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Correio Braziliense

Confira redações nota mil de 2018

Leia as produções dos estudantes que chegam à excelência em redação em 2018


postado em 28/10/2019 09:18 / atualizado em 28/10/2019 09:40

Chegar à excelência na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não é fácil. Em 2018, apenas 53 candidatos, dentre milhões, alcançaram o feito. O Correio ouviu alguns dos aprovados, que contaram suas experiências e deram dicas valiosas para quem fará o exame neste ano. O tema proposto pelo Inep, na ocasião, foi "Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet".

Confira na íntegra o texto escrito por alguns deles. 

Iohana Freitas da Silva, 19 anos
Riacho Fundo/DF

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)

Por consequência da Revolução Científica, o acesso à tecnologia favorece o contato com uma farta veiculação de informações, as quais são constantemente manipuladas. Nesse sentido, o controle de dados presente na internet reverbera uma arquitetura de comportamento da sociedade, sendo imperiosa a ampliação de medidas a fim de minimizar os impactos ocasionados por esse cenário. Ademais, é XXX ressaltar a ausência de pensamento crítico como causa, bem como os prejuízos sociais fomentados em decorrência disso.

Em primeiro plano, urge analisar a falta de criticismo dos usuários mediante a internet. Nesse contexto, a falta de percepção crítica acerca das informações adquiridas nas redes por parte dos indivíduos implica uma falsa ideai de liberdade de escolha, já que os meios de comunicação definem a noção de mundo dos seus usuários. Com efeito, tal conjuntura é análoga à “minoridade intelectual”, proposta por Kant, a qual caracteriza a falta de autonomia dos indivíduos sobre seus intelectos, uma vez que a sociedade torna-se refém da manipulação de dados da internet e, consequentemente, tem seu comportamento moldado.

Outrossim, questões sociais estão intimamente ligadas ao controle de informações na internet. Nesse âmbito, a cegueira moral, fenômeno exposto por José Saramago em sua obra “Ensaio sobre a cegueira”, caracteriza a alienação da sociedade frente às demais realidades sociais, a qual é fomentada pela restrição do pleno acesso à informação pelos meios de comunicação. Dessa feita, as redes sociais propiciam a formação de “bolhas sociais”, de modo a manipular o comportamento do indivíduo, além de restringir sua ideia acerca da conjuntura vivida.

Em síntese, medidas devem ser efetivadas a fim de mitigar os impactos causados pelo controle de dados na internet. Desse modo, as escolas devem promover a educação em informática por meio de aulas sobre uso consciente da tecnologia e da informação – as quais utilizam computadores e celulares – com vistas a induzir o pensamento crítico desde a infância. Além disso, cabe à sociedade efetivar o uso consciente da internet, por intermédio do policiamento acerca da obtenção de informações, as quais devem ser originadas de fontes confiáveis, com o intuito de assegurar uma mudança de pensamento social. Dessa forma, garantir-se-á o combate à manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet.
 
 
Natália Patrício, 20 anos
Gama/DF

A utilização dos meios de comunicação para manipular comportamentos não é recente no Brasil: ainda em 1937, Getúlio Vargas apropriou-se da divulgação de uma falsa ameaça comunista para legitimar a implantação de um governo ditatorial. Entretanto, os atuais mecanismos de controle de dados, proporcionados pela internet, revolucionaram de maneira negativa essa prática, uma vez que conferiram aos usuários uma sensação ilusória de acesso à informação, prejudicando a construção da autonomia intelectual e, por isso, demandam intervenções. Ademais, é imperioso ressaltar os principais impactos da manipulação, com destaque à influência nos hábitos de consumo e nas convicções pessoais dos usuários. 

Nesse contexto, as plataformas digitais, associadas aos algoritmos de filtragem de dados, proporcionaram um terreno fértil para a evolução dos anúncios publicitários. Isso ocorre porque, ao selecionar os interesses de consumo do internauta, baseado em publicações feitas por este, o sistema reorganiza as informações que chegam até ele, de modo a priorizar os anúncios complacentes ao gosto do usuário. Nesse viés, há uma pretensa sensação de liberdade de escolha, teorizada pela Escola de Frankfurt, já que todos os dados adquiridos estão sujeitos à coerção econômica. Dessa forma, há um bombardeio de propagandas que influenciam os hábitos de consumo de quem é atingido, visto que, na maioria das vezes, resultam na aquisição do produto anunciado. 
 
Somado a isso, tendo em vista a capacidade dos algoritmos de selecionar o que vai ou não ser lido, estes podem ser usados para moldar interesses pessoais dos leitores, a fim de alcançar objetivos políticos e/ou econômicos. Nesse cenário, a divulgação de notícias falsas é utilizada como artifício para dispersar ideologias, contaminando o espaço de autonomia previsto pelo sociólogo Manuel Castells, o qual caracteriza a internet como ambiente importante para a amplitude da democracia, devido ao seu caráter informativo e deliberativo. Desse modo, o controle de dados torna-se nocivo ao desenvolvimento da consciência crítica dos usuários, bem como à possibilidade de uso da internet como instrumento de politização.
 
Evidencia-se, portanto, que a manipulação advinda do controle de dados na internet é um obstáculo para a consolidação de uma educação libertadora. Por conseguinte, cabe ao Ministério da Educação investir em educação digital nas escolas, por meio da inclusão de disciplinas facultativas, as quais orientarão aos alunos sobre as informações pessoais publicadas na internet, a fim de mitigar a influência exercida pelos algoritmos e, consequentemente, fomentar o uso mais consciente das plataformas digitais. Além disso, é necessário que o Ministério da Justiça, em parceria com empresas de tecnologia, crie canais de denúncia de “fake news”, mediante a implementação de indicadores de confiabilidade nas noticias veiculadas – como o projeto “The Trust Project” nos Estados Unidos – com o intuito de minimizar o compartilhamento de informações falsas e o impacto destas na sociedade. Feito isso, a sociedade brasileira poderá se proteger contra a manipulação e a desinformação.


Fabrício Vitorino da Silva, 19 anos
Rio Claro/SP

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)
 

Após o fim da Guerra Fria, em 1990, e o estabelecimento do capitalismo em praticamente todo o mundo, as empresas utilizam-se cada vez mais dos meios midiáticos e da tecnologia para promoverem seus produtos de maneira direcionada e flexibilizada aos consumidores. Com efeito, nota-se crescente número de pessoas consumistas e endividadas, problema agravado na contemporaneidade. Assim, cabe a análise acerca de causas, consequências e possível solução da problemática. 

Mormente, é importante ressaltar os fatores que possibilitaram o aumento da influência midiática. Adorno e Horkeheimer, dois importantes filósofos da escocla de Frankfurt, definiram como Indústria Cultural a padronização e a massificação dos produtos como forma de lucratividade. Tais métodos, aliados às facilidades que a tecnologia trz em rastrear os sites de compra visitados pelo consumidor, permitem a manipulação das pessoas por meio de propagandas direcionadas. Desse modo, como dito por Theodor Adorno, os cidadãos têm a liberdade de escolher sempre a mesma coisa; algo grave, tendo em vista o ferimento do direito de escolha do indivíduo.

Vale também ressaltar os efeitos desse fenômeno. De acordo com uma pesquisa publicada no portal G1, os brasileiros passam cerca de 4 horas diárias conectados à rede. Como grande parte do conteúdo na internet é moldada ao usuário, é cada vez mais comum encontrar pessoas que passam horas assistindo, ouvindo ou lendo coisas de interesse próprio, pois essas pessoas são bombardeadas diariamente com sugestões que atendem ao seu perfil. Dessa maneira, os indivíduos têm sua opinião e comportamento moldados conscientemente, podendo criar padrões consumistas, algo que gera endividamento e desperdício e precisa mudar urgentemente. 

Depreende-se, portanto, que o controle dos ddados na internet pode ser muito prejudicial ao cidadão e necessita de mais atenção. O governo federal, como instituição regulamentadora da internet e propaganda, deve criar medidas que controlem e reduzam a publicidade direcionada, por meio da fiscalização e criação de leis que exijam a transparência das empresas. Espera-se, com isso, que os brasileiros possam ter a liberdade de escolha garantida e, assim, sejam menos manipulados pela mídia, como Adorno e Horkheimer defendiam.


Fernanda Santos, 19 anos
Belo Horizonte/MG

No filme “Matrix”, clássico do gênero ficção científica, o protagonista Neo é confrontado
pela descoberta de que o mundo em que vive é, na realidade, uma ilusão construída a fim de manipular o comportamento dos seres humanos, que, imersos em máquinas que mantêm seus corpos sob controle, são explorados por um sistema distópico dominado pela tecnologia.

Fernanda Santos, do colégio Bernoulli, é uma das mulheres que tiraram nota máxima(foto: Acervo pessoal)
Fernanda Santos, do colégio Bernoulli, é uma das mulheres que tiraram nota máxima (foto: Acervo pessoal)
Embora seja uma obra ficcional, o filme apresenta características que se assemelham ao atual contexto brasileiro, pois, assim como na obra, os mecanismos tecnológicos têm contribuído para a alienação dos cidadãos, sujeitando-os aos filtros de informações impostos pela mídia, o que influencia negativamente seus padrões de consumo e sua autonomia intelectual.

Em princípio, cabe analisar o papel da internet no controle do comportamento sob a perspectiva do sociólogo contemporâneo Zygmunt Bauman. Segundo o autor, o crescente desenvolvimento tecnológico, aliado ao incentivo ao consumo desenfreado, resulta numa sociedade que anseia constantemente por produtos novos e por informações atualizadas. 

Nesse contexto, possibilita-se a ascensão, no meio virtual, de empresas que se utilizam de algoritmos programados para selecionar o conteúdo a ser exibido aos internautas com base em seu perfil socioeconômico, oferecendo anúncios de produtos e de serviços condizentes com suas recentes pesquisas em sites de busca ou de compras. Verifica-se, portanto, o impacto da mídia virtual na criação de necessidades que fomentam o consumo entre os cidadãos.

Ademais, a influência do meio virtual atinge também o âmbito intelectual. Isso ocorre na medida em que, ao ter acesso apenas ao conteúdo previamente selecionado de acordo com seu perfil na internet, o indivíduo perde contato com pontos de vista que divergem do seu, o que compromete significativamente a construção de seu senso crítico e de sua capacidade de diálogo. Dessa maneira, surge uma massa de internautas alienados e despreocupados em checar a procedência das informações que recebem, o que torna ambiente virtual propício à disseminação das chamadas “fake news”.

Assim, faz-se necessária a atuação do Ministério da Educação, em parceria com a mídia, na educação da população — especialmente dos jovens, público mais atingido pela influência digital — acerca da necessidade do posicionamento crítico quanto ao conteúdo exposto e sugerido na internet. Isso deve ocorrer por meio da promoção de palestras, que, ao serem ministradas em escolas e universidades, orientem os brasileiros no sentido de buscar informação em fontes variadas, possibilitando a construção de senso crítico. Além disso, cabe às entidades em governamentais a elaboração de medidas que minimizem os efeitos das propagandas que visam incentivar o consumismo. Dessa forma, será possível tornar o meio virtual um ambiente mais seguro e democrático para a população brasileira.


Lucas Felpi, 18 anos
São Paulo/SP

Em primeiro lugar, é importante destacar que, em função das novas tecnologias, internautas são cada vez mais expostos a uma gama limitada de dados e conteúdos na internet, consequência do desenvolvimento de mecanismos filtradores de informação a partir do uso diário individual. De acordo com o filósofo Zygmund Baüman, vive-se atualmente um período de liberdade ilusória, já que o mundo digitalizado não só possibilitou novas formas de interação com o conhecimento, mas também abriu portas para a manipulação e alienação vistas em “1984”. Assim, os usuários são inconscientemente analisados e lhes é apresentado apenas o mais atrativo para o consumo pessoal.

Por conseguinte, presencia-se um forte poder de influência desses algoritmos no comportamento da coletividade cibernética: ao observar somente o que lhe interessa e o que foi escolhido para ele, o indivíduo tende a continuar consumindo as mesmas coisas e fechar os olhos para a diversidade de opções disponíveis. Em um episódio da série televisiva Black Mirror, por exemplo, um aplicativo pareava pessoas para relacionamentos com base em estatísticas e restringia as possibilidades para apenas as que a máquina indicava – tornando o usuário passivo na escolha. Paralelamente, esse é o objetivo da indústria cultural para os pensadores da Escola de Frankfurt: produzir conteúdos a partir do padrão de gosto do público, para direcioná-lo, torná-lo homogêneo e, logo, facilmente atingível.

Portanto, é mister que o Estado tome providências para amenizar o quadro atual. Para a conscientização da população brasileira a respeito do problema, urge que o Ministério de Educação e Cultura (MEC) crie, por meio de verbas governamentais, campanhas publicitárias nas redes sociais que detalhem o funcionamento dos algoritmos inteligentes nessas ferramentas e advirtam os internautas do perigo da alienação, sugerindo ao interlocutor criar o hábito de buscar informações de fontes variadas e manter em mente o filtro a que ele é submetido. Somente assim, será possível combater a passividade de muitos dos que utilizam a internet no país e, ademais, estourar a bolha que, da mesma forma que o Ministério da Verdade construiu em Winston de “1984”, as novas tecnologias estão construindo nos cidadãos do século XXI.

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