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Correio Braziliense

''Episódio coloca em xeque o Enem'', afirma Márcia Abrahão, reitora da UnB

Ao CB.Poder, reitora da Universidade de Brasília, Márcia Abrahão, classifica erro no Exame Nacional de Ensino Médio como ''lamentável''


postado em 22/01/2020 06:00

"A questão da justiça tem a ver com a formação diferenciada. Existem estudantes com diferentes níveis de renda, e é por isso que hoje ainda é extremamente importante que nós tenhamos as cotas raciais e sociais" (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Apesar da correção dos erros nas notas de cerca de 6 mil estudantes no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), realizado em 3 e 10 de novembro de 2019, a Universidade de Brasília (UnB) acredita que não haverá problema na inscrição das 2,1 mil vagas oferecidas pela instituição brasiliense. De acordo com a reitora, Márcia Abrahão, o único receio é não sofrer ações após o ingresso dos novos alunos. “A nossa preocupação é que se faça uma conferência em detalhes para que aqueles que de fato foram aprovados ingressem nos cursos. As nossas universidades não podem ser, por questões de outras ações, como judiciais, obrigadas a incorporar mais estudantes do que o número de vagas que nós abrimos”, pontuou.
 
A declaração foi dada em entrevista ao programa CB.Poder, parceria do Correio Braziliense com a TV Brasília. Entre os assuntos discutidos, a reitora ainda justificou o abandono do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para classificação na UnB. “Nós resolvemos sair do Sisu por diferentes motivos. Um é que o calendário, às vezes, não é o mesmo que o nosso; então, como o nosso semestre começa em 9 de março, precisamos fazer várias chamadas”, explicou. “E nós fizemos um estudo também que mostrou que, ao fim do segundo ano, o estudante do Sisu abandonava a universidade, percentualmente, o dobro de vezes que um estudante que entra pelo PAS ou pelo vestibular. Isso é um prejuízo público enorme”, avaliou.
 
Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Que avaliação a senhora faz da situação ocorrida com o Enem, sobre a troca de notas?

É um episódio lamentável, que coloca em xeque um exame de tão alto nível, como é o Enem. No caso da UnB, nós utilizamos apenas uma parte das vagas, cerca de 2,1 mil, mas estamos muito preocupados, porque isso traz uma certa insegurança para os candidatos. São jovens com expectativas e sonhos para entrarem na universidade. Realmente, é algo que ainda não está totalmente esclarecido. Nós estamos acompanhando com muita apreensão, mas, por outro lado, temos segurança de que a equipe técnica de servidores concursados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira), que é uma equipe de altíssimo nível, tem toda a condição de resolver esse problema.

Acredita que existe a possibilidade de o Enem ser cancelado?

Pelo que eu ouvi do ministro e do presidente do Inep, acredito que não. A nossa preocupação é que se faça uma conferência em detalhes para que aqueles que de fato foram aprovados ingressem nos cursos. As nossas universidades não podem ser, por questões de outras ações, como judiciais, obrigadas a incorporar mais estudantes do que o número de vagas que nós abrimos.

A UnB recebe alunos do Enem e do PAS (Programa de Avaliação Seriada). Há diferença de qualidade na seleção dos calouros?

Não há diferença de qualidade. Muitas vezes, os que vem do PAS são mais jovens, porque ingressam assim que terminam o ensino médio. O que nós temos é que uma parte dos estudantes que entram na universidade com o Enem se evadem com muita facilidade, porque são estudantes que vêm do Brasil inteiro e, como Brasília é uma cidade que tem custo de vida mais alto, nós temos essa questão.

A senhora acha justo o Enem? Porque no Enem, um estudante de Brasília de classe A, que estuda em boa escola, vai disputar uma vaga da UnB com um estudante do interior do Amazonas. A senhora acha justo um só exame para esses milhões de estudantes?

Essa é uma avaliação que a gente faz para todos os exames. Para o vestibular, para o Enem e para o PAS. Inclusive, na época quando foi criado o Enem, eu era decana do ensino de graduação e a proposta que fiz para o então ministro da Educação era para que nós criássemos o PAS nacional. Aqui, temos três anos seguidos para o estudante ir amadurecendo e acumulando a nota. Nós não conseguimos implantar isso. Acho que pode ser um caminho. Agora, a questão da justiça tem a ver com a formação diferenciada. Existem estudantes com diferentes níveis de renda, e é por isso que hoje ainda é extremamente importante que nós tenhamos as cotas raciais e sociais.

O Sisu está com inscrições abertas até domingo, e a UnB não adere mais a esse sistema. Esse fato de a universidade criar acesso ao Enem à parte é para impedir essa entrada de alunos de fora, que talvez tenham uma evasão maior? É para privilegiar o candidato do DF?

Não, porque nós continuamos utilizando o Enem. Por exemplo, nós abrimos 2,1 mil vagas para o Enem e tivemos 38 mil inscritos, que é muito maior que o número de inscritos do PAS. Mas nós resolvemos sair do Sisu por diferentes motivos. Um é que o calendário, às vezes, não é o mesmo que o nosso; então, como o nosso semestre começa em 9 de março, precisamos fazer várias chamadas O estudante do Sisu é de vários estados, está esperando ser chamado no seu estado; então, ficava essa mudança muito abrupta. E nós fizemos um estudo também que mostrou que, ao fim do segundo ano, o estudante do Sisu abandonava a universidade, percentualmente, o dobro de vezes que um estudante que entra pelo PAS ou pelo vestibular. Isso é um prejuízo público enorme.

A universidade preenche as vagas dos alunos evadidos, ou o curso fica com menos estudantes?

Nós buscamos preencher. Nós retomamos a oportunidade das vagas para estudantes que são graduados, aqueles que chamamos de portadores de diploma de curso superior. E também para estudantes de transferência facultativa. Então, nós abrimos o edital anualmente, utilizamos a nota do Enem e o estudante de outra universidade pública ou privada se inscreve para preencher essas vagas que sobram.

Recentemente, a UnB criou uma secretaria que está sendo chamada de imobiliária, que tem o objetivo de alugar 170 imóveis. Qual é a expectativa de receita com esses imóveis? 

Nós temos hoje uma renda própria, substancial. Ou seja, 40% do que a UnB utiliza anualmente é de arrecadação da própria universidade. Tanto de imóveis quanto de projetos. O orçamento da União acabou de ser publicado no Diário Oficial, e estamos avaliando como será. O que tem de novo neste ano é que, pela primeira vez, apenas 75% do orçamento estará disponível para a universidade, e aproximadamente 25% é uma caixinha que nós não podemos usar, dependemos de autorização do Legislativo. Nós temos, aproximadamente, 1,5 mil imóveis que alugamos. E esse novo setor, na verdade, é uma reorganização interna para dar um pouco mais de fôlego. Estamos com editais para ocupação do nosso parque científico e tecnológico, além de outros terrenos.

E, caso não sejam alugados, eles poderão ser colocados como moradias estudantis?

O propósito é diferente. Nós temos apartamentos para moradia estudantil, temos também um auxílio para os estudantes que não têm essa moradia, mas esses apartamentos aos quais eu estou me referindo são de fato para aluguel para servidores e para o mercado. Uma parte desses apartamentos é usada para a nossa política de internacionalização, para atrair pesquisadores de outros países.

Como está a relação com o governo Bolsonaro?

Nós trabalhamos institucionalmente. Somos uma das melhores universidade da América Latina, a oitava melhor universidade do Brasil e cada vez com indicadores acadêmicos melhores. Temos pouco contato com o governo. Eu convidei o ministro para ir à UnB e vou renovar o convite para ele conhecer a nossa universidade. Mas é uma relação institucional, e tem funcionado da forma como é possível.

Como está a preparação para receber os calouros do PAS, que terá o resultado divulgado nessa quarta-feira?

Nós estamos com uma série de ações, porque temos dois momentos sublimes, que é quando eles ingressam e, depois, quando eles se formam. Vamos ter as boas-vindas com palestras e com uma grande novidade: o registro dos calouros não precisa mais ser presencialmente. Tudo pode ser feito on-line a partir deste semestre, o que é também uma forma de fixar mais o estudante de fora. Nós temos um passo a passo, começamos a divulgação nas nossas redes e esperamos que eles fiquem bem felizes com a UnB.

A UnB e as outras universidades têm tido registros de problemas de saúde mental. Quais providências têm sido adotadas?

Esse é um drama do nosso tempo, principalmente entre os jovens. A UnB tem 46 mil alunos, e a faixa etária mais propensa a ter problemas de saúde é a mesma que temos na universidade. Então, temos atuado nisso. Criamos uma diretoria de atenção à saúde da comunidade universitária, trouxemos um psicólogo para comandar o Decanato de Assuntos Comunitários, integramos vários setores internamente que atuam na parte de apoio ao estudante, desde apoio psicológico a uma relação com Hospital Universitário em casos mais graves, além de palestras, rodas comunitárias e rede interna de acolhimento para fortalecer o que chamamos de política integrada da vida estudantil. Porque, às vezes, quando o estudante chega, ele não sabe onde que fica o restaurante, onde buscar apoio para moradia, para a saúde mental… Então, estamos criando essa rede para dar melhor qualidade e permanência do nosso estudante na universidade.

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