BNCC em pauta: os desafios após a aprovação

Evento em São Paulo reuniu especialistas, formadores, educadores e jornalistas para discutir os impactos após homologação da base

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postado em 15/03/2018 18:10 / atualizado em 15/03/2018 18:53

Aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em dezembro de 2017, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) deve ser implementada nas escolas de educação básica e ensino fundamental de todo o país em até três anos. No entanto, isso não significa que o debate em torno do texto que serve de parâmetro para os currículos estaduais, tenha terminado. 
 
A Mind Lab, empresa que atua na formação de profissionais da educação e propostas de ensino em sala de aula, sediou, na última quarta-feira (14) em São Paulo, o workshop “O novo jogo da BNCC e a prática nas escolas”, evento que discutiu o impacto da base no processo pedagógico da educação brasileira. A formação de professores que se adaptem às mudanças e o caráter normativo que a BNCC traz em substituição aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) estiveram entre os temas abordados.
 
Felipe de Oliveira Moura/Esp. CB

 
Elaborada em dois anos e meio, a BNCC foi muito debatida pela sociedade e por autoridades em educação. A primeira versão do texto recebeu mais de 12 milhões de propostas de emendas, formuladas por 310 mil pessoas. A segunda foi submetida a debates públicos, que contaram com a participação de 9 mil professores, gestores e técnicos de secretarias.
 
“A base versa sobre os direitos que, até então, não eram estabelecidos. O documento é o conjunto de referências que elenca os direitos e objetivos de aprendizado para as diferentes etapas do ensino básico”, afirmou César Callegari, presidente da Comissão de Elaboração da BNCC. 

Destacando a importância da base como “carta náutica” de orientação para os gestores e demais responsáveis pela elaboração dos currículos escolares, César critica aqueles que enxergam no documento de 460 páginas, um material autoritário e único para todo o país. “A base não pode ser objeto de obediência, nem um currículo único e mínimo. É uma visão desumana e nada democrática, que não favorece o desenvolvimento do ser humano”, complementou. 
 
Se os alunos ganham em direitos de aprendizagem, os professores têm pela frente um grande desafio: adaptar-se aos novos conceitos propostos na base, cujo ponto principal são as dez competências gerais da BNCC, que tratam dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento no âmbito pedagógico. 
 
Para Miguel Thompson, CEO do Instituto Singularidades e ex-consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o grande desafio dos docentes é mudar a lógica focada apenas na exposição e na memorização para um processo mais prático. “Ele está mais acostumado com conceito, fatos e definições. Fazer essa mudança mental para trabalhar problemas e resolução deles via competência e habilidades vai ser o grande desafio”, afirmou. 
 
Saber ensinar os alunos a utilizar as tecnologias da informação e comunicação com criticidade é uma das tarefas para os mais de 2 milhões de professores que atuam na educação básica brasileira. Ainda visto como vilão por muitos docentes, o smartphone pode e deve se tornar aliado dos educadores, entende Miguel. “Se você não tem uma aula interessante ou uma ferramenta experimental, rapidamente o aluno vai se dispersar. Um dos desafios é construir metodologias adequadas ao uso do smartphone, ter avaliações on-line on time no meio da aula, para que o aluno seja impelido a usar isso no processo educativo”. 
 
Formar professores capacitados para trabalhar com a nova base é fundamental, segundo César Callegari. “A partir de agora o CNE vai trabalhar a redefinição das diretrizes curriculares das licenciaturas.  Todo o programa de formação dos professores brasileiros em nível superior terá que ser reformulado a partir de diretrizes que o conselho vai estabelecer”, afirmou. 
 
Diretora pedagógica da Mind Lab, Sandra Garcia acredita que os gestores são figura fundamental no processo de implementação da base, cuja formação deve ser valorizada. “Temos algumas experiências de muito sucesso trabalhando o lúdico e a metodologia no campo da gestão”, afirma Sandra. A empresa atua com 5 mil profissionais da educação em todo o Brasil. Para a diretora, o desenvolvimento de habilidades emocionais  e sociais dos gestores é muito importante pela tarefa árdua que eles têm de implementar a base dentro do projeto pedagógico da escola. 

Desafios imediatos após a aprovação da base

Entre as mudanças estabelecidas pela base está a alfabetização até o fim do segundo ano do ensino fundamental. Os alunos devem lidar bem com a oralidade e a escrita uma etapa antes do que acontece atualmente. Dados da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA) em 2014 revelavam que menos de 20% das crianças até o 4º ano estavam alfabetizadas. 
 
Em Sergipe, por exemplo, apenas 20% das crianças até os oito anos de idade fazem parte desse grupo. César faz duras críticas a essa situação. "Isso não é casual, é proposital. Nós podemos ter problemas de todas as ordens, mas dizer que não sabemos alfabetizar uma criança? Sabemos, podemos e não o fazemos de propósito”. 
 
Um dos caminhos para que os docentes tenham melhores resultados é uma aproximação com o universo dos alunos, um professor que faça uma imersão no mundo infantil. “Os formadores devem usar linguagens adequadas que têm sido usadas por essa cultura infanto-juvenil. Os youtubers conseguiram isso. Os formadores têm que olhar para esse mundo da cultura pop, digital, e utilizar esses conhecimentos para atingir o professorado”, indicou. 
 
Envolver o máximo de atores possível é fundamental para tornar a base aplicável, de acordo com Sandra. “Devemos considerar a base como um movimento que tem diretrizes, uma bússola orientadora, mas que é executada por sujeitos e, nesses, a gente inclui todos:estudantes, famílias, gestores. A diretora pedagógica diz que a proposta da empresa é trabalhar as habilidades socioemocionais, que funcionarão como pano de fundo para desenvolver as competências. “Nossa metodologia trabalha com toda a questão emocional que impera nas relações sociais, e, portanto, pressupõe uma conduta ética, um movimento ético”, complementa. 
BNCC e a questão financeira

A implementação de um documento que sirva como orientação para as secretarias de educação estaduais levanta uma questão importante: a BNCC é viável financeiramente? Boa parte das escolas da região Norte, por exemplo, sequer tem esgoto e saneamento básico, de acordo com o Censo Escolar de 2017. 
 
Para César Callegari, que também é presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada (IBSA), o Brasil precisa investir mais em educação. Ele cita que o investimento em alunos por ano no país é menor até do que nos vizinhos sul-americanos. “Preciso nem comparar com o que acontece nos Estados Unidos, Japão, em que os investimentos são cinco, seis vezes mais do que se investe em um aluno brasileiro”, alerta. “
 
“Há outras condições como equipar escolas, melhorar os salários dos professores, a carreira dos educadores, criar ambientes  e proporcionar às escolas materiais, instrumentos, métodos, técnicas e recursos”, acrescenta. O sociólogo afirmou que o CNE retomou a discussão sobre o Custo Aluno Qualidade inicial (CAQi), que traduz em valores o quanto o Brasil precisa investir por aluno ao ano, em cada etapa e modalidade da educação básica pública, para garantir, ao menos, um padrão mínimo de qualidade do ensino. “Isso é importante porque, junto a isso, nós vamos começar a especificar quais são todas as condições e os insumos que a gente tem que ter para realizar um bom programa educacional”, afirmou. 

BNCC do ensino médio 

Um dos pontos polêmicos à época da aprovação da BNCC, a retirada do ensino médio do texto para ser discutido à parte promete um debate acalorado. Na última segunda-feira (12), o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) se reuniu no Ceará para tratar da redação do texto da base do ensino médio, que deve ser entregue pelo Ministério da Educação (MEC) ao CNE ainda em março. 
 
Citando os baixíssimos índices de proficiência em português (26%) e matemática (7%) pelos concluintes da etapa, César disse que a reforma é inviável neste momento sem um documento de orientação como a BNCC. O sociólogo contesta a possibilidade de cursar a etapa inteiramente fora da escola. “A proposta de reforma sinaliza que até 100% do ensino médio pode ser dada a distância. É um equívoco grave. Com isso você destrói a escola como território dos afetos, das relações sociais reais e fragiliza  a formação do próprio jovem brasileiro”, lamenta. 

Mind Lab e a contribuição para a educação
 
Mind Lab/Divulgação

 
Originalmente de Israel e espalhada em várias partes do mundo, como Inglaterra, Turquia e Itália, a MindLab já formou mais de 15 mil professores mediadores e cerca de 4 milhões de estudantes. Presente no Brasil desde 2007, a empresa em parceria com prefeituras e estados, atinge 400 mil alunos, cerca de 70% deles do ensino público.
 
O Programa MenteInovadora, proposta curricular para ser aplicada nas escolas, utiliza jogos de raciocínio para simular situações cotidianas da vida, métodos metacognitivos para promover a reflexão sobre atitudes e decisões tomadas durante o jogo e professores mediadores que, por meio de intervenções planejadas e questionamentos, estimulam as reflexões dos alunos, ajudando-os no processo de aplicar o que aprenderam em sala de aula para a vida. 
 
O programa está em cidades como Natal (16 escolas, 4.500 alunos e 150 professores) e outras do Rio Grande do Norte, em que a parceria com o governo do estado chegou a 22 escolas (6.900 estudantes e 170 professores). A prefeitura municipal de Recife, de Maceió e o governo do estado da Paraíba também fazem parte dos parceiros da companhia, totalizando 289 instituições, 46.600 alunos e 1710 professores mediadores. 
 
Sandra Garcia, diretora pedagógica cita que a preocupação recente tem sido trabalhar a empatia dos jovens que não podem frequentar uma escola regular. “Nos importamos também com aqueles que estão aprisionados por altos índices de violência, de assassinato, de suicídio e depressão, coisas que vem permeando a nossa sociedade”, enfatizou. 
 
Estagiário sob a supervisão de Ana Sá 
 
* Viajou a convite da Mind Lab