DF ganha a primeira unidade da Comunidade de Aprendizagem do Paranoá (CAP)

A iniciativa, que conta com a colaboração do educador português José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, começou a funcionar nesta quarta-feira

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postado em 02/05/2018 15:14 / atualizado em 03/05/2018 11:33

A proposta é ensinar fora dos limites da sala de aula com carteiras enfileiradas e dos muros de um prédio destinado à aprendizagem. “Escolas são pessoas, o edifício é apenas o lugar de encontro”, é o que acredita a equipe de professores da Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF) que dá forma ao sonho de uma educação significativa e individualizada: a Comunidade de Aprendizagem do Paranoá (CAP), escola que começou a funcionar nesta quarta-feira (2) no Paranoá. A nova unidade atenderá 560 alunos, da educação infantil ao 3º ano do ensino fundamental, divididos em dois turnos. Até a inauguração da CAP, os estudantes tinham aulas no Centro de Ensino Fundamental 8 do Cruzeiro.

 

 Tiago Oliveira
 

 

Nessa escola, as crianças não são separadas por turmas de acordo com a idade, alunos mais novos e mais velhos vão conviver e aprender juntos. O prédio não tem salas separadas por paredes, mas ambientes de aprendizagem. Quem escolhe o que vai ser ensinado não são os professores, são as próprias crianças, por meio de projetos com assuntos de interesse delas. O professor deixa de ser o detentor do conhecimento e passa a ser um mediador que, por meio de projetos, oficinas e roteiros de estudos, acompanha o processo de aprendizagem dos estudantes e percebe as individualidades de cada um.

Em vez de provas, os alunos vão vivenciar diariamente uma avaliação processual, contínua e individual, materializada por meio de vídeos, fotos e evidências pedagógicas, que compõe o relatório do aluno. O conhecimento cultivado na escola será compartilhado com a comunidade e pode ser usado a seu favor, a partir do conceito de bairro-escola.

Tudo foi idealizado por um coletivo de educadoras que trabalha nesse projeto há três anos, unidas pelo programa de extensão da Faculdade de Educação da UnB chamado Fórum Autonomia. De seis, o número de adeptos pulou para 26 professores motivados em exercitar práticas inovadoras de educação. A equipe conta com a colaboração do educador português José Pacheco, criador da Escola da Ponte, experiência educacional de sucesso em Portugal há 40 anos. Os projetos pedagógico e arquitetônico chegaram à Regional de Ensino do Paranoá, depois na Secretaria de Educação do DF e foram acolhidas até ganharem forma nas obras que acabam no fim em abril.

 

Um currículo de aprendizagem significativa

 

 

Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press

 

Professora há 14 anos, quem está à frente do projeto na função de diretora é Renata Resende, 39 anos. Há quatro anos trabalhando em escolas da rede pública, ela conta que viveu momentos de inquietação diante da dinâmica de uma sala de aula tradicional. A educadora lembra do dia em que levou estudantes, na faixa etária de 10 anos, a um parque próximo á escola. Ao observarem o abandono do local, os alunos propuseram revitalizar algumas áreas que poderiam ser ambientes para aprender. “Um dos lugares que eles queriam arrumar era a quadra. Aí perceberam que, para cimentar e pintar, teriam que descobrir a área daquele retângulo, que é um conteúdo de matemática do 6º ano”.

Desta maneira, a diretora explica que a ideia de bagunça que pode acompanhar uma proposta que dá tanta autonomia a crianças não é real. “As crianças vão trabalhar com projetos baseados nos interesses delas e isso pode dar margem para as pessoas entenderem que se o aluno não tiver interesse por determinado tema, não vai aprender sobre ele. E não é isso. Não abriremos mão do currículo, apenas vamos nos relacionar com ele de outra forma”, explica Renata.

O currículo adotado pela escola é tridimensional de acordo com a educadora. É objetivo e cumprirá os conteúdos obrigatórios determinados pela SEEDF; subjetivo, pois oferece liberdade para a apropriação que cada estudante faz dos conhecimentos, a partir da forma que se relaciona com o mundo; e de caráter comunitário, já que esses projetos dialogam com a própria comunidade e promovem possíveis soluções para os problemas nela inseridos.

As professoras envolvidas no projeto admitem que o novo assusta, mas garantem que o projeto está dentro da lei. “Inclusive, a proposta vai muito mais de encontro com a legislação, desde o que determina a Constituição Federal até a Lei de Diretrizes Básicas da Educação Nacional”, defende a professora Paula Lobo, 26 anos. Ela garante que a CAP oferecerá o currículo básico e o que mais os estudantes estiverem interessados em descobrir: “Com esse currículo, ampliamos a possibilidade de aprendizagem. Às vezes, as crianças querem também aprender o que não está no currículo e a gente deve passar por cima disso? Por que a aprendizagem que não está no currículo objetivo não é significativa ou tão importante para a criança? Podando, você mata a vontade de aprender do aluno”.

“A CAP não vem para negar a escola tradicional, mas ser uma opção de um modo de fazer diferente. Queremos transformar os anos que passamos na escola em algo significativo, valorizar as relações com as pessoas, que todos os dias sejam interessantes, importantes e de amorosidade”, conta Paula.

De acordo com Renata Resende, a aprendizagem significativa pode ser a solução para a evasão escolar, que no Distrito Federal atinge o percentual de 3,16% para a faixa de 6º a 9º ano e 7,22%, no ensino médio. “Se o aluno vê sentido naquilo que aprende, não vai sair da escola”, acredita Renata. Outro índice que reflete a dificuldade de alguns estudantes são os níveis de reprovação: o Censo Escolar de 2016 revela que, no ensino fundamental, 11,44% dos estudantes foram reprovados, enquanto no ensino médio a taxa é de 15,78%.

 

O secretário de Educação Júlio Gregório ressalta que o modelo de educação atual é perverso com os estudantes, principalmente em regiões de baixa renda. “Entendo que é fundamental ter alternativas como essa para todo o sistema educacional brasileiro, não só para o Distrito Federal. Nesse momento, estamos discutimos a BNCC, mas não adianta aprovarmos o documento se não dermos chances para uma nova metodologia que chegue até as crianças e suas famílias. Temos poucas alterações e continuamos reproduzindo os mesmos resultados”, enfatiza o secretário.

Júlio Gregório que, como professor de química, conhece bem as salas de aula, afirma que o papel do professor hoje é outro, principalmente diante das novas tecnologias. “Até quando vamos brigar para aluno não levar o celular para sala de aula?”, questiona. “Precisamos pensar em formas para incorporar essas tecnologias em sala e, para dar certo, o estudante tem que ter iniciativa, criatividade e proatividade”.

Diante da inauguração da Comunidade de Aprendizagem, o secretário conta que o momento é de observação e de adaptação, se for necessário. De acordo com ele, a contribuição do projeto para a educação já é significativa e com sucesso, projetos como esse poderão ser uma opção para outros estudantes no futuro. “O processo educacional não produz frutos imediatos, mas até o fim do ano teremos evidências claras sobre o envolvimento de crianças e famílias com a escola”, acredita.

 

Ambientes de aprendizagem

 

 Tiago Oliveira
 

 

A diferença da Comunidade de Aprendizagem começa na estrutura: todo lugar pode ser um ambiente para compartilhar conhecimento, inclusive, nos espaços da cidade em que está inserida, de acordo com a proposta. Dentro da escola, o projeto arquitetônico rompe com as ideias de escola já conhecida e reaproveitou um espaço já existente para dar lugar à CAP.

Cláudia Passos, 55, responsável pela reestruturação do lugar, se define como “arquiteta por formação, educadora por paixão e ambientalista por convicção”. Ela afirma que a divisão de estudantes por sala é um modelo fabril e que não se encaixa na proposta da Comunidade. “Todo o território tem saberes que devem se relacionar. Aqui, é o lugar de encontro entre crianças, comunidade e professores para construir conhecimento. O parque, a cachoeira e a barraquinha do seu Zé também são ótimos lugares para aprendizagem. Os espaços tem que ser apropriados”, argumenta.

“Não faz sentido separar as crianças por turma e idade. Não vivemos assim em sociedade. Por que na escola seria diferente? O objetivo é focar a educação no indivíduo inserido em processos coletivos”, completa a educadora Paula Lôbo.

 Para o projeto, foram adequados iluminação, acústica, segurança e acessibilidade. Com exceção da sala de música e do refeitório, todos os espaços são livres. Cláudia conta que o reaproveitamento do espaço é importante ecologicamente para evitar resíduos e dar vida a ambientes ociosos.

Inicialmente, os estudantes serão divididos em grupos com um professor de referência, chamado de tutor. De acordo com a diretora da escola, a autonomia vai sendo dada gradativamente aos alunos, até chegar ao modelo final. Na proposta, os educadores podem ensinar todas as crianças em momentos diferentes e o processo de aprendizagem é contínuo e não anual. Por esse motivo, a ideia é que as crianças já matriculadas não saiam da escola até concluírem o ensino fundamental — os próximos anos abrem turmas de 4º e 5º anos. “A ideia é que a escola seja a própria comunidade, por isso, temos muito espaço. E quem sabe não construímos outras escolas por aqui? Queremos também inspirar a rede ”, diz Renata Resende.

 

A escola é a própria comunidade

 

Vladmir Luz
 

 

Mais que um espaço para os estudantes aprenderem, a comunidade do Paranoá receberá os benefícios promovidos pela CAP. Em uma vida de mão dupla, a ideia do projeto é converter os aprendizados da escola em soluções para a comunidade. A participação das famílias na CAP pode ser feita pelas vias tradicionais, previstas na Lei de Gestão Democrática, que rege o funcionamento das escolas, como conselho escolar e formação de comissões ou de outras maneiras. “Em projeto de construção de carrinho de rolimã, por exemplo, se o aluno tem um pai que trabalha com marcenaria, ele pode nos ajudar”, exemplifica Renata.

A educadora também explica como a comunidade poderia ser beneficiada: “em uma cidade muito carente de eventos de cultura e lazer, como o Paranoá, podemos também abrir a escola nos fins de semana com atrações”. Ela conta que as demandas da comunidade serão mapeadas para construir um currículo que as agregue.

Outra esfera da educação que está envolvida com a Comunidade de Aprendizagem é a universidade. Entre as ações de projetos de extensão promovidos pela Universidade de Brasília (UnB) está a iniciativa de apresentar a CAP a universitários. Para o professor da UnB Murilo de Camargo, 59, que atua na área de políticas públicas da educação superior no Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM), trata-se de “uma troca de saberes e de aprendizagens”, principalmente para a formação de futuros professores. “Além da universidade levar conhecimento para a CAP, aproveitamos para participar, entender e estudar, como pesquisas acadêmicas sobre essa alternativa à educação tradicional”, explica.

Isaac Roitman, 79, também é professor da UnB, emérito, além de coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro da instituição, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e membro do Movimento 2022 O Brasil que queremos, instituição que discute caminhos para melhorias no país, é outro apoiador da CAP como uma opção para a educação. “A base dessa educação é o protagonismo em solucionar problemas da comunidade. Se o aluno é acostumado a esse tipo de aprendizagem, ele vai aprender a vida toda. Assim, se constrói convivência mais humana com outras pessoas e com a natureza”, acredita.
 

Comunidade de Aprendizagem ≠ Escola da Ponte

 

Vladmir Luz
 

 

Educador há 50 anos, José Pacheco, 67, é famoso mundialmente pela criação da Escola da Ponte. Há 42 anos, ele fundou a instituição em Portugal e é reconhecido até hoje pelos frutos gerados pela iniciativa. Com a experiência adquirida nos anos de trabalho, Pacheco é um dos colaboradores do projeto da Comunidade de Aprendizagem e afirma que a proposta é diferente de tudo que já foi feito, mas com muita responsabilidade pelas bases teóricas bem fundamentadas que tem. Por isso, sem riscos.

“Escola da Ponte é um fóssil”, ele brinca ao dizer que as escolas têm que se reinventar. “Aproveitamos tudo que vem do modelo de instrução. A gente não joga fora nada! Inclusive a Escola da Ponte”, explica. Os pensadores que embasam a proposta citados por Pacheco incluem Paulo Freire, Lauro de Oliveira Lima, Florestan Fernandes, Milton Santos e Agostinho da Silva.

 

 Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press
 

 

Com participação em mais de 200 projetos em escolas de vários países, com excelência acadêmica e inclusão social, ele afirma que as raízes teóricas da educação brasileira tornam o país propício para uma educação de excelência. O português garante: “Criança não é cobaia. O que posso dizer é que não há risco nenhum nessa proposta, não é uma aventura”.

“Muitas pessoas pensam na moda pedagógica e não é assim. Quando perguntam: ‘mas as crianças vão ter que saber a tabuada de cor?’ Com certeza, mas depois de saber como se constrói uma tábua de Pitágoras, como surge o 2x2”, exemplifica.

Com o apoio do educador, a professora Dianne Prestes da CAP, 30, conta que uma crítica feita à CAP é que trata-se de uma proposta pronta a partir da Escola da Ponte. Ela esclarece que não é verdade e que o trabalho dos educadores da Secretaria de Educação tem anos de dedicação. “Desde o ano passado, fomos conhecer o Paranoá Parque e nos dispomos a ouvir a comunidade: misturamos nossos sonhos, os sonhos e as demandas deles. Não jogamos a Escola da Ponte aqui”, explica. “De qualquer forma, trabalhamos com a crítica construtiva. Isso faz parte do processo de transformação: se não está bom, vamos pensar em alternativas para isso”, sugere.

 

*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá