Otávio Augusto
postado em 06/07/2016 17:36

Qual tipo de educação os jovens daqui a 10 anos vão carecer para viver numa sociedade com tamanha diversidade? Segundo alunos e professores, é preciso encontrar um caminho para a pluralidade das pessoas, engajando os jovens no mundo das diferenças, preparando-os para serem cidadãos completos. No sábado, o Centro de Ensino Médio 1 do Paranoá recebe pais, estudantes, docentes e quem mais quiser enaltecer a multiplicidade de gênero, sexualidade, raça e religião. Lá, uma festa junina diferente terá lugar: o noivo foge com outro homem e todo tipo de amor é aceito. O Correio reuniu a comunidade escolar para debater essas questões.
No processo de formação dentro do colégio, a comunidade colocou como necessário haver respeito, lapidar conceitos, esclarecer informações e estabelecer o diálogo. Não há espaço para a intolerância, segundo os envolvidos. Para os mestres, o desafio é prezar pelo currículo escolar e, ao mesmo tempo, trazer adaptações aos conteúdos e atividades desenvolvidas, com a integração da comunidade escolar. ;Nossa intenção é mostrar as diferentes formas de ser e amar. Temos que dar representatividade a todas as pessoas dentro de uma escola. Isso passa por questionamentos. O que é normal? Qual o padrão?;, explica o professor de filosofia Vinícius Silva de Souza, 35 anos.
Vinícius idealizou o conceito da festa junina. ;Estamos colocando as pessoas numa festa tradicional, mas com igualdade e integração. Nenhum comportamento será excluído ou rebaixado;, argumenta. O discurso do professor encontra reflexo na comunidade escolar. Todos acreditam que o conservadorismo social têm afetado as salas de aula e chegado às famílias dos estudantes.
Em quase três horas de conversa na manhã de ontem, alunos, professores e pais refutaram comportamentos sociais condenáveis. A estudante do segundo ano Adriane Torquati, 16 anos, é negra, evangélica e defensora da liberdade pessoal. ;Eu percebo que as pessoas disfarçam o preconceito nas pequenas coisas. Não gosto ter a sensação que essas práticas se perpetuam;, pondera a menina, que garante um papel progressista da festa.
Resistência
Figuras de autoridade, como pais, líderes religiosos e educadores, exercem papel primordial na consolidação dos avanços, dizem os livros de pedagogia. ;Na minha casa, ainda existe a máxima de que homem não lava louça e isso é uma forma de acentuar o machismo;, critica Gustavo Rodrigues, 16, do segundo ano. No sábado, ele forma com um amigo de classe um casal da quadrilha. ;Houve questionamentos, mas é importante propagar os conhecimentos. Tem resistência, é difícil, mas é preciso. Se não por mim, pelo outro;, explica. O professor Vinícius completa: ;Isso é o essencial. As pessoas querem falar sem ter a predisposição de ouvir. A mudança vem com o diálogo;.
O formato da festa, inicialmente, causou embaraços na escola. A relutância cedeu lugar à diversidade. ;Reunimos os professores e debatemos. Analisamos também a repercussão entre os alunos. A festa é uma convergência dos assuntos trabalhados em sala de aula;, ressalta o vice-diretor do CEM 1 do Paranoá, Nanderson Syrlon Pereira.
A professora de sociologia Luciana Ribeiro defende que cada um deve ser um agente disseminador dos conceitos de aceitação e respeito. A comemoração junina, segundo a docente, vai desconstruir conceitos arraigados de preconceito. ;Um dia após o estupro coletivo, no Rio de Janeiro, perguntei a opinião dos alunos. Alguns deles culparam a vítima. Depois, esclarecemos pontos importantes da liberdade sexual de cada um. Ainda hoje é preciso reforçar que ;não; é ;não; numa relação;, detalha.
Flávia Ferreira de Jesus, 40 anos, já presenciou cenas de preconceito. Ela é mãe de Gabriel Ferreira, 16, também estudante do segundo ano, e acredita que o esclarecimento intelectual leva à conciliação social. ;Certa vez, um casal lésbico entrou num banheiro e uma outra mulher gritou: ;Essas duas nojentas;, e cuspiu. Essa agressividade é fruto da ignorância. Temos que preparar uma geração mais consciente;, reforça. Outra mãe, que pediu para não ser identificada, discorda. ;São questões íntimas de cada família. Não podemos abandonar os conceitos que alicerçam nossas casas;, disse a mulher, na porta do colégio.
Inclusão
LGBT ou LGBTTT é a sigla do movimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, que consistem em diferentes tipos de condições sexuais. A nomenclatura marca a luta pelos direitos desses grupos sociais, contra a discriminação, o preconceito e a homofobia. Até 2008, a sigla era GLS para gays, lésbicas e simpatizantes. Em junho daquele ano, a Conferência Nacional, realizada em Brasília, alterou a terminologia.
Pluralidade escolar questionada
O grupo reunido na escola não tem dúvidas de que as constantes interferências do Legislativo nas políticas públicas para educação dificultam o amadurecimento de um plano pedagógico que adeque os alunos à diversidade da sociedade. E que a labuta dos educadores muitas vezes é estrangulada por ações governamentais. ;A radicalização dos discursos, a polarização de grupos e o protagonismo de lideranças intolerantes que pregam ódio desarticulam o nosso trabalho;, critica a professora de sociologia Luciana Ribeiro.
Há discrepância entre o perfil dos jovens, do momento atual e do discurso tradicionalista que ganhou força nos últimos anos. ;Os adolescentes são acessíveis. Entretanto, estamos voltando a dilemas da década de 1980, como o papel da mulher na sociedade e a liberdade individual. São tabus que já foram explorados;, opina a professora de português Mary Jean.
Os estudantes refutam as podas e os questionamentos direcionados as escolas. Eles acreditam que a instituição não pode perder o papel provocador e mediador de debates. ;É um espaço que não pode fugir da discussão;, fundamenta o estudante Felipe Oliveira, 17. ;Temos sorte de ter professores que tratam dos assuntos abertamente. A função do professor é apresentar o desconhecido. A informação é importante;, conclui o aluno Adison de Oliveira Rocha, 16.