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Pela defesa da primeira infância, especialistas se reúnem em curso em SP

Ate sexta-feira (10), 51 pessoas debatem políticas públicas e ações estratégicas para crianças de até 6 anos. O corpo docente é composto por professores de Harvard e do Brasil

Ana Paula Lisboa
postado em 07/04/2015 09:51
Cinquenta e uma pessoas participam da primeira edição do curso de liderança executiva em desenvolvimento da primeira infância no Brasil. A capacitação, promovida pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), começou nesta segunda-feira (6) no Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), em São Paulo. Nas outras três edições, as aulas ocorreram na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Os alunos são das áreas de educação, saúde, psicologia e serviço social, além de formuladores de políticas públicas, representantes do terceiro setor e da sociedade civil. O objetivo é promover o debate e fornecer uma base intersetorial e científica para a criação de políticas públicas efetivas para crianças de 0 a 6 anos.

Jack Shonkoff fala de Harvard para o Brasil As aulas do primeiro módulo seguem até sexta-feira (10), e os participantes trabalharão em grupos para criar planos de ação aplicáveis na defesa da primeira infância ; o projeto é, inclusive, o trabalho final do curso. Os participantes voltam a se encontrar no segundo módulo, a ser realizado em 8 e 9 de junho. Entre os dois períodos, continuarão em contato por meio de um ambiente virtual para estruturar a viabilidade e o planejamento do projeto.

"Não vamos ignorar a primeira infância, que é tão essencial e deixa marcas profundas ; para o bem e para o mal ; no ser humano. Não vamos deixar para investir na criança apenas quando ela chegar à escola." A fala de Jack Shonkoff, professor de saúde infantil e diretor do Center on Developing Child de Harvard, define o foco do evento. "Minha área de pesquisa mostra que esses são os anos dourados do cérebro. A expectativa, aqui, é construir novas ideias e sair para por a mão na massa", conta animada Bacy Fleitlich-Bilyk, diretora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). A importância de investir no período, para Fatima Fernandes, do Hospital Infantil Sabará é clara: "A infância saudável pode contribuir para uma sociedade melhor".

"Essa iniciativa é de um coletivo que entende que a primeira infância é uma fase importante, mas negligenciada", explica Eduardo Queiroz, presidente da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que atua no desenvolvimento da primeira infância e participa da organização do curso. "Reunir pessoas da educação, da medicina, da psicologia, do desenvolvimento social, da neurociência e de outras áreas é importante para olhar o período por meio de diferentes visões e produzir ações melhores", defende.

Naércio Menezes, professor do Insper, acrescenta que a economia também pode ser uma das vertentes pela qual o tema pode ser analisado. "Nós, por exemplo, somos economistas que entendem a importância da primeira infância para o desenvolvimento do país." Jason Dyett, diretor do David Rockfeller Center for Latin American Studies da Universidade de Harvard, defende que "a diversidade é importante ao buscar colaboração de diversas áreas para a primeira infância". Para ele, a grande expectativa do curso de liderança executiva em desenvolvimento da primeira infância é gerar resultados que vão além da sala de aula.

Apesar da importância da integração de diferentes setores e áreas para uma ação eficaz pelas crianças, Ricardo Paes de Barros, ex-subsecretário de Ações Estratégicas da Presidência da República e pós-doutor em economia, ressalta o tamanho desse desafio. "O plano de Bolívar era fazer da América Latina um único país, conciliando diversos interesses. Integrar tantas áreas é tão difícil quanto unificar a América Latina", compara.

Aulas de ouro

Na primeira sessão do curso, Ricardo Paes de Barros avaliou o panorama das políticas para a primeira infância no Brasil. Para ele, está na hora de o Brasil parar de ter uma abordagem tradicional, focada em direitos negativos (como prevenir e evitar mortalidade infantil, morbidade, desnutrição, abandono, negligência e maus tratos), para investir em direitos positivos (como promover o bem-estar, oportunidades para brincar e o desenvolvimento do potencial da criança e de habilidades sociais e emocionais). "Isso não quer dizer que os primeiros devem ser deixados de lado: temos que continuar a monitorá-los. Mas o atendimento integral à infância não é só isso. Precisamos de um foco no desenvolvimento - como ocorre em países desenvolvidos como o Canadá. Saímos assim de ;proteger e evitar; para agir em ;estimular e interagir;", esclarece.

O resto do dia foi marcado por falas dos professores de Harvard Jack Shonkoff e Charles Nelson. Por meio de videoconferência, Shonkoff falou sobre como alavancar a ciência para fortalecer as práticas e políticas públicas. O grande foco dos estudos abordados por ele está na importância da primeira infância para o desenvolvimento de funções executivas ; como concentração, planejamento e controle inibitório ; e como crianças se desenvolvem de formas diferentes dependendo do ambiente a que forem submetidas. "É uma fase de grande oportunidade e também de ameaça. É uma oportunidade de formar uma base sólida para o resto da vida, mas também uma época que pode gerar consequências ; muitas vezes irreversíveis ; para o resto da vida em campos como saúde, inteligência, aspecto emocional..."

Charles Nelson, de Harvard, aborda o desenvolvimento do cérebro na primeira infância O estresse tóxico a que está submetida uma criança que vive num ambiente de ameaça ; como fome, pobreza, maus tratos, abuso, violência doméstica ;, se persistente e crônico, torna a pessoa mais vulnerável a doenças e a ter um desempenho educacional pior. "Os adultos têm que ensinar as crianças a lidar com o estresse ; não necessariamente eliminá-lo, mas tornar a situação administrável e tolerável."

Charles Nelson, professor de pediatria em Harvard, abordou o desenvolvimento cerebral na primeira infância a partir de resultados de experimentos científicos. "O estresse tóxico persistente muda até a arquitetura do cérebro e diminui o número de conexões dos neurônios, afeta também o sistema imunológico, o metabolismo e a função cardiovascular. Como regra geral, adversidades na primeira infância geram consequências mais profundas e mais duradouras do que adversidades sofridas depois. Por isso, é tão importante proteger a primeira infância."

Participação diversificada
Representando a Prefeitura de São Paulo, Otavio de Paiva conta que há chances de aplicação do conteúdo estudado na prática. "A primeira-dama (Ana Estela Haddad) participou do curso em Harvard e trouxe várias ideias que foram aplicadas em diversos projetos. Minha participação agora é para continuar contribuindo."

Renata Almeida, diretora do colégio Vital Brazil, e Monica Mazzo, diretora do colégio AB Sabin, esperam levar conteúdos relevantes para a primeira infância a suas escolas. "Somos focados em crianças de 1 ano e meio a 6 anos. É legal receber uma base científica para orientar pais e professores", afirma Monica.

Ana Luiza Pacheco, professora de pediatria da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) pretende aplicar os conhecimentos adquiridos no curso no Núcleo de Apoio à Primeira Infância (Napi) da instituição, cujo foco está em populações ribeirinhas. "É um projeto multidisciplinar com pesquisadores de várias áreas e não é assistencial. Nós capacitamos membros das comunidades para proteger e desenvolver a primeira infância", explica.

Interessada no desenvolvimento das filhas, de 1 e 9 anos, a publicitária Patricia Marinho criou o blog tempojunto.com, em que compartilha dicas de brincadeiras para pais e filhos e defende a importância do brincar. O que começou como um hobby, um ano depois, se tornou a profissão da moradora de São Paulo, que conta com mais de 37 mil curtidas no Facebook. "Uma pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal mostrou que apenas 19% das pessoas reconhecem a importância do brincar para o desenvolvimento das crianças. No blog, difundo a importância e recebo feedback muito positivo de pais que perceberam mudanças significativas nos filhos." Com o curso, ela pretende adquirir bagagem de conhecimento para atuar melhor em prol do desenvolvimento infantil. "Não sou da educação nem do serviço social e nem pretendo ser. Eu sou uma mãe interessada. O curso é um investimento para trabalhar melhor com isso", conta a blogueira, que lançará um livro sobre as experiências no site em junho.

Histórico
O curso de liderança executiva em desenvolvimento da primeira infância foi oferecido três vezes, mas essa é a primeira vez que ocorre no Brasil. Nas ultimas edições, foi realizado na Universidade de Harvard. No exterior, contou com a participação de atores do setor público do Brasil, como deputados, secretários de Educação e representantes dos Ministérios da Educação, da Saúde e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. A edição no Brasil veio para facilitar a participação de membros de prefeituras e secretarias de diversos municípios brasileiros. A previsão da organização é que, no próximo ano, a formação volte a ser oferecida em Harvard e que seja organizada de forma intercalada nos dois países ao longo das próximas edições.

Gabriela Pluciennik, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, espera aplicações do curso na formulação de políticas públicas "Tivemos um grande numero de inscrições, e não deu nem para atender a todos. Então, desenvolver o curso aqui é muito positivo", comemora Gabriela Pluciennik, coordenadora de projetos da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Segundo ela, as edições anteriores já trouxeram resultados. "Vemos inúmeros benefícios, como deputados que voltaram e criaram projetos de lei nesse sentido, alem de projetos de governos estaduais e municipais. O Marco Regulatório da Primeira Infância (antigo PL 6.988/2013, identificado agora como PLC 14/2015, que tramita no Senado) foi um dos desdobramentos."

Sediado pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), o curso é uma iniciativa do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI) em parceria com a Havard University (por meio do David Rockfeller Center for Latin American Studies e o Center on the Developing Child), a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) e o Hospital Infantil Sabará.

* A jornalista viajou a convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

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