Pela defesa da primeira infância, especialistas se reúnem em curso em SP

Ate sexta-feira (10), 51 pessoas debatem políticas públicas e ações estratégicas para crianças de até 6 anos. O corpo docente é composto por professores de Harvard e do Brasil

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postado em 07/04/2015 09:51 / atualizado em 03/03/2018 14:39

Cinquenta e uma pessoas participam da primeira edição do curso de liderança executiva em desenvolvimento da primeira infância no Brasil. A capacitação, promovida pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), começou nesta segunda-feira (6) no Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), em São Paulo. Nas outras três edições, as aulas ocorreram na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. 


Os alunos são das áreas de educação, saúde, psicologia e serviço social, além de formuladores de políticas públicas, representantes do terceiro setor e da sociedade civil. O objetivo é promover o debate e fornecer uma base intersetorial e científica para a criação de políticas públicas efetivas para crianças de 0 a 6 anos. 

Alexandre Carvalho/divulgação
As aulas do primeiro módulo seguem até sexta-feira (10), e os participantes trabalharão em grupos para criar planos de ação aplicáveis na defesa da primeira infância – o projeto é, inclusive, o trabalho final do curso. Os participantes voltam a se encontrar no segundo módulo, a ser realizado em 8 e 9 de junho. Entre os dois períodos, continuarão em contato por meio de um ambiente virtual para estruturar a viabilidade e o planejamento do projeto.

"Não vamos ignorar a primeira infância, que é tão essencial e deixa marcas profundas – para o bem e para o mal – no ser humano. Não vamos deixar para investir na criança apenas quando ela chegar à escola." A fala de Jack Shonkoff, professor de saúde infantil e diretor do Center on Developing Child de Harvard, define o foco do evento. "Minha área de pesquisa mostra que esses são os anos dourados do cérebro. A expectativa, aqui, é construir novas ideias e sair para por a mão na massa", conta animada Bacy Fleitlich-Bilyk, diretora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). A importância de investir no período, para Fatima Fernandes, do Hospital Infantil Sabará é clara: "A infância saudável pode contribuir para uma sociedade melhor".

"Essa iniciativa é de um coletivo que entende que a primeira infância é uma fase importante, mas negligenciada", explica Eduardo Queiroz, presidente da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que atua no desenvolvimento da primeira infância e participa da organização do curso. "Reunir pessoas da educação, da medicina, da psicologia, do desenvolvimento social, da neurociência e de outras áreas é importante para olhar o período por meio de diferentes visões e produzir ações melhores", defende.

Naércio Menezes, professor do Insper, acrescenta que a economia também pode ser uma das vertentes pela qual o tema pode ser analisado. "Nós, por exemplo, somos economistas que entendem a importância da primeira infância para o desenvolvimento do país." Jason Dyett, diretor do David Rockfeller Center for Latin American Studies da Universidade de Harvard, defende que "a diversidade é importante ao buscar colaboração de diversas áreas para a primeira infância". Para ele, a grande expectativa do curso de liderança executiva em desenvolvimento da primeira infância é gerar resultados que vão além da sala de aula.

Alexandre Carvalho/divulgação
Apesar da importância da integração de diferentes setores e áreas para uma ação eficaz pelas crianças, Ricardo Paes de Barros, ex-subsecretário de Ações Estratégicas da Presidência da República e pós-doutor em economia, ressalta o tamanho desse desafio. "O plano de Bolívar era fazer da América Latina um único país, conciliando diversos interesses. Integrar tantas áreas é tão difícil quanto unificar a América Latina", compara.

Aulas de ouro

Na primeira sessão do curso, Ricardo Paes de Barros avaliou o panorama das políticas para a primeira infância no Brasil. Para ele, está na hora de o Brasil parar de ter uma abordagem tradicional, focada em direitos negativos (como prevenir e evitar mortalidade infantil, morbidade, desnutrição, abandono, negligência e maus tratos), para investir em direitos positivos (como promover o bem-estar, oportunidades para brincar e o desenvolvimento do potencial da criança e de habilidades sociais e emocionais). "Isso não quer dizer que os primeiros devem ser deixados de lado: temos que continuar a monitorá-los. Mas o atendimento integral à infância não é só isso. Precisamos de um foco no desenvolvimento - como ocorre em países desenvolvidos como o Canadá. Saímos assim de 'proteger e evitar' para agir em 'estimular e interagir'", esclarece.

O resto do dia foi marcado por falas dos professores de Harvard Jack Shonkoff e Charles Nelson. Por meio de videoconferência, Shonkoff falou sobre como alavancar a ciência para fortalecer as práticas e políticas públicas. O grande foco dos estudos abordados por ele está na importância da primeira infância para o desenvolvimento de funções executivas – como concentração, planejamento e controle inibitório – e como crianças se desenvolvem de formas diferentes dependendo do ambiente a que forem submetidas. "É uma fase de grande oportunidade e também de ameaça. É uma oportunidade de formar uma base sólida para o resto da vida, mas também uma época que pode gerar consequências – muitas vezes irreversíveis – para o resto da vida em campos como saúde, inteligência, aspecto emocional..."

Alexandre Carvalho/divulgação
O estresse tóxico a que está submetida uma criança que vive num ambiente de ameaça – como fome, pobreza, maus tratos, abuso, violência doméstica –, se persistente e crônico, torna a pessoa mais vulnerável a doenças e a ter um desempenho educacional pior. "Os adultos têm que ensinar as crianças a lidar com o estresse – não necessariamente eliminá-lo, mas tornar a situação administrável e tolerável."

Charles Nelson, professor de pediatria em Harvard, abordou o desenvolvimento cerebral na primeira infância a partir de resultados de experimentos científicos. "O estresse tóxico persistente muda até a arquitetura do cérebro e diminui o número de conexões dos neurônios, afeta também o sistema imunológico, o metabolismo e a função cardiovascular. Como regra geral, adversidades na primeira infância geram consequências mais profundas e mais duradouras do que adversidades sofridas depois. Por isso, é tão importante proteger a primeira infância."

Participação diversificada
Representando a Prefeitura de São Paulo, Otavio de Paiva conta que há chances de aplicação do conteúdo estudado na prática. "A primeira-dama (Ana Estela Haddad) participou do curso em Harvard e trouxe várias ideias que foram aplicadas em diversos projetos. Minha participação agora é para continuar contribuindo."

Renata Almeida, diretora do colégio Vital Brazil, e Monica Mazzo, diretora do colégio AB Sabin, esperam levar conteúdos relevantes para a primeira infância a suas escolas. "Somos focados em crianças de 1 ano e meio a 6 anos. É legal receber uma base científica para orientar pais e professores", afirma Monica.

Ana Luiza Pacheco, professora de pediatria da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) pretende aplicar os conhecimentos adquiridos no curso no Núcleo de Apoio à Primeira Infância (Napi) da instituição, cujo foco está em populações ribeirinhas. "É um projeto multidisciplinar com pesquisadores de várias áreas e não é assistencial. Nós capacitamos membros das comunidades para proteger e desenvolver a primeira infância", explica.

Interessada no desenvolvimento das filhas, de 1 e 9 anos, a publicitária Patricia Marinho criou o blog tempojunto.com, em que compartilha dicas de brincadeiras para pais e filhos e defende a importância do brincar. O que começou como um hobby, um ano depois, se tornou a profissão da moradora de São Paulo, que conta com mais de 37 mil curtidas no Facebook. "Uma pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal mostrou que apenas 19% das pessoas reconhecem a importância do brincar para o desenvolvimento das crianças. No blog, difundo a importância e recebo feedback muito positivo de pais que perceberam mudanças significativas nos filhos." Com o curso, ela pretende adquirir bagagem de conhecimento para atuar melhor em prol do desenvolvimento infantil. "Não sou da educação nem do serviço social e nem pretendo ser. Eu sou uma mãe interessada. O curso é um investimento para trabalhar melhor com isso", conta a blogueira, que lançará um livro sobre as experiências no site em junho.

Histórico
O curso de liderança executiva em desenvolvimento da primeira infância foi oferecido três vezes, mas essa é a primeira vez que ocorre no Brasil. Nas ultimas edições, foi realizado na Universidade de Harvard. No exterior, contou com a participação de atores do setor público do Brasil, como deputados, secretários de Educação e representantes dos Ministérios da Educação, da Saúde e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. A edição no Brasil veio para facilitar a participação de membros de prefeituras e secretarias de diversos municípios brasileiros. A previsão da organização é que, no próximo ano, a formação volte a ser oferecida em Harvard e que seja organizada de forma intercalada nos dois países ao longo das próximas edições. 

Alexandre Carvalho/divulgação
"Tivemos um grande numero de inscrições, e não deu nem para atender a todos. Então, desenvolver o curso aqui é muito positivo", comemora Gabriela Pluciennik, coordenadora de projetos da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Segundo ela, as edições anteriores já trouxeram resultados. "Vemos inúmeros benefícios, como deputados que voltaram e criaram projetos de lei nesse sentido, alem de projetos de governos estaduais e municipais. O Marco Regulatório da Primeira Infância (antigo PL 6.988/2013, identificado agora como PLC 14/2015, que tramita no Senado) foi um dos desdobramentos."

Sediado pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), o curso é uma iniciativa do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI) em parceria com a Havard University (por meio do David Rockfeller Center for Latin American Studies e o Center on the Developing Child), a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) e o Hospital Infantil Sabará.

* A jornalista viajou a convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal