Professores e ex-alunos relembram tomada da UnB por militares após 50 anos

O 29 de agosto de 1968 ficou marcado na Universidade de Brasília pela tomada do câmpus por militares. Cinquenta anos depois, ex-alunos e professores relembram a tensão vivida em um dos capítulos mais tristes da história da instituição

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 02/09/2018 08:00 / atualizado em 10/09/2018 22:31

Arquivo/UnB

 

 

Arquivo/UnB

 

 

A manhã ensolarada e de baixa umidade denuncia os meses de seca na região Centro-Oeste. No câmpus da Universidade de Brasília (UnB), um dos orgulhos da capital recém-construída, a calmaria do clima contrasta com uma certa inquietude em 29 de agosto de 1968. Há boatos sobre uma possível invasão militar, mas ninguém imagina o que virá a seguir. Às 9h30, gritos ecoam pelos corredores da instituição. Ouve-se que o estudante de geologia e presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília (Feub), Honestino Guimarães, está preso. Do lado de fora, policiais militares, civis, federais e do Exército, além de agentes à paisana do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), tomam a cidade universitária.

 

Para os agentes da ditadura, a agitação no câmpus, iniciada em março daquele ano, deveria ser contida. Cinco meses antes da invasão, Honestino havia organizado um protesto contra a morte de Edson Luís de Lima Souto, secundarista assassinado no Rio de Janeiro por PMs. Essa manifestação seria o motivo para a detenção, em agosto, de sete alunos, inclusive do líder estudantil, o principal alvo. Alarmados e indignados, os universitários deixaram salas de aula e laboratórios para reagir à quarta invasão à UnB desde o início da ditadura, em 1964.A revolta aumentou quando os alunos avistaram um carro da polícia no estacionamento. O veículo, aparentemente abandonado, acabou derrubado e incendiado. Era a deixa que os militares queriam para avançar por toda a parte. À época, especulava-se que todo o contingente policial do DF havia se deslocado para o câmpus, na Asa Norte. De dentro de veículos oficiais, saíram policiais munidos com bombas de efeito moral, granadas de gás lacrimogêneo, pistolas, cassetetes e fuzis com baionetas. Rapidamente, encurralaram os estudantes. Portas de laboratórios e salas de aula foram arrombadas a socos e pontapés. Os alunos, forçados a deixar os recintos, seguiam, em fila indiana, para a área externa, enquanto sofriam ameaças, insultos e agressões com tapas, chutes e coronhadas.

Quando podiam, os universitários atiravam pedras e usavam porretes contra os policiais. Em meio à confusão, que envolveu professores e parlamentares, o estudante de engenharia Waldemar Alves da Silva Filho levou um tiro na cabeça. Encaminhado ao Hospital Distrital de Brasília — atual Hospital de Base — com traumatismo cranioencefálico, o jovem entrou em coma. Outros quatro alunos também receberam cuidados médicos na unidade de saúde.

Triagem

Quem não precisou de atendimento médico seguiu sob a mira de armas para uma quadra de basquete, perto da Reitoria. Enfileirados, centenas de universitários dirigiram-se ao local com as mãos atrás da cabeça. Lá, os alunos rendidos passaram por uma triagem. Cerca de 60 foram presos. Entre eles Cláudio Almeida, hoje com 75 anos, amigo e colega de ensino básico de Honestino Guimarães.

A proximidade entre eles fez com que o então estudante de economia fosse identificado pelos agentes no dia da invasão. “Um dos policiais disse que eu era conhecido deles. Detiveram-me na quadra. Depois, levaram-me para as celas na garagem do BNDES (à época, no Setor Bancário Sul). Muita gente tinha passado por lá”, relata. O funcionário aposentado do Senado foi transferido para a prisão do Exército. “Um dos três companheiros de cela era conhecido meu. Ele disse para eu não conversar com os outros dois que estavam conosco, porque eles nos vigiavam”, detalha Cláudio.

Água no rosto para não dormir, pancada e terror psicológico faziam parte da rotina dos torturadores. Honestino também estava lá. “Eles o levaram até mim para que ele me denunciasse. Bateram muito, mas ele não dizia nada do que queriam.” Mais de duas semanas depois, Cláudio deixou a prisão. A soltura, no entanto, ocorreu sob uma condição. “Disseram que, se eu aparecesse em qualquer lugar, me pegariam de novo, pois havia muita gente atrás de mim”, conta.

Algum tempo depois, ele encontrou Honestino. O amigo estava escondido no teto do Instituto Central de Ciências (ICC) da UnB. “Ele falou que foi jubilado e que decidiu seguir a vida na clandestinidade. Perguntou se eu queria acompanhá-lo, mas eu disse que não tinha estrutura psicológica para aquilo. Despedimo-nos com um grande abraço. Foi a última vez que nos vimos”, lamenta Cláudio. Honestino seria preso e assassinado pela ditadura em 1973. A família recebeu o atestado de óbito em 1996, mas o corpo do líder estudantil jamais foi encontrado.

Sequelas

Enquanto observava a movimentação pelo mezanino do ICC, uma bala calibre 38 atingiu Waldemar na cabeça. Ele ficou nove dias em coma e meses internado em dois hospitais do Rio de Janeiro. O estudante sobreviveu, mas teve 60% da visão do olho esquerdo comprometida e passou a apresentar dificuldades de raciocínio. O universitário acabou jubilado por não conseguir acompanhar o ritmo das aulas, mas voltou a estudar dois anos depois. Ele concluiu o curso de matemática e aposentou-se como professor da rede pública de ensino do DF em 1994.

 

Duas perguntas para Mateus Guimarães, sobrinho de Honestino Guimarães

 

Raphaella Pechepeche/Divulgação
 

 

Depois de preso em 29 de agosto de 1968, em Brasília, e, novamente em 1973, no Rio de Janeiro, Honestino desapareceu nos porões da ditadura. O que a família ainda aguarda do Estado em relação à memória do líder estudantil?
Em vez de falar em termos de prisão, o correto seria sequestro. É fundamental que a verdade seja revelada: como foi o ato do sequestro? Onde ele foi mantido preso? Durante quantos dias? Foi levado do Rio de Janeiro para outra cidade? Como era a reação e a postura dele diante da injustiça e da violência que sofria? Em qual dia ele foi morto? O que foi feito com o corpo? Entre tantas outras, as respostas são importantes não somente para a família, mas para toda a sociedade, uma vez que a história do Honestino é parte da história da nação em que ele representa uma geração.

Cinquenta anos depois, o que fica de legado para que histórias como essa, de afronta à vida, à democracia e à liberdade, não se repitam?
Toda a nossa história precisa ser estudada de maneira sincera e profunda nas escolas e universidades. Indo além, é primordial que, desde cedo, as novas gerações sejam educadas para a paz e o respeito e a valorização da diversidade humana. Somente assim teremos plena consciência do que aconteceu e uma base sólida de princípios e valores que jamais permitirão sequer que se cogite a volta da ditadura.

Homenagem à resistência

Na quarta-feira, a Faculdade de Educação da UnB sediou o evento Território Livre, que debateu os 50 anos da invasão e incluiu a inauguração de placa em homenagem à resistência contra a ditadura. Médica e professora aposentada da UnB, Ivonette Santiago, 75 anos, participou do encontro, no qual relembrou detalhes da data. “Foi um caos total. Os estudantes ficaram horrorizados. Alguns conseguiram fugir pela tubulação do subsolo até o lago”, conta. Ivonette estava no laboratório de paleontologia e geologia quando os militares apareceram. “As rochas que analisávamos nas aulas, eles chamaram de ‘armas de subversão’ e de ‘pedras para atacar policiais’. Os estudantes consideravam o espaço da universidade a casa deles, um território livre, que não poderia ser, em momento algum, invadido”, relata a então estudante de medicina.

"Balas zunindo"

Moradora do Jardim Botânico, a professora aposentada Betty Almeida, 69 anos, era estudante de química em 29 de agosto de 1968. Ela caminhava rumo ao restaurante da universidade com uma prima quando se surpreendeu com o cenário de guerra. “Descemos correndo para o ICC, enquanto escutávamos as balas zunindo, passando ao lado dos nossos ouvidos. Ficamos no prédio, mas a polícia foi lá, jogou gás lacrimogêneo e nos obrigou a voltar”, detalha.

Na quadra de basquete, os estudantes aguardavam a triagem sob o sol forte e sem poder se proteger do cheiro do gás. “Prenderam quem queriam e deixaram os demais ir embora, mas só bem mais tarde. Estava muito cheio, e ficamos umas duas horas lá”, relata Betty. Ela recorda-se de casos de alunos que fugiram pelas tubulações que davam para o Lago Paranoá. “Foi uma história de muita violência. A universidade representava uma oposição e um desafio à ditadura àquela época. Eram estudantes, pessoas jovens. Então, os militares foram com tudo para cima”, completa.

 

 

Colaborou Guilherme Goulart