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Escolas particulares se preparam para o retorno das aulas presenciais

Sindicato dos professores e Associação de Pais e Alunos (Aspa-DF) ameaçam recorrer à Justiça para impedir a abertura dos colégios no Distrito Federal

Ana Lídia Araújo*
postado em 21/07/2020 15:57
Escolas da rede particular de ensino estão autorizadas a funcionar a partir da próxima segunda-feira (27/7). O cronograma de retorno, estabelecido pelo governador Ibaneis Rocha (DEM), após uma série decisões judiciais contrárias, continua recebendo reação negativas por parte de pais e entidades.

Escolas particulares se preparam para volta às aulas
Para o Sindicato dos Professores em Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinproep-DF), a retomada é precipitada. "Nós entendemos que ainda não é o momento de retornar às aulas presenciais, até porque o Distrito Federal ainda não atingiu o pico e o ambiente escolar movimenta muitos alunos, funcionários e o transporte público. Na nossa opinião, o governador deveria voltar atrás nesse retorno", afirma Rodrigo de Paula, diretor jurídico do Sinproep.

A entidade representativa encaminhou denúncia para o Ministério Público do Trabalho (MPT) contra a volta na próxima semana e, também, contra a convocação presencial de professores antes da data, que tem ocorrido em algumas escolas, segundo o sindicato.

;Caso o governador não reveja essa posição, o sindicato pensa em, ainda nesta semana, buscar a Justiça. Nosso jurídico está estudando a possibilidade;, conta Rodrigo. Para o sindicato, a pressa pela volta presencial não é justificável, uma vez que as escolas particulares estão conseguindo manter o funcionamento por meio do ensino remoto.

Em nota ao Eu, Estudante, a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEE-DEF) informou que grande parte das instituições educacionais de ensino particular já apresentaram o planejamento para utilização de atividades não presenciais, em substituição às atividades presenciais, conforme determinação constante do Parecer n; 33/2020 do Conselho de Educação do Distrito Federal.

Vale lembrar que cada instituição educacional da rede particular tem calendário próprio, o qual é homologado pela secretaria.

O que diz o Sinepe

Em vídeo divulgado na noite de ontem (20/7), Álvaro Domingues, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe-DF), disse que tem implementado um protocolo de profilaxia em todas as escolas. ;O Sinepe tem orientado, por meio de um guia, recomendações coletadas de instituições científicas de renome internacional, nacional e local, para que as escolas se preparem para o retorno dos estudantes", explicou.

O presidente ressaltou ainda que a volta será gradual e opcional, podendo ser aderida somente pelas escolas que têm a infraestrutura necessária e por pais que precisarem e se sentirem seguros em enviar os filhos para o colégio. "Neste momento, estamos divulgando amplamente essas informações, treinando nossas equipes para retornarmos segundo as condições de segurança e do corpo docente de cada escola", assegura.

Acesse o guia clicando aqui.

Pais preocupados

A Associação de Pais e Alunos (Aspa-DF) espera uma confirmação do Governo a favor das datas. "Precisamos agora que o Governo apresente os dados que embasaram o retorno e, realmente, confirme que agora é o melhor momento para o retorno e que está tudo pronto para que segunda-feira as crianças da rede particular possam voltar de forma gradual", destaca Alexandre Veloso, presidente da Aspa.

Segundo Alexandre, a associação vem acompanhando a validação dos protocolos de retomada, que precisam ser individualizados para cada instituição de ensino. "Muitas escolas ainda não validaram esses planos de segurança sanitária, bem como não apresentaram a proposta de retorno gradual. Nós estamos acompanhando, aguardando com os pais das escolas particulares para que possamos, em algum momento, fazer uma intervenção para que o plano seja transparente e de fácil acesso", completa.

O oficial militar da Marinha Carlos Henrique Mayato e o filho Samuel SousaO oficial militar da Marinha Carlos Henrique Mayato, 54 anos, tem dois filhos. O mais novo, Samuel Sousa, 18, está cursando o terceiro ano do ensino médio no Colégio Elite, unidade Guará. Até onde ele sabe, a escola fará um pequeno recesso e retornará presencialmente em 3 de agosto. No entanto, a escola não entrou em contato com o responsável para anunciar o cronograma. ;Não recebi nenhum telefonema, e-mail, ou comunicação de que as aulas voltariam. Eu soube disso pelo meu filho;, conta.

Carlos é contra a data. ;Ele estuda em uma sala com 45 alunos. Como vai ser isso? Vão dividir as turmas, os turnos? Nada disso foi passado para a gente. Eu não sei como será essa volta;, afirma. ;Na minha opinião, essa volta só poderia ocorrer depois que tivermos a vacina. Se eu tiver a opção de deixar meu filho estudando em casa é isso que vou fazer;, opina.

Em nota, o Elite Rede de Ensino informou que não tem data definida para o retorno das aulas presenciais. A informação vale para todas as unidades do colégio pelo Brasil.

Diferentemente do militar, a avó e médica pediatra, Ana Goretti Kalume Maranhão, 66, elogia a postura da rede de Colégios Marista, onde estudam quatro netos: Paulo, 15, Marina, 11, e Sofia, 7. Eles cursam, respectivamente o 9;, 7; e 5; anos do fundamental, enquanto o pequeno Daniel, 4, está na pré-escola. ;O Marista tem tido uma postura muito correta com as famílias. Eles criaram um grupo de discussão com os pais. Ontem, o diretor enviou um vídeo explicando sobre a preparação da escola com os professores e distribuição de salas;, relata.
Ana Goretti e os netos em 2015
O colégio segue discutindo a melhor alternativa com os pais e, por isso, ainda não tem data para a volta. Apesar de estar satisfeita com as ações do Marista, Ana Goretti diz não querer o retorno físico. ;Eu entendo que devemos colocar na balança os prós e contras dessa situação. Existe todo um problema causado pela falta da presencialidade, como a depressão infantil, dificuldade cognitiva e crianças que têm na escola uma fonte de alimento. No entanto, como médica e avó, não consigo deixar de me preocupar;, confessa.

;Estamos com números altos aqui no DF. Acredito que a abertura das escolas só deveria ser considerada nas cidades que registram queda constante de casos. E, aqui, não é o caso. É um risco não só para as famílias, como para os professores;, justifica.
Os elogios ao Marista são compartilhados com a pedagoga Fernanda Simões, 46, que faz parte da comissão pedagógica de pais e mães. "A escola disse que só iria aprendendo conforme fosse passando pelas dificuldades. A cada dia, uma equipe anda pela estrutura física e nota algo ;esquecido; ou ;novo;. E isso é real.Dizer que sabe como vai funcionar tudo seria muita utopia", diz.
Victor Hugo de Sousa, Luma Simões e Rafael de Sousa
A filha Luma Simões, 14, e dos dois enteados Rafael, 7, e Victor Hugo de Sousa, 21. Luma e Rafael estudam no Marista e Victor Hugo faz faculdade no Centro Universitário Iesb. Fernanda é mais uma responsável contra o retorno. "Estamos vivendo um período muito difícil. Sou hipertensa e meus dois enteados têm a doença falciforme. Não posso arriscar as nossas vidas pela aprendizagem, porque, como professora há 21 anos, sei que o aprendizado se recupera", desabafa.

Cronograma

Confira como anda o plano de retomada de alguns colégios particulares do Distrito Federal.

Marista: O Colégio Marista João Paulo II segue em diálogo com os pais para encontrar a melhor alternativa para o retorno às aulas. Nesta semana, o protocolo será encaminhado às famílias, juntamente com uma proposta de datas para a volta gradual e uma pesquisa sobre o tema. Segundo a instituição, para as famílias que optarem por manter os alunos em casa, o Colégio permanecerá oferecendo o modo de aulas não presenciais.

Por enquanto, mantêm-se as aulas on-line. A única data confirmada é do recesso escolar, que ocorrerá entre 27 e 31 de julho e, em outubro, de 14 a 16.
Colégio Pódion: A escola preferiu manter o ensino remoto durante a semana do dia 27 de julho. Na unidade de ensino fundamental, as aulas presenciais voltam em 3 de agosto para o 6; e 7; anos e, em 10 de agosto, para o 8; e 9; anos. As mesmas datas serão seguidas pelo ensino médio, começando pelo terceiro ano, e depois, pelo primeiro e segundo.

A escola enviou um formulário para que as famílias opinassem acerca da retomada física. Segundo a instituição, cerca de 66% dos responsáveis não se sentem confortáveis em mandar os estudantes para as escolas. Por isso, a escola fará transmissão ao vivo da sala de aula para quem preferir assistir de casa.

Colégio Ideal: De forma gradual, retornam às aulas presenciais os alunos de todo o ensino médio em 3 de agosto. No dia seguinte, voltam os estudantes do fundamental 2 (do 6; ao 9; anos). Somente em 5 de agosto, os alunos do fundamental 1 (1; ao 5; anos) podem ir à escola.

Colégio Sigma: A escola fará rodízio entre os estudantes de todos os segmentos (ensino médio, ensino fundamental ; anos finais, ensino fundamental ; anos iniciais e educação infantil). A partir de 10 de agosto, a cada semana um segmento retornará ao Sigma, começando pelo ensino médio. A instituição também oferecerá a possibilidade de escolha entre o ensino presencial ou permanecer com as aulas remotas.

Centro Educacional Objetivo: O ensino médio, a educação infantil e o ensino fundamental 1 retornarão, respectivamente, em 3, 4 e 5 de agosto. Na outra semana, em 10 de agosto, volta o ensino fundamental 2.
Elite Rede de Ensino: O colégio não tem data definida para o retorno das aulas presenciais em nenhuma das unidades. A escola enviou cartilha aos responsáveis com o protocolo de retorno às aulas físicas. A rede está trabalhando em medidas de segurança para um retorno seguro quando possível.


*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá.

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