Em apenas duas semanas, nove professores são agredidos em Porto Alegre

Caso mais recente ocorreu nesta quarta-feira (7). No ato, cinco docentes sofreram agressão, que incluiriam injúrias raciais. A mãe de uma estudante também atropelou, na tarde desta quinta (8), um policial

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postado em 08/11/2018 21:32 / atualizado em 08/11/2018 23:01

Nos últimos 15 dias, houve registro de agressões físicas e verbais em cinco escolas da cidade de Porto Alegre (RS). Dentre as quais, quatro são da rede municipal e uma da estadual. Ao todo, nove docentes foram desrespeitados. O caso mais recente ocorreu na quarta-feira (7) e teve desdobramentos na tarde de quinta-feira (8), quando a mãe de uma aluna também agrediu um policial.
 
 
Reprodução
 

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint Hilaire, localizada em Lomba do Pinheiro, na região leste de Porto Alegre, cinco professores passaram por agressões físicas e verbais cometidas pela mãe de uma aluna da instituição. O motivo do embate seria a proibição da aluna de ir a um passeio marcado pela escola com toda a turma na quarta-feira (7).

Segundo o diretor, Angelo Alexandre Barbosa, os estudantes tinham a saída marcada para irem a um teatro. Para confirmar o passeio, cada aluno precisava apresentar uma autorização dos pais. “Antes da saída, temos que locar um ônibus. Por isso, pedimos a liberação aos responsáveis com antecedência”, explica. O problema estaria no fato de que 10 alunos entregaram a autorização somente no dia do passeio. “Então, não havia transporte para todos. Aí, enviamos os alunos sem autorização para a sala de aula”, explica o diretor.

“Você será mais um nas estatísticas de negros mortos”


Após a notícia de que não iriam ao passeio, uma estudante, insatisfeita com a situação, ligou para a mãe chorando e disse que não poderia ir. A mãe da menina foi ao colégio e começou a série de agressões. “Ela chegou gritando e bastante alterada. Não quis conversar e já foi atirando a bolsa na gente”, conta a supervisora Amanda Eccel Dornelles, que também foi agredida no braço.

Os ataques não pararam por aí. A mãe ainda agrediu outros quatro docentes. “Ela arremessou o celular de uma professora e também atirou uma cadeira contra outra”, relata a supervisora. No ato, também teria havido discriminação e ameaça de morte, segundo os presentes. “Ela disse para um professor negro e homossexual: ‘Você será mais um nas estatísticas de negro morto e homossexual’”, diz Amanda. A mulher só foi detida uma hora e meia depois da entrada na instituição, quando a polícia apareceu. Foi levada e depois liberada.  


Mãe atropelou o policial no dia seguinte

 
Na tarde desta quinta-feira (8), um policial da Brigada Militar foi atropelado por esta mesma mãe. O oficial estava em frente à instituição, quando a mulher chegou ameaçando ex-alunos que estavam sentados na porta da instituição. O policial tentou intervir, indo em direção ao carro. A mulher, então, partiu com o carro, arrastando o policial por alguns metros. O momento foi registrado em vídeo, que demonstra claramente o incidente. Devido ao ocorrido, a escola suspendeu as aulas desta quinta (8). Pela agressão ao policial, nesta sexta-feira (9), não haverá aulas novamente.

Comunidade protesta


Os professores da instituição estão muito abalados. “Não conseguimos entender o que ocorreu. Os docentes estão acuados”, diz o diretor Angelo. “Atritos sempre existem, mas conseguimos resolver facilmente, terminando até com um abraço. Mas, ontem, foi muito triste”, conta a supervisora. Para a ela, os professores estão sofrendo com um discurso de ódio que se instalou no país. “Temos que acabar com essa ideia de que o professor é inimigo e doutrinador”, comenta. “Temos que disseminar a cultura de paz, de amor”, diz Amanda Eccel Dornelles, tentando segurar o choro.

A comunidade se sensibilizou com o ocorrido e organizou uma manifestação de apoio, que foi bem recebida. “É importante ter esse incentivo e saber que ela está conosco”, diz o diretor. “O que nos fortalece é esse amor dela”, completa a supervisora. Os professores estão recebendo apoio psicológico da secretaria. As pessoas que agrediram os professores foram indiciadas e uma presa por atropelar um policial.

Outros casos


Este não é o primeiro caso de agressão de professores em Porto Alegre. Em 14 dias, foram nove docentes atacados por pais de alunos. Os outros professores são das escolas Escola Municipal de Educação Infantil Vila Elizabeth, Escola Estadual de Ensino Fundamental Vera Cruz, Escola Municipal Grande Oriente do Rio Grande do Sul e Escola Municipal Afonso Guerreiro Lima. As escolas não quiseram comentar o ocorrido.

Representantes dos professores comentam


O Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa) argumenta que o que pesa é a falta de segurança nas escolas. “Antigamente, tínhamos guardas municipais nas escolas e agora não”, diz a diretora geral,Luciane Pereira da Silva. Para ela, existe um desmonte contra a educação em curso. “Os salários e 13° dos professores estão sendo parcelados. O tempo de alunos nas escolas em projetos foram diminuídos. É um descaso”, diz. A prefeitura contratou funcionários de portaria terceirizados. “Mas não é suficiente”, adverte Luciane.

O Simpa percebe os danos causados pelas agressões. “Todas as escolas que tiveram agressão tiveram que parar de dar aula e isso é prejudicial para a população, crianças e educação”, diz a diretora.

Segundo o secretário da Secretaria Municipal de Educação (Smed), Adriano Naves de Brito, colocar policiais nas escolas não resolveria os casos ocorridos. “O ambiente escolar tem que ser aberto à comunidade. Penso que a escola tem que se impor. E que a guarda não resolveria problemas de indisciplina”, acrescenta. A Smed ainda não entendeu o que ocorreu. “Mas uma coisa temos certeza, os casos não estão relacionados. O se sucedeu foi uma infeliz coincidência”, lamenta.

Solidariedade


A Smed também se mostrou solidária e representantes da entidade tiveram uma reunião na Escola Saint Hilaire. O secretária da secretaria comentou o caso. “Estamos muito tristes com os ataques em quatro de nossas escolas e, ainda mais, sabendo que foi protagonizado por familiares de estudantes”, diz Adriano Naves de Brito.

Segundo o secretário, medidas de combates à violência estão sendo reforçados. “Além de vigilância nas escolas, também temos projetos de reeducação emocional. Uma das iniciativas é com a Cruz Vermelha e com a guarda municipal, esta última faz um trabalho de prevenção”, relata.

A Polícia responsável pelos casos não se manifestaram até o fechamento da matéria.  



*Estagiária sob supervisão de Ana Sá