Peça brasiliense é obra obrigatória para estudantes no PAS 1

Pela primeira vez, teatro local é escolhido para integrar as obras do programa de avaliação que dá acesso à UnB

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postado em 29/11/2018 18:52 / atualizado em 04/12/2018 15:40

“A gente tinha raiva de várias coisas que aconteciam e não podíamos criticar no nosso trabalho porque era o mundo dos advogados. Com o teatro, tínhamos liberdade total.” A frase é de Rodolfo Cordón, um dos autores do texto de A Advogada que viu Deus, o Diabo e depois voltou para a Terra, a primeira peça teatral brasiliense a integrar as obras do Programa de Avaliação Seriada da Universidade de Brasília (PAS-UnB). Neste ano, a instituição revisou as obras para o Subprograma 2018-2020. Algumas foram retiradas e outras acrescentadas. A alteração já tem impacto na prova do PAS 1, que será aplicada em 9 de dezembro. Agora, a obra brasiliense faz parte da modalidade Teatro, figurando ao lado do clássico grego Ifigênia em Áulis, de Eurípides. 
Divulgação

O espetáculo foi criado em 2003 e reformulado em 2012, por três amigos: Rodolfo Cordón, Frederico Braga e Felipe Gracindo. “Estudávamos direito e resolvemos escrever uma peça, porque esse é um mundo muito rico de histórias, de personagens e de comédia também", diz Córdon. Ex-aluno no curso de ciência política na UnB, Fred Braga, 38 anos, sente-se honrado com a escolha pelo Grupo de Sistematização e Redação Final do PAS-UnB. “O pessoal é muito criterioso na hora de escolher as obras. Entramos para um rol de autores como Machado de Assis e Graciliano Ramos, cujas composições são estudadas pela juventude”, comemora o co-autor da obra e ator do grupo G7, que já montou a peça. 

Comédia satírica

 
A peça conta a história de Jeová Pereira Mendes, um jovem que vende a alma ao diabo para conseguir poder. Ele cresce e acaba tornando-se ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), mas, ao sentir a morte se aproximar, arrepende-se do acordo e contrata a melhor advogada que conhece, Maria Vitória, para defendê-lo. Depois de beber um café envenenado pelo próprio ministro, a advogada vai parar no inferno e entra com uma ação contra o diabo. Daí em diante, a trama da jurista para libertar o cliente segue a todo vapor.
Rodolfo Cordón afirma que o objetivo da obra é satirizar e fazer críticas a elementos das instituições brasileiras, como a burocracia e a morosidade na resolução dos processos judiciais e a corrupção da classe política, semelhante ao que propõe a obra do poeta barroco brasileiro Gregório de Matos, apelidado de “Boca do Inferno”. O ator acredita que a peça se aproxima em muito aos elementos do teatro grego, como a crítica política, a sátira, relação com a religião. O enfoque contemporâneo, porém, promove dinamismo e fácil compreensão. “A pessoa não consegue rir da piada na comédia grega, a não ser que entenda todo o contexto histórico da época. Aí você lê uma comédia que não tem graça. A nossa é atual e as pessoas riem. Esse foi o motivo para nos escolherem. Isso nos enche de orgulho”, afirma. 

Preparando os alunos

 
No momento, a peça do grupo G7 não está em cartaz. A companhia pode voltar com uma versão adaptada em 2019, graças ao feito. Enquanto isso, os autores promovem workshops e dão dicas para os alunos que farão o PAS 1 entenderem a obra e as possíveis abordagens da banca examinadora. Estudante no Instei Centro de Ensino, Júlia Fernandes, 15, participou do workshop e conta que a presença dos dramaturgos explicando a obra é fundamental para compreender o enredo. “Os criadores mostraram as inspirações que tiveram para fazer a obra, os contos e cordéis, e a relação com Gregório de Matos. Muitas vezes, apenas com leitura e interpretação não é possível entender a peça”, afirma.
 
A jovem deseja cursar medicina e leu o roteiro da obra disponibilizado pelo G7 para adaptá-lo a um filme e concorrer ao “Oscar Instei”, projeto de audiovisual da escola que estimula os alunos a representar as obras do PAS. Feliz com a valorização da cultura brasiliense, a candidata gostou do que viu. “A peça é bem crítica à burocracia brasileira, aos processos abertos contra os políticos, normalmente atrasados, à corrupção e ao sistema jurídico, que é ineficiente em vários aspectos”, complementa. 

Dicas diretamente da fonte

 
De acordo com Fred Braga, os estudantes devem ficar atentos a possíveis relações da peça com a obra de Gregório de Matos, uma das referências bibliográficas da prova. “Ele também usa a sátira, a crítica às instituições religiosas, ao poder, ao governo. Talvez cobre alguma relação… A pessoa tem que entender o que é o STF hoje em dia, porque o nosso espetáculo tem um personagem que é ministro da Suprema Corte”, orienta.
 
Além disso, o autor cita a literatura de cordel, Fausto do alemão Goethe, a Divina Comédia do italiano Dante Alighieri e O Processo de Kafka como textos que inspiraram a criação da peça e que podem ser inter-relacionados na prova.