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Correio Braziliense

Confira ensinamentos budistas da monja Coen: ''Fazer o bem''

Seis lições de vida prometem mais paz para o cotidiano; confira também entrevista especial com a missionária oficial da tradição Soto Shu do zen-budismo


postado em 15/08/2019 06:00 / atualizado em 15/08/2019 15:27



Durante evento de boas-vindas no Centro Comunitário Athos Bulcão da Universidade de Brasília (UnB), na manhã desta quarta-feira (14/8), a monja Coen exaltou a importância de os estudantes valorizarem a universidade pública, além de contribuírem para o desenvolvimento dela. A missionária oficial da tradição Soto Shu do zen-budismo tem agenda cheia e foi convidada pela Reitoria há mais de um ano para falar aos cerca de 5 mil novos alunos da instituição.

Um convite aceito com alegria, pois define a universidade como “um centro de desbravamento da mente”, com a importante missão de prover educação, que, para a presidente do Conselho Religioso da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil, liberta e torna a sociedade melhor. “Quanto mais pessoas tiverem a expansão de consciência que a educação permite, mais nós teremos seres mais amáveis, cuidadores e responsáveis”, afirmou, em entrevista ao Correio.

A autora de livros sobre espiritualidade e consciência promove o princípio da não violência e da cultura de paz, prega harmonia, equilíbrio e amor e fez uma meditação guiada com o público, convidando os estudantes a um momento de respiração consciente. Uma técnica simples que pode ajudar a acalmar a mente, algo tão necessário entre universitários lidando com pressões de diversos lados. Entre as lições que a monja abordou no evento está a da compaixão. “Cada um só pode dar aquilo que tem.”

Para explicar o ensinamento, relatou um episódio vivenciado por uma mestra budista que conheceu no Japão, onde morou por 12 anos. Essa professora e outras monjas passavam pelas ruas pedindo esmola. “Estava frio, e um senhor jogou um balde de água suja nas monjinhas. E ela disse: ‘o que podemos fazer é agradecer’. Não dizendo: ‘jogue mais água’. Mas se é só isso que ele pode dar, podemos sentir pena”, ensinou. 
 
"Eu também tive problemas sérios na juventude, de querer morrer, de querer que tudo acabe, de querer sair daqui. E o que eu aprendi na minha jornada é que não tem o 'sair daqu', não precisa ir embora, as coisas mudam, se transformam", diz (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Até o momento de contenção orçamentária que as instituições federais de ensino superior enfrentam pode servir para isso. Pois, da crise, ensina a monja, surgem transformações e novas soluções. A reitora da UnB, Márcia Abrahão, ponderou as complexidades atuais, entre elas, o corte de verba para as universidades federais. “Estamos muito felizes com a chegada de mais 5 mil alunos de graduação, mais os de pós, mas é preciso dizer que eles chegam num momento difícil”, disse. “Reduzimos 30% do orçamento dos institutos e das faculdades esta semana. Estamos recolhendo em função dos bloqueios orçamentários”, observou. “Esperamos que os estudantes se conscientizem desse momento difícil e do papel deles em defesa da universidade.” 

Antes da palestra da monja Coen, a reitora da UnB, Márcia Abrahão, e o vice-reitor, Enrique Huelva, deixaram uma mensagem de boas-vindas aos estudantes e reforçaram o propósito de manter as características da universidade. “A condição econômica não é filtro para entrar na UnB e queremos que continue assim. A UnB não tem dono e queremos que continue assim. Também queremos continuar tendo autonomia para escolher reitor e diretores”, defendeu Enrique Huelva. A reitora ressaltou o desejo de manter a inclusão e a qualidade como atributos da instituição. “Entrar na UnB é o sonho de muitos jovens e adultos. Vocês ingressaram numa universidade que tem ensino, pesquisa e extensão de excelência. Mesmo assim, não nos esquecemos de cuidar das pessoas e não nos esquecemos dos direitos humanos”, anunciou Márcia Abrahão. 

Lições espirituais

Confira ensinamentos budistas da monja Coen:

» Não fazer o mal, fazer o bem e fazer o bem a todos os seres;

» Não matar, não roubar, não abusar da sexualidade, não mentir, não negociar intoxicantes;

» Não falar de erros e faltas alheios;

» Não se elevar e rebaixar os outros; não se rebaixar e elevar os outros; nem se igualar aos outros porque cada um de nós é único;

» Não ser movido pela ganância, não ser controlado pela raiva;

» Nunca falar mal ou desacatar de três joias: Buda, a sabedoria perfeita; Dharma, a grande verdade; e Sangha, que são parceiros de prática;

Para saber mais

A cara do budismo no Brasil
A paulista Cláudia Dias Baptista de Souza, 72 anos, passou a ser chamada de monja Coen após a ordenação, em 1983. Antes disso, morou por 12 anos no Japão. Estudou direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e trabalhou como jornalista. Teve uma filha, divorciou-se, chegou a ser presa com drogas, viveu em Los Angeles, quando se interessou pelo budismo. Depois de se tornar monja, se casou novamente com um monge e se separou.

Ela tem sido convidada a palestrar nos mais diversos tipos de instituições, desde bancos, escolas, hospitais, universidades, órgãos públicos, e até a Presidência da República do Brasil. Publica vídeos num canal no YouTube com mais de 1 milhão de seguidores. Reside no templo Tenzui Zenji, em São Paulo. Para saber mais, acesse www.monjacoen.com.br

#InspiraUnB
O segundo semestre letivo começou segunda-feira na Universidade de Brasília (UnB). A reitora Márcia Abrahão relatou que tomou diversas providências para o início do semestre. “Com relação à segurança, instalamos câmeras, corredores de segurança, iluminação, poda… O gramado está todo cortado”, afirmou. A aula inaugural #InspiraUnB com a monja Coen para os estudantes diurnos teve como tema Vivência universitária e saber transformador. Nesta quinta-feira (15/8), às 19h30, será a vez de Duilia de Mello, pesquisadora da Nasa e vice-reitora da Universidade Católica de Washington, abrir o semestre noturno, ao palestrar sobre o tema O céu não é o limite, no Centro Cultural da AdUnB.

Entrevista: Monja Coen

Qual é a sua principal mensagem para os calouros da UnB?
Aprecie a sua vida, aprecie o fato de que você está numa das melhores universidades do mundo e que você faça dessa universidade a melhor do mundo. O que você veio trazer aqui?

Os problemas emocionais causam grande preocupação, 
especialmente entre jovens. 
Como os alunos podem 
manter o equilíbrio
 e a saúde mental durante a graduação?
Também tive problemas sérios na juventude, de querer morrer, de querer que tudo acabe, de querer sair daqui. E o que eu aprendi na minha jornada é que não tem o “sair daqui”, não precisa ir embora, as coisas mudam, se transformam. E aquilo que parece um drama tão terrível é porque você ainda não viu que existe solução. Então, aguarde um pouco mais. O pensamento suicida passa por todos nós, não só por jovens. Você quer ir embora, mas você vai embora um dia... Então, eu não tenho pressa de sair daqui. A juventude é uma época muito de hormônios de procriação, de namoro, em alta; de exigências; de escolhas; de pressões com relação a notas; de necessidade de afeto, de inclusão... É preciso lidar ainda com pessoas que não são muito amorosas e inclusivas. Então, tem o bullying. É a exclusão no próprio grupo, muito dolorosa para o fim da adolescência, a fase em que a gente está entrando na faculdade. Tem que tomar cuidado com isso. Às vezes, queremos tanto agradar, queremos tanto o pertencimento que fazemos coisas não adequadas para isso. E tem os dois lados: de um lado, aqueles que vão provocar os outros, falar mal dos outros. E alguém entra nesse grupo para se sentir pertencendo e não abusado. E, do outro lado, aquele que é abusado vai ficando triste, vai se afastando. É importante que aqueles que se sintam ofendidos e abusados de alguma forma procurem os professores, conversem, façam um grupo de alunos alvo dos “malvadinhos”, vamos dizer assim.

Trabalho em grupo e relacionamento são grandes 
desafios para os universitários 
e também para 
profissionais. Por que 
lidar com os outros é tão difícil?
Eu também queria saber. Não é fácil. Somos tão pequeninos algumas vezes. Quando temos um propósito comum e juntos podemos fazer alguma coisa, é diferente. Mas há muita competição porque a nossa educação e a nossa sociedade ainda são muitos competitivas. As pessoas não sabem colaborar nem cooperar, só sabem competir com você, querem ser melhores que você. Aí entra a inveja, que é prejudicial, diferente da cobiça. Na inveja, a pessoa quer destruir o outro, quer atrapalhar o outro porque o outro incomoda. Uma boa ideia é a gente estar mais próximo daqueles que estão brigando conosco para entender o por quê. Veja só: quando eu era jovem, eu jogava vôlei. Tinha uma moça árabe, muito bonita que jogava conosco e era amiga de todo mundo. E a gente quer isso: eu também quero ser amiga de todo mundo e que todo mundo goste de mim. A gente estava jogando e, de repente, eu dei uma cortada em cima dela, com raiva mesmo. Então, ela parou o jogo, pegou a bola, veio do outro lado da rede, olhou para mim e perguntou: “Por quê?”. E continuou: “Você sabe que, daqui a alguns anos, não vai se lembrar nem do meu nome?” Eu não lembro o nome dela, mas isso eu nunca esqueci. É preciso que a gente mostre para o outro que ele está sendo agressivo, rude. Quando alguém estiver brigando, pare e pergunte: “Por que você está fazendo isso?” Só isso. Sem cobrar, sem brigar, nem nada.

Uma das lições do budismo é não se elevar nem se diminuir. 
Como controlar o ego, mas ao mesmo tempo não ter baixa autoestima?
Aí tem que se conhecer. Quando sabemos quem somos, ninguém nos abaixa nem nos levanta. Eu sou o que eu sou. Se eu não sei o que eu sou, eu estou à mercê das ondas do momento. Então, o ego é importante. Tem que ter autoestima. Sem isso, nós não comemos, não dormimos, nem nada. Mas o ego não é o dono do pedaço. Quando ele começa a querer mandar em tudo é que tem problema: “eu, eu, eu, eu melhor, eu isto, eu aquilo”. Você tem que pegar o “euzinho”, pôr lá para baixo. O ego é importante, mas não é o chefe.

Sair da universidade agora, num contexto de desemprego em alta, 
pode gerar ansiedade. Como os recém-formados podem lidar com isso?
Devia haver uma ponte maior entre as universidades e as empresas. Estágio, eu sei que tem. Mas talvez precise aumentar. Uma coisa que acontece no Japão que achei muito interessante é que as grandes empresas ficam na porta das universidades esperando e procurando os melhores alunos. Lá, como aqui, tem vestibular. E os alunos que passam no vestibular para universidades públicas, geralmente, são os melhores do país. E as empresas estão lá na porta querendo contratar. Ao mesmo tempo, as empresas precisam de renovação. Então, não dar emprego para o pessoal que chega da universidade, que está com a cabeça brilhante, pronto para trabalhar, é uma pena.

Como as universidades públicas podem 
transformar a vida dos novos universitários?
A universidade é um centro de desbravamento da mente. É uma abertura de consciência incrível. O fato de poder estar na universidade com professores que são de primeira linha e dão expansão de consciência em todos os seus olhares é uma grande mudança. Por isso, há certa instabilidade emocional. As pessoas estavam acomodadas na família, da escola, do quadro em que estavam antes. E, quando você entra na universidade, esse “acomodar-se” sai fora porque começa tudo de novo. Eu nem sei quem são meus colegas, vêm pessoas de todas as áreas... Isso é de um enriquecimento incrível. Então, apreciar essa oportunidade de estar em contato com pessoas de áreas e cantos diferentes é maravilhoso. Poder ver gente que pensa diferente. Isso traz possibilidade de aprendizado. Sintam prazer no aprendizado. O aprender não deve ser uma coisa sofrida pela qual você tem que passar, tirar nota. Não! E seres humanos educados são seres livres, que não são manipulados por ninguém e não manipulam ninguém porque têm uma visão ampla da realidade.

Qual a sua visão sobre o ensino religioso em escolas públicas?
Não temos condições no Brasil de ter isso porque não temos corpo docente especializado. Quem vai dar essa aula? Será que essa pessoa que vai dar essa aula não vai ter um viés da própria tradição e não vai impedir que as crianças tenham uma visão mais ampla? Me preocupa um pouco que se queira dar aula de ensino religioso sem termos um corpo docente especializado. Precisaríamos que todo o corpo docente fizesse um curso de religiões em vez de quem dá essa aula colocar a sua visão para as crianças, porque isso é muito perigoso. 
 
O livro Nem anjos nem demônios, seu e do Mário Sergio Cortella, aborda vícios e virtudes. Como desenvolver virtudes?
Nós temos que nos observar em profundidade. O livro diz exatamente isso: nem anjos nem demônios. Mas podemos estar nos dois universos e intermediado nos vários graus entre um e outro. São escolhas. Nós temos a capacidade de escolha. Algumas pessoas acham que não. Mas, se eu não acredito que nós, seres humanos, não nos modificamos e nos alteramos, fechamos escolas e universidades. Se eu sou desse jeito e morro desse jeito, então não adianta porque nada vai nos modificar. E, na universidade, a capacidade de estudo e de encontro, é exatamente o que nos permite fazer escolhas. No começo, eu nem percebia que estava escolhendo, eu respondia apenas a impulsos e reagia ao mundo. Observar em profundidade a realidade e a si mesmo faz com que você possa escolher porque você percebe que aquilo que joga no universo vai voltar. E o que eu estou jogando? As minhas escolhas. Eu posso escolher vícios ou virtudes. No budismo, a gente vai falar de carma e ações repetitivas e algumas são benéficas, outras neutras, outras maléficas. O maléfico seria o vício. Não estou falando nem de drogas, de nada disso. É uma maneira de se comportar no mundo que não é benéfica: é grosseira, é rude, é discriminatória, é preconceituosa. E isso cria vícios que trazem problemas não só para os outros, mas também para nós. E a virtude o que seria? O acolhimento, a percepção de que somos um só corpo, uma só vida com todos os seres e, por isso, cuidamos do meio ambiente que parte do nosso corpo e se expande para tudo à nossa volta. 

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