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Correio Braziliense

Volta às aulas na UnB tem clima de incerteza e apreensão

Com início do semestre letivo nesta segunda-feira (12/8), estudantes precisam lidar com dificuldades geradas pelo contingenciamento orçamentário imposto à universidade


postado em 12/08/2019 06:00

Termo específico do contingenciamento impacta diretamente no Hospital Veterinário em relação ao ensino, pesquisa e extensão(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Termo específico do contingenciamento impacta diretamente no Hospital Veterinário em relação ao ensino, pesquisa e extensão (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
A incerteza com relação ao futuro marca a vida acadêmica dos estudantes da Universidade de Brasília (UnB) que começam o curso ou retornam às aulas a partir desta segunda-feira (12/8). Desde que a instituição de ensino superior sofreu bloqueio de 30% na verba federal, projetos e contratos correm risco de rompimento nos próximos meses. São R$ 48,5 milhões retidos desde abril. Para arcar com as despesas, a universidade depende da arrecadação própria, mas a quantia fica restrita a um teto orçamentário.

Com o esgotamento dos recursos, a administração da universidade busca sensibilizar o Ministério da Educação (MEC) o Congresso para que recursos previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA) sejam liberados. “É de extrema importância para garantir o pleno funcionamento da UnB”, informou, por meio de nota oficial, a instituição. “Não há, entretanto, prejuízo ao calendário acadêmico, tampouco a áreas acadêmicas específicas”, afirma o texto.

Recém-aprovado no curso de línguas estrangeiras aplicadas, Ítalo Henrique Ivo, 18 anos, está apreensivo em relação ao destino da Universidade. Ele ingressou na UnB por meio do Programa de Avaliação Seriada (PAS) e acredita que cursos considerados "menos valorizados" serão os mais impactados. "É algo que nos deixa preocupados. Principalmente quem está entrando agora. Como nunca estudei lá, não sei quais diferenças serão mais marcantes, mas, com um corte de 30%, provavelmente o semestre será pior", comenta.

O jovem avalia que os calouros não receberam informações da universidade sobre a situação financeira. Ítalo também revela que não via esse cenário como algo possível. "Sempre tive expectativas muito boas em relação à universidade pública. Entrar nela é o sonho de muita gente. Pode ser que, mais para frente, as coisas voltem ao normal. Só espero que não mudem muita coisa e que possamos ter uma educação de qualidade", completa o estudante.

“Balbúrdia”

Assim como Ítalo, 4.339 calouros iniciam a trajetória na UnB em um dos 132 cursos de graduação oferecidos nos quatro campi da instituição — Darcy Ribeiro (Asa Norte), Ceilândia, Gama e Planaltina. Outros 39.610 graduandos retornam às aulas neste segunda-feira. Apesar de o cronograma semestral não ter sofrido alterações devido ao contingenciamento, os estudantes podem enfrentar efeitos dos cortes já em setembro.

A reitora da UnB, Márcia Abrahão Moura, afirma que, sem a flexibilização do governo, não será possível renovar contratos, como o de limpeza e o de segurança, nem pagar contas de luz e água. “Para eu firmar o contrato, tenho de provar ter orçamento para um ano. A legislação é muito rígida. O contingenciamento me impedirá de renová-los”, alertou Márcia, em entrevista ao programa CB.Poder na última segunda-feira.

Em reunião com o ministro da Educação, Abraham Weintraub, a reitora apresentou dados com o objetivo de refutar a justificativa para os bloqueios orçamentários por motivo de “balbúrdia”. “De acordo com o (ranking universitário internacional) Times Higher Education, somos a 15ª melhor universidade da América Latina. Ao mesmo tempo em que o Ministério da Educação fala que não somos internacionalizados, corta um programa de muito sucesso: o Idiomas sem Fronteiras. Um país que já é distante em termos físicos e linguísticos daqueles que têm a pesquisa mais forte precisa de incentivos”, alegou. No entanto, não há sinalização de reversão do quadro.

Limitações

Termos específicos do contingenciamento de 30% interferiram diretamente sobre determinadas áreas da UnB, como nas de capacitação técnica e nos investimentos de recursos para o Hospital Veterinário (Hvet). Diretor da unidade de saúde, Jair Costa explica que o Hvet depende de verba repassada diretamente pelo MEC e que, por isso, também sofreu corte de 30%.

Segundo ele, apesar de o hospital contar com recursos provenientes de arrecadação própria, há um teto para os gastos desses valores. O restante é devolvido ao Governo Federal. “O contingenciamento está colocando em 

xeque nosso planejamento para o ano e nos obriga a remanejar e a economizar muita coisa, para que não falte nada no hospital. Ele impacta no ensino, na pesquisa e na extensão. Para o ano que vem, temos uma preocupação muito grande de não só saber se o recurso vai vir contingenciado, como se ele virá”, pondera Jair.

Além do bloqueio do MEC, outros cortes, por parte do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), resultaram na suspensão de bolsas de pós-graduação e de pesquisas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Formatura

Perto de terminar o curso, a graduanda de odontologia Amanda Queiroz, 24, lida com as limitações financeiras até durante o planejamento da colação de grau. Integrante da comissão de formatura, ela e os colegas precisaram agendar e pagar alguns dos custos do evento, como cerimonial, equipe de limpeza e telão, uma vez que a organização foi descentralizada para cada faculdade, o que gerou dificuldades na marcação das datas e na solicitação de serviços.

No entanto, o que mais preocupa a futura odontóloga é a mensagem “deturpada” usada para justificar o contingenciamento. “É muito triste ver o governo cortando verba de um lugar que está educando pessoas para melhorar o Brasil. Essa ‘balbúrdia’ não existe. O que existe são pessoas defendendo ideologias, os estudos e lutando por um ambiente e por um futuro melhor. O que existe é uma instituição que está buscando educar pessoas para crescerem e serem profissionais capacitados”, argumenta Amanda.

A UnB informou, em nota, que o novo modelo de organização das colações de grau permite que as unidades acadêmicas tenham mais autonomia para escolha do formato das solenidades. Após determinação do Governo Federal para terceirização do cerimonial, a instituição de ensino abriu licitação para contratação de empresa que fique responsável pelo serviço. “A colação é um ato oficial, realizado em sessão solene e pública para a outorga de grau aos formados que concluíram um dos cursos superiores da Universidade de Brasília. É uma cerimônia tradicional e gratuita. Eventos comemorativos associados à formatura (como bailes, viagens ou outros) não são de responsabilidade da universidade”, destaca o texto.

Calendário

12 de agosto 
• Primeiro dia de aulas
 
14 e 15 de agosto 
• #InspiraUnB (evento de recepção dos calouros, no Darcy Ribeiro)
 
10 de dezembro 
•  Último dia de aulas
 
14 de dezembro 
•  Divulgação de notas e percentuais de faltas

Campi em números

132: cursos;

4.339: calouros ingressando na UnB;

39.610: estudantes da graduação;

2.836: docentes em exercício;

3.171: técnicos administrativos;

90: cursos de mestrado;

4.950: alunos de mestrado;

69: cursos de doutorado;

4.033: estudantes de doutorado;

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