Fundação premia jovem autora e escritor indígena

Fundação Bunge premiou os dois escritores na categoria de letras com o tema Literatura Infantojuvenil

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postado em 19/11/2018 17:11

Os autores Daniel Mundukuru, indígena da tribo Mundukuru do Pará e Nina Krivochen, estudante de 14 anos, foram condecorados, na última terça-feira (13), pela Fundação Bunge, em São Paulo, pelas suas obras na categoria Literatura Infantojuvenil. A Fundação Bunge trabalha em missões como o incentivo à leitura, desenvolvimento sustentável por meio de ações que valorizem o avanço da ciência, a educação e a conservação dos recursos naturais.

 

Bunge Reprodução
 

 

Entre Daniel e Nina, há uma diferença de 40 anos de idade, mas o objetivo é comum aos dois escritores: escrever obras infantojuvenis que reflitam o mundo em que estão inseridos e convidem os jovens leitores a vivenciá-los junto. O indígena, com narrativas que mantenham viva as histórias de seu povo. A menina, pensando o mundo a partir de seu ponto de vista que busca, desde cedo, autonomia e protagonismo. Conheça agora as histórias de Nina e Daniel e como eles começaram a trajetória no universo literário.

A menina que escreve livros

Na literatura, não é muito comum encontrar autores tão jovens colocando suas obras no mundo. A brasileira Nina Krivochen, contudo, não tem tempo a perder: aos 14 anos, já tem três livros infantojuvenis publicados, sendo um deles adotado como didático em escolas de ensino fundamental.

 

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Nascida em Luziânia (GO) e criada no Rio de Janeiro, a jovem sempre teve problemas nas escolas por onde passou. Seus pais acreditavam que a causa era a garota, mas notaram, com o tempo, que as reclamações davam-se pela jovem ser naturalmente questionadora. Sedenta por conhecimento, Nina não se dava por satisfeita e provocava conflitos internos nas instituições. “Nina sempre questionou demais. Depois de um tempo, percebemos que o problema não era ela. Como no Brasil o ensino domiciliar não é legalizado, resolvemos nos mudar”, conta Joana Krivochen, mãe de Nina.

 

Decididos a dar uma chance nova para o aprendizado da filha, a família mudou-se para Portugal em 2016, onde o ensino domiciliar é permitido. Os pais tinham esperanças de melhorar a educação de Nina e, quem sabe, conseguir uma vaga na Escola da Básica da Ponte, instituição de ensino que se notabilizou pela autonomia dos alunos no ensino e no incentivo às pequisas. Para alegria da família, Nina conseguiu a vaga e seguiu os estudos sem maiores problemas. “Tenho a oportunidade de fazer pesquisas e desenvolver minha capacidade. Além de poder pesquisar e me aprofundar em temas que eu gosto”, explica Nina.

 

Esse método permitiu que a jovem conhecesse mais detalhes de outras culturas e pudesse começar a escrever um novo livro baseado na mitologia celta. “Ainda estou escrevendo, mas pesquiso cada vez mais para poder escrevê-lo. Meu pai me deu um livro sobre a cultura deles para que eu pudesse usar na minha história”, afirma a estudante.

 

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Hoje, ela cursa o seu último ano na escola, já que a instituição oferece apenas os primeiros nove anos de educação. “Ano que vem, a Nina passará a estudar em casa, já que não poderá continuar na escola”, afirma Joana.

 

Daniel ensina sua cultura para o mundo

Daniel Munduruku, 54, começou sua trajetória em Manaus (AM), onde iniciou a faculdade em filosofia. O desejo do professor era se formar e dar aulas, mas acabou chegando também à escrita de narrativas. Apesar de ter começado os estudos na capital amazonense, Daniel finalizou a graduação em São Paulo e, depois, cursou psicologia, história e fez pós- graduação pela Universidade de São Paulo (USP). Ao longo dos anos, acumulou nada menos que 52 livros, todos ligados à cultura indígena. “Uso contação de história para ensinar os elementos da cultura indígena”, conta o escritor.

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Além de escrever, Daniel é professor há 15 anos e também criador do Instituto UKA, organização não governamental defensora da Lei Federal nº 11.645, que instituiu a obrigatoriedade da temática indígena no currículo escolar brasileiro. Nos últimos 8 anos, o instituto capacitou mais de 30 mil educadores em várias regiões do Brasil, de modo que pudessem transmitir os conhecimentos indígenas pelo país. “Os profissionais capacitados atuam de forma itinerante, convidados para dar aulas em outras cidades”, explica Daniel.

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Daniel acumula também vários prêmios, como Comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República em 2013 e Menção honrosa do Prêmio Literatura para Crianças e Jovens na Questão da Tolerância, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). As obras do professor são voltadas ao público infanto juvenil, uma forma de ensinar corretamente elementos da cultura dos índios com mais vivência, detalhes e contos. “Aproximar as crianças da cultura do nosso povo, de forma correta e que os façam imergir nos elementos”, conta Daniel.


*Estagiária sob a supervisão de Jairo Macedo, especial para o Correio