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Correio Braziliense

Especialistas sugerem que Ibaneis repense militarização das escolas

Governador do DF resolveu ignorar o resultado de consulta pública à comunidade escolar do Gisno e do CEF 407 de Samambaia. Especialistas e presidente da UNE comentam


postado em 19/08/2019 18:07 / atualizado em 20/08/2019 11:39

O projeto de gestão compartilhada de escolas entre a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEE-DF) e a Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF) em si já é polêmico. No entanto, a militarização de colégios públicos da capital federal se torna ainda mais complicada sem o apoio da comunidade escolar. Por isso, gera surpresa e avaliações negativas a decisão do governador do DF, Ibaneis Rocha, de militarizar dois colégios mesmo após as unidades votarem contra esse formato: o Centro de Ensino Fundamental (CEF) 407 de Samambaia e o Gisno, na Asa Norte. Confira avaliações de personalidades da educação sobre a imposição de gestão compartilhada nessas unidades: 

Sugiro ao governador que repense

Claudia Costin (foto: Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press)
Claudia Costin (foto: Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press)

“Eu acho que o Brasil tem muitos problemas na educação. E, muitas vezes, as pessoas pensam que, por conta de uma certa indisciplina, que é típica da juventude de hoje e da dificuldade da escola de lidar com isso, que isso poderia ser resolvido numa gestão partilhada entre Educação e a Polícia Militar ou os bombeiros. É verdade que, no curto prazo, nas experiências que vêm acontecendo, isso tem trazido um impacto positivo no desempenho escolar. Mas é importante lembrar também que não é essa a disciplina de que nós precisamos no século 21, em que o trabalho humano tende a ser substituído por robôs. Não é robotizando as crianças que a gente assegura um desempenho educacional de longo prazo, especialmente um desempenho para o século 21. Quando começaram as experiências, eu falei: eu não tenho nada contra a se fazer experiências com gestão partilhada, sem a fantasia de que isso se transformará nas escolas militares, próprias do Ministério da Defesa, que aí é uma outra lógica, voltada para os filhos da família militar e mais alguns que passam num concurso para isso. O que nós precisamos é que essas experiências, onde elas acontecerem, sejam de acordo com a vontade da comunidade escolar. Então, se a comunidade escolar não quer esse experimento, por que impor à força? Começa errado, aí já não é mais um experimento, começa a ser uma imposição. Eu sugeriria ao governador que repense essa decisão.” 

Claudia Costin, fundadora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe), ex-diretora sênior para Educação do Banco Mundial e ex-secretária de Educação da cidade do Rio de Janeiro 

Defendemos gestão democrática

Iago Montalvão(foto: Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press)
Iago Montalvão (foto: Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press)

"Primeiramente, a nossa opinião é por um modelo pedagógico de ensino, que não perpassa a militarização. O modelo pedagógico em que nós acreditamos é de gestão democrática, então aí você já rompeu dois pontos basilares desse modelo: que é o de não ouvir a comunidade envolvida na escola (os estudantes, os pais) e também de colocar uma gestão que não dialoga com a democracia desse ambiente. A militarização passa por alguns fundamentos de disciplina e organização que não dialogam com uma elaboração pedagógica de educação, mas com uma elaboração militarizada, de disciplina. Você rompe o caráter da escola, de formação crítica, humanizada, emancipadora e coloca as crianças e os jovens em um outro tipo de formação que, para nós, é muito preocupante. E a comparação que se faz com as escolas militares nos rankings e pontuações têm a ver com outra dinâmica, de financiamento e até de seleção, pois há provas para ingresso nos colégios militares, o que a gente acha que é uma distorção."
Iago Montalvão, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), estudante de economia da Universidade de São Paulo (USP)

A comunidade tem que querer 

Ricardo Henriques(foto: Internet/Reprodução)
Ricardo Henriques (foto: Internet/Reprodução)
 

"A primeira coisa que é importante reconhecer é que existem desafios de indisciplina, de desordem, às vezes, de violência, que têm de ser enfrentados. São problemas que não devem ser jogados para debaixo do tapete. Mas acho que existem experiências no Brasil, no mundo e na literatura que dizem que medidas como essa, que têm a ver com militarização, pode até ser que dêem resultados em curto prazo, como sensação de segurança, mas não são sustentáveis, não criam a base para uma mudança estrutural que implica compartilhamento de visões, engajamento dos professores, dos estudantes e das famílias na mesma direção. Em geral, quando você consegue ir nessa direção, de uma gestão que tem escuta atenta, mas que tem firmeza, você muda os parâmetros que estavam gerando situações de desordem, de indisciplina. Você cria confiança, não fica uma relação de ‘nós contra eles’, mas uma relação que permite ser reflexivo, ser crítico.

 

A comunidade tem que querer a militarização. Quando a comunidade quer a militarização, é outra história. Mas, mesmo quando querem, é preciso pensar nos impactos de médio e longo prazo. É mais grave quando a comunidade escolar não quer uma solução desse tipo.A questão chave em qualquer ambiente de ensino e aprendizagem é você criar relações de confiança sólidas. Para lidar com indisciplina, violência e desordem, os caminhos que dão certo, em regra geral, passam pelo processo de escuta atenta, processo de entendimento do que está acontecendo naquele território para que a escola seja um espaço de troca e de tolerância. Então, você não pode desconsiderar os problemas, mas precisa manter o foco no estudante, que não se dá pelo controle, pela vigia, pela revista… O foco no estudante se dá por redefinição desse ambiente a partir da construção de uma relação de confiança. Para fazer as mudanças do clima escolar que gerem relações de respeito e ordem, com valorização do professor e do estudante, você precisa criar um clima de confiança entre os vários atores dessa escola, entre os pais, os alunos, os professores e, sem dúvidas, medidas mais rígidas e autoritárias que não procurem o diálogo não vão ao encontro de criar esse clima de confiança. Os protestos (contra a decisão do governador de impor o modelo de gestão compartilhada contra a vontade da comunidade escolar) são um efeito secundário decorrente disso. E o principal, que é o clima da escola, desse jeito, só piora. Se os atores dessa escola, os pais, os alunos, não compartilham dessa solução, você cria mais tensão. A variável chave é que você precisa distensionar, você tem que criar um ambiente saudável de aprendizagem."

Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, economista, ex-secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) do Ministério da Educação  

Por que impor?

João Marcelo Borges(foto: Internet/Reprodução)
João Marcelo Borges (foto: Internet/Reprodução)
 

"Eu entendi que, pelo menos em relação a uma das escolas, houve dúvida sobre se a votação havia sido validada. Mas, não havendo dúvidas e, se as escolas votaram contra o projeto, o que essa decisão mostra é que a gestão é compartilhada entre a Secretaria de Educação, o gabinete do governador e a Polícia Militar, mas, certamente, não é compartilhada com a comunidade escolar. E isso é preocupante porque tem muitas evidências que demonstram que a participação ativa da comunidade escolar, obviamente que regrada pelo regimento da escola, é essecial para criar um clima positivo. O Brasil possui centenas, se não milhares, de escolas públicas de alto desempenho que prescindem de militarização para alcançar bons resultados e um clima pacífico e saudável na comunidade. A militarização aumenta o custo de funcionamento e não há condições de expandir para a maioria da rede. Então, é claro que continuará sendo algo pontual. A gente precisa de respostas sistêmicas para a educação, não de balas de prata ou ideias que vão funcionar em alguns lugares. A gente vê com ressalva esse modelo. É preciso que a Secretaria de Educação seja muito transparente e mostre os estudos que embasaram a decisão por esse modelo. Que a eventual incorporação de militares não adentre a pedagogia de sala de aula. E trazer esse projeto contra a vontade da comunidade escolar pode trazer até o efeito contrário, certamente. Você cria uma resistência de imediato à construção de um clima positivo e a entrada desses policiais militares acabar alimentando conflitos internos, sendo que há outras escolas onde a comunidade poderia aceitar. Por que impor se são duas escolas num universo de centenas de escolas?"
João Marcelo Borges, diretor de estratégia política do Todos pela Educação

Debate 

Na quinta-feira (22), às 12h, o Auditório 2 Candangos da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB) recebe audiência pública sobre a militarização das escolas públicas do DF. João Marcelo Borges está entre os convidados. 
 
 
*A jornalista viajou a São Paulo para participar da terceira edição do Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, organizado pela Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), a convite do Instituto Unibanco

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