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Correio Braziliense

Aulas a distância preocupam alunos e professores da rede pública

Modalidade foi aprovada pelo GDF na última terça-feira (24), como medida para reduzir danos a aprendizagem dos alunos em quarentena


postado em 26/03/2020 22:11 / atualizado em 26/03/2020 23:31

Com a aprovação da medida provisória que permite que aulas a distância sejam ministradas para estudantes da rede pública e particular, muitos alunos se preocupam como irão fazer para acompanhar as aulas. Sem as ferramentas necessárias, a ação emergencial que pretende ajudar os estudantes a não perderem o ritmo de estudos, pode acabar virando um problema para muitos. 

O Conselho de Educação do Distrito Federal (CEDF), aprovou na última terça-feira (24), uma medida que permite o ensino a distância da educação infantil até o ensino médio na rede pública e particular. As aulas presenciais estão suspensas desde 16 de março, como medida de contenção ao avanço do Covid-19. 

A expectativa é de que as aulas on-line tenham início no dia 6 de abril, caso a quarentena permaneça. A princípio, 80 mil estudantes do ensino médio terão acesso ao conteúdo que será estendido aos poucos para todo o ensino fundamental.

Estudantes da rede pública acessarão as atividades on-line por meio do Moodle, com computador e aplicativo para celular. A plataforma permite que o estudante entre com login e senha, em um espaço que permite visualizar turma e os componentes curriculares respectivos a cada série. 
 

A Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF), o tempo estimado para cada aula é de 50 minutos, também existe a possibilidade dos alunos baixarem as atividades para desenvolver conforme a disponibilidade de cada escola e estudante. Os conteúdos disponibilizados aos alunos serão alinhados à Base Nacional Comum Curricular, naquilo que compete a cada um, incluindo aulas destinadas ao ensino especial.

Ana Joice da Rocha, 23, é tia de um estudante do 8° ano do Centro de Ensino Fundamental 120 (CEF 120) de Samambaia Sul, ela relata que o sobrinho não possui acesso às ferramentas necessárias, como celular e computador, para acompanhar as aulas a distância. Para ela, a medida seria mais acertada caso o conteúdo fosse transmitido pela televisão: “Acho que ele iria entender melhor, talvez seria mais fácil de acessar”.

A coordenadora de implementação regional do Itaú Social, Claudia Petri, avalia que a medida é correta, de acordo com a legislação do ensino a distância que regulamenta seu uso em situações emergenciais, mas que é preciso ser bem pensado. “Mesmo com a normatização precisamos pensar na estrutura tecnológica dos municípios. É preciso pensar nessa infraestrutura nos lares: Esses meninos têm acesso a computador? A internet?”, alerta.

Cláudia Petri(foto: Divulgação Itaú Social)
Cláudia Petri (foto: Divulgação Itaú Social)
Para Claudia, o uso da TV aberta é o meio mais eficiente para as séries iniciais. “Organizar uma programação educativa nas emissoras estatais, junto a secretaria de educação, resgatando esses programas com um olhar pedagógico, educacional”, sugere. Ela adverte que para a medida funcionar são necessários cinco principais pontos: a colaboração dos pais; a infraestrutura tecnológica da secretaria e das famílias; planejamento de uma programação para educação infantil e séries iniciais; o uso da TV aberta; e na plataforma on-line o uso dos celulares mais do que os computadores. “O professor também precisa de orientações sobre o tipo de atividade pode ser aplicada dentro da plataforma Moodle”, orienta Claudia. 

Camile Soares Silvia, 17, é estudante do 3° ano do ensino médio do Centro de Ensino Média 304 (CEM 304) de Samambaia Sul. Ela concorda que para as aulas funcionarem é necessário muito planejamento. “Nem todo mundo tem internet pra ter aula, acho que nenhum dos meus professores já deu aula a distância alguma vez, mas na situação presente é a melhor forma de sairmos menos prejudicados”, reflete. 

Camile conta que tem pouco contato e informação da direção da escola. “Os professores só mandam notícias por representantes de sala. Todos os deveres que mandaram por representantes eu nem cheguei a abrir”, disse. Em fase de vestibular, a estudante nunca teve contato com o Moodle e acha que será prejudicada nos processos seletivos que se aproximam, como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). 

Lucia Dellagnelo diretora-presidente do Centro de Inovação para Educação Brasileira (CIEB), alerta para uma distinção sobre o que é, realmente, o ensino a distância. “É importante que as pessoas saibam que essa transição para o início de atividades a distância não é possível ser feita de forma tão rápida, requer preparo. O que vai acontecer é uma tentativa de comunicação remota. O que se pode assegurar é que os alunos não vão aprender da mesma forma que presencial, mas isso não é culpa da educação a distância e sim da urgência com que foi feita essa transição”, ressalta.

Lucia Dellagnelo diretora-presidente do Centro de Inovação para Educação Brasileira (CIEB)(foto: Divulgação CIEB)
Lucia Dellagnelo diretora-presidente do Centro de Inovação para Educação Brasileira (CIEB) (foto: Divulgação CIEB)
 
 
 
 
 
Para Luciana, é falsa a ideia de que todas as atividades a distância podem ocorrer por celular, mas é válido estimular que as crianças continuem aprendendo. A cabeleireira Janiele Mendes de Oliveira, 33, é mãe de Marcos Vinicius Moraes de Oliveira, 14, aluno do 8° ano do ensino fundamental no Centro de Ensino Fundamental 120 (CEF 120) de Samambaia Sul. Para Janiele, a medida não é positiva.

Marcos e Janiele(foto: Arquivo pessoal)
Marcos e Janiele (foto: Arquivo pessoal)
 
 
 
 
 
 
 
A estudante de técnica em enfermagem diz que sente dificuldades quando precisa realizar tarefas on-line, e que isso seria um empecilho ainda maior para as crianças. “Fica muito por conta do aluno. Se ele não tiver total interesse, não tem um bom resultado. Eu acho que essas aulas teriam que ser repostas de outra forma. Na minha visão, essa medida é só para o governo poder falar que está tendo aula”, crítica. Para Janiele, se forem necessárias as aulas devem ocorrer na TV aberta. Já o filho, Marcos Vinicius de Oliveira, prefere que as aulas sejam disponibilizadas on-line. “Na tevê limita o tempo”, diz ele.

Patrícia Vieira, professora (foto: Arquivo pessoal)
Patrícia Vieira, professora (foto: Arquivo pessoal)
 
 
 
 
 
Patricia Viera, 38, é professora do Centro de Ensino Fundamental 418 (CEF 418) em Santa Maria. Lecionando para o ensino fundamental, do 1° ao 5° ano, ela considera que a medida é até válida, porém pode não ser aplicável no cotidiano. “Nossos alunos não terão acesso às ferramentas. O processo de alfabetização e ensino-aprendizagem ele se faz necessária com professores e alunos presencialmente”, diz. 

A professora do 1° ano ainda avalia a situação das famílias: “Os alunos não têm maturidade e as famílias estão em um momento de muita preocupação. Até nós, adultos, sentimos fadiga, imagina eles. É uma saída inicial, mas não é o suficiente”.
 
 
 

Claudia Petri, concorda: “O que precisamos ter cuidado é para não colaborar com o aumento do nível de desigualdade entre os alunos. 58% dos domicílios do país não têm acesso a computador, 33% das famílias não têm internet em casa. É por isso que é necessário pensar em alternativas como a TV aberta”.
 
 
 
*Estagiária sob supervisão de Ana Sá  

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