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Correio Braziliense

Conselho Nacional de Educação elabora parecer para reorganizar o calendário

Em meio à disseminação sem controle da covid-19, não há previsão para o retorno seguro às atividades presenciais de ensino


postado em 02/06/2020 06:00 / atualizado em 02/06/2020 14:14

Escolas e universidades estão fechadas desde o início da pandemia. Retomada só ocorrerá após definição dos protocolos de segurança adequados(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Escolas e universidades estão fechadas desde o início da pandemia. Retomada só ocorrerá após definição dos protocolos de segurança adequados (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Entre as áreas que foram mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus está a educação. Independentemente da idade escolar, alunos de todo mundo tiveram que deixar o modelo presencial e adotar ferramentas de tecnologia para manter a rotina de estudos. Até o momento não se sabe quando as aulas voltarão no Brasil. O governo de São Paulo, por exemplo, não incluiu a atividade no plano gradual de reabertura da cidade. Para orientar o retorno, em todo o país, o Conselho Nacional de Educação elaborou um parecer, com orientações que tratam da reorganização do calendário escolar e atividades pedagógicas, que passaram a ser não presenciais devido à pandemia. O documento foi homologado nesta segunda-feira (1º/6).

 

 Para Michelle Jordão, coordenadora do Núcleo de Inovação das Práticas Pedagógicas do Centro Universitário IESB, esse é um momento de mudanças. “Ainda não sabemos muito bem aonde isso vai dar, aonde vamos terminar e o que pode acontecer”, diz a doutora em educação. Entre as consequências na vida de alunos e professores, ela afirma que a pandemia “tem reformulado constantemente o nosso cotidiano”.

 

 Diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, José David Urbaez pontua que a volta às aulas, agora, não é possível: “A natureza das atividades de ensino é aglomeração de uma série de jovens e crianças”, pondera o médico. “A natureza dessas atividades é que estas sejam levadas a cabo em lugares que você tem proximidade entre alunos e professores”, detalha, sobre a impossibilidade do ensino presencial no momento. 

 

“A Coreia do Sul, que tem sido o país com maior sucesso no controle da covid-19, pela atividade de testagem, retomou as aulas e, agora, está fechando, novamente, escolas e estabelecimentos educacionais porque eles não conseguiram manter o controle. Apesar de terem implementado um sistema de monitoramento muito intenso, baseado na testagem intensificada, além do uso de máscara, da promoção do distanciamento entre os alunos e professores, a higiene eficaz das mãos de maneira frequente e limpeza de superfície”, cita, como exemplo.

 

Urbaez completa dizendo que as instituições de ensino são locais clássicos de socialização. “Nós vamos para a escola para aprendermos conteúdos formais, mas estes são locais preciosos que nossa cultura construiu para a socialização. É uma ilusão pensarmos que existem esses dispositivos para proteger a volta às aulas”. Ele ainda afirma que os estudantes passam a ser potenciais vetores de transmissão para outros grupos mais vulneráveis. “Ao voltarem para seus lares, esses alunos não podem entrar em contato de maneira alguma com pessoas dos grupos de risco”. 

 

Saúde mental

 

Para a coordenadora do Iesb, é importância, também, cuidar da saúde mental dos professores. “Os profissionais têm se queixado muito desse susto no sistema, porque o volume aumentou, se intensificou”, informa. “Tivemos que fazer adaptações de formação constante e replanejamento das atividades. Replanejamos tudo que foi pensado no início do ano, os objetivos, as competências, as habilidades que deveriam ser desenvolvidas pelos nossos estudantes”, explica. Michelle acredita que o momento é de união entre as instituições de ensino e as famílias. “A escola não pode se eximir da orientação às famílias. Não podemos passar essa responsabilidade para elas”, defende. 

 

Ela destaca que o ensino aplicado atualmente, em meio à pandemia, não deveria ser chamado de educação a distância. Ao contrário do EaD, que abrange grandes grupos e segue uma fórmula mais padronizada, neste momento, o professor se mostra mais versátil e atento às especificidades da turma e de cada aluno individualmente. “Estamos falando de atividade remota on-line, é diferente porque a educação a distância tem um sistema mais padronizado. Aqui, na atividade remota, não, aqui, temos um diferencial”. 

 

Sobre o retorno às atividades presenciais, Michelle acredita que, quando possível, é importante se tomar as medidas de higienização e proteção, para evitar que os alunos e os profissionais se infectem. “Vamos ter que mapear isso, mas acho que não será feito só pelos gestores, mas a partir da escuta com as famílias, dos professores e dos nossos estudantes”, garante a coordenadora. 

 

“As crianças virão querendo se movimentar, se abraçar, como se fosse o mesmo processo que elas deixaram, mas não vai ser dessa forma”, projeta. Para ela, é fundamental a atuação conjunta dos profissionais e responsáveis na volta às aulas. “Nós somos os adultos da relação, precisamos cuidar de todas as medidas de proteção. Isso tudo faz parte dos nossos desafios como gestores”, assume. 

 

 José David Urbaez alerta que, apesar das faixas etárias mais novas estarem menos sujeitas às formas mais graves da doença, isso não extingue a possibilidade de complicações e até o óbito. “A fatalidade nas crianças é um processo que ainda está em construção, pois, felizmente, tem acontecido em uma parcela muito pouco significativa”, pontua. O especialista chama a atenção, no entanto, para o perigo do coronavírus: “Como se tem o princípio de que os mais novos não desenvolvem, isso pode passar batido pelo profissional.”

 

Mundo afora

 

Países que viram os números da doença caírem, começaram a retomada as atividades escolares. No processo de busca pelo  novo normal, diversas medidas de prevenção estão sendo tomadas. Máscaras, medição de temperatura, ampla testagem, desinfecção do ambiente escolar e distanciamento são algumas das apostas das instituições de ensino onde a retomada do ensino presencial já é realidade. 

 

Em Wuhan, a cidade chinesa considerada o primeiro epicentro da doença, somente voltaram às aulas os alunos do último ano do ensino médio, no início de maio, após quatro meses com os colégios fechados. A reabertura exigiu uso de máscaras e câmaras infravermelhas, que detectam uma possível febre, além de diversos outros cuidados para evitar uma nova onda de infecção. A medida só foi possível devido à queda no número de contágio no país. Mesmo com todos os cuidados, o país registrou novos casos desde a reabertura.

 

Também em maio, na França, mais de 50 mil escolas receberam cerca de 1,5 milhão de estudantes. Apesar de alto, o número corresponde a menos de um quarto do total de alunos do país, que tem 6,7 milhões de crianças matriculadas no ensino fundamental. A decisão de volta às aulas não agradou a todos e apresenta resistência de pais e professores. 

 

Na Coreia do Sul, a ampla testagem e os aplicativos de rastreamento da doença permitiram um controle maior em relação a expansão do vírus. Mesmo assim, o início do ano letivo foi adiado quatro vezes. Os alunos e os professores só podem tirar as máscaras durante as refeições, além disso, há redistribuição de carteiras, distância ao se movimentarem e análise frequente das temperaturas corporais. Mesmo assim, novos casos surgiram no país e centenas de escolas foram fechadas. 

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