Manifestações contra corte de verbas em universidades tomaram o país

Milhares de pessoas protestaram contra corte de verbas das universidades e institutos federais de ensino, anunciado pelo governo. No Distrito Federal, ato reuniu ao menos seis mil na Esplanada dos Ministérios

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postado em 16/05/2019 06:00 / atualizado em 16/05/2019 00:15

Ed Alves/CB/D.A Press


Milhares de pessoas, principalmente estudantes e professores, tomaram as ruas em 26 estados e no DF para protestar contra o corte na verba discricionária das universidades e institutos federais, anunciado pelo Ministério da Educação. Escolas e universidades públicas e privadas também aderiram ao protesto. A União Nacional dos Estudantes (UNE) convocou para o dia 30 uma nova paralisação nacional.



As manifestações são resultado de um processo de desgaste entre o Executivo federal e instituições de ensino superior, iniciado com o governo Jair Bolsonaro. O presidente, que está em Dallas (EUA), classificou os manifestantes como “idiotas úteis” e “massa de manobra”. 

No DF, pelo menos seis mil pessoas fizeram uma passeata até a Esplanada dos Ministérios. Em São Paulo (SP), milhares ocuparam a Avenida Paulista. No Rio de Janeiro, uma multidão caminhou da Candelária à Central do Brasil. O ato era pacífico, mas, no fim, um grupo de mascarados entrou em confronto com a polícia. Os PMs responderam com bombas de gás. Vândalos atearam fogo a um ônibus.


AFP / MAURO PIMENTEL

 

Houve manifestações expressivas também em Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza e Belém. A mobilização não se limitou às capitais. No geral, mais de 200 cidades brasileiras registraram protestos.

Na capital federal, o ato começou de forma pacífica. Nos carros de som, representantes sindicais e parlamentares pediam o fim do contingenciamento e gritavam palavras de ordem contra Bolsonaro e o ministro da Educação, Abraham Weintraub. Após a saída dos carros de som, porém, quando os manifestantes começavam a se dispersar, um grupo ateou fogo em hastes de bambu na via N1, na altura do Teatro Nacional. A confusão culminou com confronto entre PMs e manifestantes na Rodoviária do Plano Piloto. Três foram detidos.


AFP / NELSON ALMEIDA

 

O protesto afetou o trânsito na região. A PM bloqueou as seis faixas da Esplanada em ambos os sentidos. Enquanto o grupo descia no sentido Congresso, houve retenção próximo à Rodoviária, pois motoristas precisavam desviar para vias alternativas, como S2 e N2. Mesmo com as alterações no trânsito, não houve grandes engarrafamentos.

Entre os manifestantes estava Juliana Soledade, professora do Departamento de Letras da Universidade de Brasília (UnB). Ela conta que conseguiu verba para a produção de um dicionário de nomes, mas, com os cortes do governo, o projeto foi cancelado. “Estamos sofrendo cortes desde a emenda constitucional do teto de gastos. Minha bolsa não foi a única que sofreu cortes. Se a gente não lutar hoje, vai lutar quando? Quando as cotas acabarem? Quando privatizarem as universidades?”, questionou.

O estudante de engenharia eletrônica Edivan Barreira Gomes, 20 anos, e o amigo, Gabriel Frazão, aluno de engenharia aeroespacial, ambos da UnB, levaram dados de pesquisas para sensibilizar o governo sobre a importância de investimento em ensino. “Eu monto drones e participo de competições. Isso envolve trabalho e pesquisa, e é onde surgem novas tecnologias que depois são usadas no dia a dia. Os cortes nos afetam”, afirmou Edivan. “Com o corte, as universidades são obrigadas a usar a verba de pesquisas para pagar água e eletricidade, e manter o funcionamento mínimo dos cursos”, emendou Gabriel.


As declarações de Bolsonaro contra os manifestantes também causaram indignação. A professora de teatro aposentada Glória Bonfim, 53, respondeu ao chefe do Executivo federal: “É uma falta de respeito com aqueles que deram a vida inteira pela educação. Nós viemos às ruas sabendo do nosso propósito e cientes dos nossos atos. Acredito que idiota é a pessoa que diz isso”, disparou.


Prioridades

De acordo com a diretora executiva do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura, e Ação Comunitária (Cenpec), Mônica Gardelli Franco, a população foi às ruas porque há um incômodo geral em relação ao modo como as políticas públicas estão sendo anunciadas. “Parece-nos um descomprometimento do gestor público com o objetivo final da educação, que é a aprendizagem dos alunos. Não sei se as manifestações continuarão, mas é um movimento importante para sinalizar, de verdade, as prioridades da educação que não ficaram explícitas do ponto de vista do governo”, frisou. “A prioridade nunca deve ser a redução de gastos. Na educação, a gente não gasta, a gente investe. O foco deve ser em resultados, no avanço da ciência, na pesquisa e na aprendizagem dos alunos.”

Ela reforçou que todos os anos as universidades passam por contingenciamento. “As universidades públicas, federais e institutos já estão acostumados com isso. O que incomodou foi que se atrelou o corte a uma percepção de que na universidade não se faz nada e que lá só se pratica a ‘balbúrdia’”, ressaltou.


Reprodução/Instagram

Ameaça de PM será investigada 

Um policial militar, dentro de um ônibus da PM, publicou foto em uma rede social na qual diz que vai “brincar com os comunas”, na Esplanada, onde ocorreu manifestação contra corte de verbas na educação. A assessoria de imprensa da PM disse que vai analisar a imagem para tomar as devidas providências. A Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa acionou a corregedoria da PM para apuração do caso. O secretário de Segurança Pública, Anderson Torres, publicou no Twitter: “A postagem do militar da PMDF não condiz com o elevado padrão profissional daquela instituição e contraria as normas de conduta preconizadas pela SSPDF. Determinei que seja aberto procedimento administrativo para análise do caso”.