Matrículas no ensino privado do DF crescem pela primeira vez após crise

Mais confiantes de que o pior já passou e que a economia está em processo de retomada, muitos pais voltaram a matricular os filhos em escolas particulares

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postado em 18/02/2018 08:00 / atualizado em 17/02/2018 21:57

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A. Press
 
A queda da inflação e dos juros, o aumento da renda e a redução — mesmo que tímida — do desemprego têm melhorado a perspectiva de futuro dos brasileiros e estimulado a retomada de algumas escolhas, antes, preteridas pela recessão. Mais confiantes de que o pior já passou e que a economia está em processo de retomada, muitos pais voltaram a matricular os filhos em escolas particulares.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Distrito Federal (Sinepe), Álvaro Domingues Filho, um levantamento preliminar nas 180 unidades de ensino privado da capital mostra aumento médio de mais de 5% nas matrículas. “A gente observa que está existindo um crescimento, ainda não como antes da crise, mas comparando 2018 com o ano passado”, diz. Entre 2014 e 2017, lembra Domingues Filho, a crise provocou a migração de 43 mil alunos da rede privada para a pública, com uma perda de 25% das vagas conquistadas nos anos anteriores à recessão.

Cortar gastos com educação, um dos três itens básicos das despesas das famílias — com alimentação e saúde —, acontece sempre em épocas em que o orçamento encurta e a incerteza financeira bate à porta, diz o educador e terapeuta financeiro Jônatas Bueno. “As pessoas não sabiam o que ia acontecer. Sem comer não dá para ficar, também não tem como correr do tratamento à saúde. Portanto, as pessoas se sacrificam e cortam em educação sempre que a coisa aperta”, comenta.

Migração


O crescimento das matrículas nas instituições particulares verificado neste ano, contudo, ainda não inverteu o fluxo de alunos em direção às  escolas públicas deflagrado pela crise dos últimos anos. “A causa principal desse movimento foi a recessão econômica”, avalia o professor Fábio Sousa, subsecretário de Planejamento da Secretaria de Educação do DF. Segundo ele, 2017 ainda foi um ano de forte fluxo nesse sentido, já que, das 40 mil matrículas da rede pública, mais de 30% foram de alunos provenientes do sistema privado. “A crise, sem dúvida, tirou vagas da rede privada e essa migração persiste”, reforça o sociólogo Bruno Borges, que dá aulas na rede pública e em escola particular.

Descontos

Borges destaca que estabelecimentos que cobram mensalidades menores também se beneficiaram desse processo. “Tem escola em que a mensalidade é de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil, ou seja, mais alta do que em algumas faculdades conceituadas. Aquelas que cobram menos, sem dúvida, aumentaram matrículas de alunos cujos pais não abrem mão da rede particular”, comenta.

Algumas escolas deram descontos com o objetivo de segurar alunos, nem sempre, porém, com sucesso. “O diretor da escola da minha filha chegou a me ligar, tirando o reajuste e deixando a mensalidade no mesmo valor do ano passado”, diz Camila Ávila, 50 anos, mãe de Manuela, 10, que sairá de um colégio particular na Octogonal para cursar o 6º ano do nível fundamental numa escola pública no Plano Piloto. “O maior prejuízo será a distância, porque a escola na qual ela estudava fica a dois passos de nossa casa”, comenta Camila, que é professora na rede pública.

Num movimento em direção oposta, Maressa, 12, e Isadora, 5, acabaram de entrar para a escola de onde saiu Manuela, na Octogonal. “Me senti abraçada com mais carinho aqui”, diz a mais velha. Ambas foram tiradas da rede pública por Alexandre Ferreira, 46, servidor federal, que sentiu os efeitos dos bons indicadores econômicos no orçamento familiar. “Encaro as despesas de educação como investimento de longo prazo”, comenta, acrescentando que, por ter duas crianças na escola, a direção concedeu a ele “um desconto significativo”. Ferreira diz ter “replanejado” a planilha financeira familiar e que terá que sacrificar, no mínimo, duas viagens por ano para manter o orçamento equilibrado. “Muitos colegas de ministério relatam que as condições financeiras estão melhorando para eles também”, completa.

Inadimplência


Para Álvaro Domingues Filho, do Sinepe, o aperto na renda familiar continua obrigando muitos pais a transferirem os filhos da escola particular para a pública. “Não há como negar que esse tipo de fluxo acontece ao sabor da economia. Agora, porém, os ventos estão começando a soprar a favor das instituições privadas”, comenta. 

À exceção da Asa Sul, onde alguns estabelecimentos ainda registram taxas negativas, o Sinepe acusa alta em torno de 8% em matrículas na Asa Norte, cerca de 3% em Taguatinga, entre 5% e 6% nas unidades de Samambaia, 4% na Ceilândia, 3% em Sobradinho e a taxa mais elevada no Guará: 8,2%. “A amostragem é parcial, porque há escolas em que as aulas ainda não recomeçaram”, ressalva Domingues.

Outro sinal de melhora dos orçamentos familiares vem do fato de que o número de mensalidades em atraso nas escolas particulares, que, no auge da crise, subiu a quase 7%, começou a cair no ano passado. “O nível de inadimplência saiu da média de 3% a 5% para 6,7% em 2015 e 2016”, explica Domingues. “Em 2017, diminuiu bem, e ainda estamos em período de negociação” das mensalidades atrasadas, continuou.

Madalena Antunes, diretora de uma unidade particular no Recanto das Emas, afirma que registrou um aumento de 185% nas matrículas, resultado de um trabalho de “identificação das deficiências da comunidade” e da propaganda “boca a boca”. 

Joaquim Waldeilton Campos, 41, está entre os pais que acabam de conhecer a escola. O vigilante tirou o caçula Paulo Vítor, 8, da escola pública e o levou para a de Madalena, “para ver se ele tem um melhor desenvolvimento”. Ele conta que a antiga professora do filho “não mostrava empenho” e dizia que o garoto tinha deficit de atenção, o que o desagradou. “Aqui, em pouco tempo, ele já mostrou maior interesse”, afirma Joaquim, explicando que o irmão mais velho de Paulo Vítor é quem paga a mensalidade.

Dirigentes de estabelecimentos particulares de ensino concordam que o ano passado foi o mais difícil. “Foi quando sentimos que a escola pesou mais no bolso dos pais”, diz Ivan Cesário Araújo,diretor de uma escola em Taguatinga que oferece vagas do maternal até a nova série do nível fundamental. Ele conta que a escola perdeu mais de 8% das vagas contratadas. “Cortamos em outras áreas, demitimos professores e fechamos o nível médio”, ressalta.  “Agora, os pais já estão rematriculando os filhos. Estamos recuperando, não tudo, mas algo em torno da metade do que perdemos”, afirma.

Cotas


Segundo Fábio Sousa,da Secretaria de Educação do DF, a maioria dos casos de transferência de estudantes da escola particular para a púbica ocorre no ensino médio. Além do aumento das mensalidades, ele cita como segundo motivo as cotas sociais. Desde 2012, a Lei 12.711 determina que instituições federais de ensino superior destinem 50% das vagas para estudantes que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas. Metade dessa cota é para alunos carentes, com renda familiar mensal de até 1,5 salário mínimo (R$ 1,4 mil), mas a outra metade alcança estudantes de famílias com rendimentos maiores. 

“Muitos pais transferem os filhos para a escola pública para que eles se beneficiem dessa cota na Universidade de Brasília (UnB)”, diz o professor Bruno  Borges. “E, como uma espécie de compensação, dão um reforço, pagam cursinho à tarde. Usam a cota, mas gastam dinheiro com um estudo extra.” Além da UnB, também a Fundação de Estudo e Pesquisa em Ciências da Saúde (Fepecs) e o Instituto Federal de Brasília trabalham com cotas sociais.

Porta-voz  do Sindicato dos Professores do DF (Sinpro), Cláudio Antunes diz que “se criou um falso conceito de que a educação no sistema privado é melhor”, o que, segundo ele, “é um grande equívoco, principalmente em Brasília”. Pedagogo, especializado em administração, o sindicalista defende um sistema educacional exclusivamente sustentado pelo Estado. “Se toda a população brasiliense mandasse os filhos para a rede pública, fortaleceria um sistema de qualidade e a cobrança seria maior”, argumenta.

Apesar de igualar a qualidade das duas redes de ensino, Antunes enumera uma série de problemas do sistema público, como a falta de espaço físico nas unidades das satélites. “As salas já são cheias, sobem para até 30 alunos e a classe lota”, diz. Além da superlotação, “que repercute, diretamente, na qualidade” das aulas, ele afirma que há deficit de cerca de 3 mil professores na rede pública. Somente ano passado, 1.421 profissionais se aposentaram.

Gangorra prejudicial

O brasileiro está mais confiante na situação econômica, mas precisa evitar decisões precipitadas, alerta o educador financeiro Jônatas Bueno, do Dsop. A educação é um dos itens das despesas básicas que é cortado assim que se instala a crise financeira. O aluno é transferido para a rede pública, mas quando sentem a situação melhorar, os pais voltam a matriculá-lo na escola privada. Se o orçamento familiar piorar de novo, o estudante volta para a rede pública. “Essa gangorra é muito ruim, principalmente para o aluno”, comenta Bueno. A educação é um investimento para a vida toda. Por isso, os pais devem pesquisar bem. O Distrito Federal tem ótimas escolas públicas”, afirma.