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UnB libera auxílio de R$ 465 para alunos em situação de vulnerabilidade

Residentes da Casa do Estudante também são assistidos com a distribuição de marmitas. Confira relato de como eles estão enfrentando a pandemia do coronavírus no alojamento

Ana Lídia Araújo*
postado em 27/03/2020 17:53
A Universidade de Brasília (UnB) abriga cerca de 370 alunos de graduação e pós nos prédios da Casa do Estudante Universitário (Ceu) e Ceu-Pós. Para assistir ainda mais os residentes e a comunidade discente socioeconomicamente vulnerável, a instituição tem buscado soluções.
Para evitar a propagação do Covid-19, alunos não podem receber visitas na Casa do Estudante
Na manhã desta sexta-feira (27), o Decanato de Desenvolvimento Social (DDS) publicou edital para o auxílio alimentação emergencial decorrente da suspensão das atividades acadêmicas em função da pandemia do Coronavírus. Destinado aos alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica inesperada e momentânea, o programa oferta 2.500 bolsas de R$ 465. O formulário de inscrição foi encaminhado por e-mail a todos os estudantes assistidos pelo DDS.

O benefício do Programa de Moradia Estudantil é voltado exclusivamente para estudantes do câmpus Darcy Ribeiro, cujas famílias não têm imóveis nem residência fixa no Distrito Federal. Para evitar a propagação do Covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os decretos do Ministério da Educação (MEC) e do Governo do Distrito Federal (GDF) reforçam que a melhor alternativa é o isolamento social.

A situação modificou a rotina de milhões de pessoas, inclusive a dos moradores dos prédios da Casa do Estudante. O momento é delicado. A Ceu fica dentro do câmpus, em uma localização isolada do restante da cidade. O passe estudantil foi bloqueado enquanto durar a suspensão das aulas, muitos não recebem auxílio econômico e a situação é cada vez mais preocupante.

Para proteger e auxiliar esses alunos, a Universidade de Brasília tem tomado medidas inéditas. Entre elas, a distribuição de marmitas e a restrição de visitas e pernoites.

Restrição de visitas

Uma das primeiras medidas tomadas pela UnB em relação à Casa do Estudante foi a restrição de visitas. Antes, os residentes tinham o direito de receber amigos e familiares, além da autorização de até 15 pernoites por mês. ;Enquanto temos apenas os quatro moradores, ficamos com uma população menos sujeita ao contágio;, explica Maria do Socorro Mendes Gomes, diretora de Desenvolvimento Social da UnB.

Marcos Vinícius Miranda, 27 anos, residente na casa há quase dois anos, conta que no começo a medida recebeu algumas críticas dos domiciliados. Com o tempo, a ideia passou a ser mais acolhida. Segundo o discente do 5; semestre de engenharia de produção, os zeladores têm seguido a recomendação à risca. ;O vírus é muito contagioso. Então, há essa necessidade de cuidado, isolamento e clima de quarentena;, opina.

A estudante do 8; semestre de administração, Maísa Farias, 24, afirma que a medida tornou o lugar seguro para ficar em isolamento e com o mínimo de exposição a contaminação comunitária. ;A maioria dos moradores da Ceu não tem família em Brasília ou outro lugar para ir. A UnB tem sido responsável e atenciosa em relação ao trato com os residentes. O diálogo aberto ocorre diariamente, sempre checam como estamos e quais são nossas necessidades;, defende.

Luiz O. Vieira, 21, está no 8; período de psicologia e mora há quatro anos na Ceu. Ele diz que, apesar de parecer autoritária, a decisão está em concordância com as orientações do Ministério da Saúde e outros órgãos públicos. ;Se alguém do prédio se contaminasse, muito provavelmente, isso espalharia muito rapidamente aqui;, supõe.

Felipe Teles Prado, 22, estudante do 6 ; semestre de engenharia de produção, considera a atitude da universidade positiva. ;Reduzindo o fluxo de pessoas no prédio, você reduz a possibilidade de transmissão;, pontua.

Quase no fim do curso, Gleyciane Reis, 23, que também faz engenharia de produção, relata que o prédio está mais vazio. Com as aulas suspensas, alguns estudantes que vieram do entorno e cidades mais próximas voltaram para a casa de suas famílias.
[SAIBAMAIS]

Para Gleyciane, a restrição de visitas pode ser dolorosa, mas necessária. ;A solidão se torna um problema se não tentarmos manter a comunicação com as pessoas que nos querem bem;, desabafa. Apesar do ponto negativo, a aluna explica que essa é uma consequência da quarentena e não diretamente da medida tomada pela gestão. ;É preciso ter compreensão nesse momento de crise;, pede.

Alimentação

Estudantes reclamam da qualidade de marmitas entregues pelo Restaurante Universitário (RU)

Em função da aglomeração de pessoas, a UnB suspendeu o funcionamento padrão do Restaurante Universitário (RU). Agora, a empresa terceirizada contratada para produzir a alimentação dos alunos, distribui marmitas no próprio estabelecimento e na Casa do Estudante. Os moradores têm direito ao café da manhã, almoço e jantar. Todos os dias, eles assinam uma lista informando quantas opções de refeições irão querer. Esse procedimento divide opiniões.

Geraldo Luiz Costa Junior, 34, é estudante de teoria crítica e história da arte e morador da casa desde maio de 2019. Militante de associações de defesa da comunidade discente, ele critica a forma de distribuição da refeição. ;Os estudantes, inclusive eu, logo após terminar de comer continuam com fome;, relata.

Segundo Geraldo, a reclamação foi repassada ao restaurante. A comida chegou a aumentar um pouco, mas não resolveu o problema. A sugestão é de que a universidade, em vez de fornecer as refeições feitas pelo RU, oferte a alimentação por pecúnia (auxílio financeiro). ;Temos alunos passando fome, com necessidades;, justifica.

A diretoria de Desenvolvimento Social da UnB, Maria do Socorro Mendes Gomes, explica que a instituição recebe recurso orçamentário anual para custear a permanência dos alunos em vulnerabilidade econômica na instituição. Esse apoio se dá por meio de auxílios, inclusive o de alimentação. Com o fechamento temporário do RU, a verba ;restante; será transferida para o auxílio emergencial. ;Estamos fazendo esforço institucional para fazer o remanejamento do dinheiro e disponibilizá-lo para o custeio dessas bolsas;, afirma.

Enquanto alguns estudantes reclamam que continuam com fome, outros apontam que há muita comida e, em consequência, o desperdício. São dois cardápios, o vegano e outro para quem come proteína animal. A quantidade é padrão. ;Esse é um formato emergencial que foi adotado especialmente para garantir que não falte alimentação aos estudantes. Agora, evidentemente é limitado. Uma logística diferente disso seria inviabilizada com o espaço de tempo;, explica Maria do Socorro.

Outra reclamação constante é a qualidade das refeições oferecidas pelo restaurante. ;Infelizmente a empresa terceirizada não tem tomado muito cuidado com isso;, afirma o residente Victor Hugo, 31, que cursa o 6; semestre de letras tradução.

Thiago Fidelis, 19, tem a mesma opinião. O estudante do 5; semestre de medicina, afirma que, em 80% das vezes, a carne chega crua. ;É muito fácil ter uma diarréia ou outras infecções gastrointestinais comendo alimentos mal cozidos;, completa.

Há quem só faça elogios a entrega de marmitas. ;Estou recebendo essa comida sem ter que me expor. Eu só desço do prédio, pego a refeição, volto e me higienizo de novo;, diz Luiz O. Vieira. ;É muito bom ter esse cuidado da universidade conosco;, ressalta.

Suelane Silva, 19, do 3; semestre de biblioteconomia, ressalta que, por Brasília ser uma cidade ocupada majoritariamente pela elite, os preços dos mercados são muito altos para quem vive de bolsa. Dessa forma, a distribuição da alimentação embaixo do prédio é tão necessária. ;Pelo perfil da casa de vulnerabilidade socioeconômica, muitas vezes a gente não tem uma condição financeira de fazer nossa própria comida;, mostra.

Saúde

Os estudantes pedem a universidade o fornecimento de álcool em gel e máscaras. ;Nós temos as mesmas necessidades de qualquer outra pessoa durante essa pandemia. Precisamos de proteção;, diz Suelane Silva.

A diretora do DDS, Maria do Socorro, informou que a UnB não tinha os produtos. Recentemente, em parceria com o Instituto de Química, conseguiram abastecer o estoque para a equipe de portaria e que trabalha com atendimento ao público. Para o fornecimento dos itens de higiene aos alunos da Ceu, a diretora informou que ainda não foi fornecido pela falta dos produtos no mercado.

Há também a preocupação da instituição com a saúde mental dos estudantes durante o período de isolamento. Maria do Socorro revela que há uma parceria com a Diretoria de Atenção à Saúde da Comunidade Universitária (DASU) para ofertar atendimentos virtuais de apoio psicológico.

A dica para os estudantes, é que aproveitem o tempo da quarentena para aprender, ser produtivo e refletir. Assim como o aluno do sétimo semestre de educação física, André João Costa, 30. ;Estou lendo uns livros, aprendendo a tocar violão. Lógico que é meio chato ficar no isolamento, mas penso que a galera está indo bem;, conta.

Alunos do auxílio socioeconômico

Os estudantes não residentes da Ceu também precisam de amparo com a crise. A aluna Maria Antônia Jarriane, 23, cursa o 10; semestre de psicologia, mora em Sobradinho e tem dois filhos, Nicolas, 2, e Heloísa, 7 meses. A mãe veio para o Distrito Federal para ajudar com as crianças.

Maria depende da assistência da UnB para se manter. As refeições da família são feitas em casa com esse recurso. ;Meus filhos dependem quase que exclusivamente de mim. Sou mãe solo. Tudo que precisam, eu tenho que fazer por eles;, conta.

Caso contemplada com a bolsa alimentação emergencial de R$ 465, a aluna poderá ficar mais tranquila. ;Temos diversas despesas. São auxílios como esses que nos possibilitam sobreviver;, afirma.

Passe estudantil

Devido à distância da Casa do Estudante de estabelecimentos essenciais como farmácias, mercado, postos de saúde e hospitais, o bloqueio do passe estudantil impossibilita a locomoção. ;O pessoal precisa pegar ônibus para resolver uma questão de saúde, comprar alguma coisa para se alimentar;, ressalta Geraldo Luiz.

A Universidade de Brasília informa que repassou lista com o nome dos alunos em situação de vulnerabilidade ao BRB Mobilidade. Segundo Maria do Socorro, a situação em breve será regularizada.
*Estagiária sob supervisão de Ana Sá

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