Ato contra cortes no ensino reúne 6 mil segundo PM e 50 mil segundo alunos

Mais cedo, porém, a Polícia Militar chegou a afirmar que havia pelo menos 15 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios

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A paralisação nacional pela educação, marcada por centrais sindicais e movimentos de alunos, professores e servidores técnico-administrativos de universidades e institutos federais para esta quarta-feira (15), contou com atos em todas as capitais do país. Em Brasília, a manifestação, marcada para começar às 10h em frente ao Museu Nacional, reuniu cerca de 6 mil pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). Mais cedo, porém, a própria PMDF chegou a afirmar que havia 15 mil participantes. O major Michello, porta-voz da corporação, voltou atrás e explicou que os agentes erraram o primeiro cálculo. A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), uma das entidades organizadoras do ato, estima que o protesto tenha reunido 50 mil pessoas.
 
Além de alunos e profissionais da educação, também compareceram ao ato parlamentares e outros políticos. Alguns dos que marcaram presença foram os deputados federais Gleisi Hoffmann (PT-PR), Erika Kokay (PT-DF) e Túlio Gadêlha (PDT-PE); o distrital Leandro Grass (Rede); e a ex-candidata ao GDF e professora da Universidade de Brasília (UnB) Fátima Sousa. Com cartazes, faixas e gritos que repudiam os cortes no orçamento da educação, o grupo caminhou até o Congresso Nacional, bloqueando algumas faixas da Esplanada, mas deixando o trânsito de carros fluir. 
 
Ed Alves/CB/D.A Press
 
 
Ingrid Soares/CB/D.A Press
 
 

Confusão controlada

Agentes da Polícia Militar acompanharam o ato para garantir a segurança. Eles também resguardam o prédio do Ministério da Educação (MEC) com homens da Força Nacional. O ato foi pacífico na maior parte do tempo, mas, quando manifestantes passaram a se dispersar e a caminhar no sentido Rodoviária do Plano Piloto, os ânimos ficaram mais acirrados. Ao passarem em frente ao MEC, os manifestantes vaiaram, mas foram instruídos pelos organizadores, que davam orientações de cima de carros de som, a seguirem direto, sem se aproximar do edifício. A maior parte dos manifestantes foi para a Rodoviária. 
 
Ed Alves/CB/D.A Press
 
Um grupo de cerca de 50 pessoas, no entanto, bloqueou todas as faixas da S1 na Esplanada dos Ministérios. Elas colocaram galhos e folhas na pista; depois, atearam fogo. Também chegaram a jogar cones na via para impedir a passagem de motoristas. Quando agentes da PMDF se aproximaram, foram vaiados. Manifestantes também jogaram garrafas de vidro contra eles. Os policiais conseguiram dispersar a maior parte das pessoas, mas um grupo menor colocou bambus, bloqueando todas as faixas da N1, e ateou fogo. Outros jogaram bombinhas e fogos de artifício. 
 
 
Por causa disso, agentes da PM se aproximaram com bombas de gás de pimenta em mãos. Os policiais detiveram dois jovens por suspeita de terem atirado rojões contra os militares. O resto dos manifestantes que ainda estava na Esplanada dos Ministérios correu para a Rodoviária do Plano Piloto. O trânsito voltou à normalidade. A Rodoviária do Plano Piloto ficou lotada, e policiais chegaram a usar gás de pimenta para dispersar a multidão. Assim, o ato chegou ao fim por volta das 15h15.

Eu fui!

Giulia Cardoso, 18 anos, estudante de turismo da UnB, participou do ato e defende que o governo federal não contingencie o orçamento da educação. "Passamos um tempão tentando entrar na universidade, estudando. Nós ajudamos a produzir o conhecimento. Se o governo não quer dar educação, o povo vai tirar o Bolsonaro do poder!", exclamou.
 
Clara Lobo/Esp. CB/D.A Press
 

“O governo é a verdadeira balbúrdia. Querem tirar a arma do povo que é o conhecimento, porque é isso que pode tirar eles do poder. Resolvi participar na rua porque não adianta só reclamar em rede social, tem que vir. Mostrar que somos muitos e unidos”, declarou Vitor Ximenes, 17 anos, também estudante de turismo da UnB. 
 
Ingrid Soares/CB/D.A Press
 
Matheus Ferreira, 28, mestrando em metafísica e professor voluntário de teoria da política clássica na UnB, classifica os cortes na educação como nefastos. "A plataforma desse governo é antieducação. Tanto o presidente, quanto o ministro têm um tema antifilosofia, antiemancipação. Querem o povo prisioneiro. O importante da educação é justamente isso: a liberdade de pensar. Sem isso, nada vai para a frente", defende. 
 
Indignada com a ameaça ao ensino, a produtora audiovisual Letícia Bispo, 29, garante que “a população não ficará parada enquanto o governo desmonta a educação” no país. "Quero começar um mestrado. Eles não podem acabar com nossos sonhos de uma hora para outra. Esse governo não sabe o que está fazendo e mantêm diálogo zero com estudantes e universidades", opina ela, segurando um cartaz que faz referência à explicação do ministro Abraham Weintraub sobre os cortes.

Para valorizar a pesquisa

Dois estudantes de engenharia da UnB foram ao protesto levando resultados de pesquisas, com o intuito de sensibilizar o governo e a sociedade sobre a importância do investimento em educação e provar que universidade não é sinônimo de "balbúrdia", rebatendo o discurso do ministro da Educação, Abraham Weintraub.
 
 
No quinto semestre de engenharia eletrônica, Edivan Barreira Gomes, 20, mora no Gama e faz parte de uma equipe de criação, montagem e competições com drones. "Viemos mostrar nosso trabalho. Montamos e participamos de corrida de drones, que envolve muito trabalho e pesquisa. São nas competições que surgem novas tecnologias que, depois, são usadas no dia a dia. Os cortes nos afetam muito. Meu temor é que, dessa forma, não seja possível conseguir apoio para projetos", observa o estudante. 
 
 
Amigo de Edivan, Gabriel Frazão, 22, cursa o oitavo semestre de engenharia aeroespacial. Ele teme que os cortes afetem o investimento em pesquisa de tecnologia de ponta. "Universidade não é balbúrdia. Não se pode tratar a educação como algo que não traga retorno para a população. Se o presidente não entende a importância desse investimento, viemos explicar”, afirma.
 
Ed Alves/CB/D.A Press
 
“Eu trouxe um banner de uma pesquisa sobre o comportamento do plasma em um propulsor elétrico de helicon de dupla camada. Esses propulsores são utilizados em satélites para a realização de manobras espaciais, por exemplo, mudança de órbita”, aponta. “Com o corte, as universidades são obrigadas a usar a verba de pesquisas para pagar água e eletricidade, e manter o funcionamento mínimo dos cursos", alerta. 
 
Ingrid Soares/CB/D.A Press
 
Professor de engenharia mecânica da UnB, João Pimenta concorda com os estudantes. "Dou aulas desde 2002. Há uma degradação contínua das universidades e chegamos a uma condição limite. Esse contingenciamento é inviável. Não estou convencido de que os cortes sejam provocados por dificuldades econômicas. Não é um problema que se resolva tirando da educação e da saúde", afirma.

Ensino médio engajado 

Não foram apenas estudantes de graduações que compareceram ao ato. Alunos dos ensinos fundamental e médio também participaram a fim de reivindicar mais valorização para a educação. Camillly Cardoso, 16, e João Vitor Gonzaga, 17, cursam, respectivamente, o 3º e o 2º ano do ensino médio no Centro de Ensino Médio (CEM) Setor Leste, da rede pública. “Acho as manifestações importantes para acabar com os cortes”, afirma Camilly. “Eu vim para lutar pela educação”, completa João. 
 
Isadora Martins/CB/D.A Press
 
 
Clara Nepomuceno, 14, e Luíza Souza, 15, são estudantes do 9º ano do Colégio Marista João Paulo II. Elas tiveram provas na escola hoje, mas saíram mais cedo para participar da manifestação. “Muita gente pensa que alunos de escolas particulares não se importam com a educação. Não é verdade. Queremos lutar por esse direito também, que deve ser de todos”, afirma Clara. “A gente está aqui para apoiar todas as escolas e universidades públicas do país. Queremos lutar pelo direito delas”, comenta Luíza.

Rede particular funcionou normalmente 

A participação de alunos, professores e trabalhadores de escolas particulares do DF no ato se deu de forma individual, sem afetar o funcionamento das escolas: segundo o Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe), nenhum colégio particular ficou sem aula. Confira nota enviada pelo Sinepe sobre a questão: 
 
"O Sinepe-DF, representante dos Estabelecimentos Particulares de Ensino no Distrito Federal, informa que todas as escolas de Brasília funcionaram normalmente ao longo do dia.
O Sinepe-DF zela pela defesa das liberdades individuais e coletivas e pelos direitos fundamentais do cidadão, e não tem alinhamento partidário. Assim, orientamos as escolas particulares a manter suas atividades de forma a assegurar os serviços contratados pelos responsáveis dos alunos por meio do Contrato de Prestação de Serviços Educacionais.
 
*Estagiárias sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa