataformas de streaming, há um grande número de séries de sucesso, como La Casa de Papel, entre o público jovem”, acredita Renata Duran. Atualmente, segundo levantamento do site Internet World Stats, 7,9% dos usuários da internet usam o espanhol, totalizando 293 milhões de pessoas pelo mundo. É a terceira língua mais falada, atrás apenas do mandarim (20,4%) e do inglês (25,5%).

Mas cuidado. “Muitas vezes, é um tiro no pé. Alunos que não têm conhecimento algum de espanhol fazem o exame certos de que será fácil a compreensão”, alerta Giovana Segat. “O correto, para o aluno, é avaliar o conhecimento que, de fato, tem da língua. O que vemos acontecendo é que muitos alunos escolhem o espanhol simplesmente pela proximidade com a língua portuguesa.”

João Rizzolo, 17, pondera com conhecimento de causa. Quando mais novo, o estudante morou por um ano na Espanha e, ainda que tenha retornado com gramática e vocabulário na ponta da língua, acredita que o exame pode trazer surpresas. “Não é tão difícil nem tão fácil. Ele me preocupa um pouco. É uma prova que tem muita pressão em cima da gente, muita concorrência.”

Os falsos cognatos, termos que se parecem nas duas línguas, são o que mais pegam o candidato no contrapé. “O aluno acaba escolhendo o espanhol porque acha que se sentirá mais confortável, mas é preciso estar atento para palavras parecidas com o português, mas que, na verdade, não têm o mesmo significado”, alerta Renata Duran. “Tem algumas coisas parecidas, mas não é a mesma língua. Você pode cair em algum peguinha”, acredita João Rizzole.

O exemplo lembrado pela professora do QG do Enem é o termo “embarazada”. “No espanhol, significa ‘grávida’. Em português, soa como sinônimo de confuso, envergonhado, etc. O candidato pode perder uma expressão dentro do texto e, na tentativa de trazer ela pra língua natal, pode se perder.” De todo modo, neste exame em que a interpretação é sempre a chave para a resposta, não se cobra diretamente o entendimento deles. “Não se cobra, em uma questão, o que é falso cognato ou qual o significado de algum deles especificamente. Os alunos se preparam decorando, mas não é a proposta geral do Enem”, diz Duran.

O desempenho geral na língua sai prejudicado, observa Giovana Segat, pela retirada da obrigatoriedade do ensino do espanhol nas escolas. Em 2017, a oferta da disciplina deixou de ser obrigatória para se tornar facultativa após a reforma do Ensino Médio ser sancionada pelo então presidente Michel Temer. “Muitas escolas já retiraram o espanhol, deixando apenas o inglês e somente no ensino médio. A realidade brasileira hoje é essa, de pouquíssimo contato em sala de aula. Nas discussões atuais da BNCC, o espanhol não tem sido escolhido. O que vem ocorrendo são batalhas estaduais para garantir as necessidades locais.”
 

* Estagiário sob supervisão de Jairo Macedo

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade

MAIS NOTÍCIAS

Não há desenvolvimento sem educação 07:00 - 11/11/2019 - Compartilhe

Não há desenvolvimento sem educação

Seleção exclusiva para PCD 07:00 - 11/11/2019 - Compartilhe

Seleção exclusiva para PCD

Brasília: futuro polo de moda internacional 07:00 - 11/11/2019 - Compartilhe

Brasília: futuro polo de moda internacional

publicidade
publicidade
publicidade
publicidade
publicidade
publicidade