Ensino_EnsinoSuperior

Vídeo 360 graus: por dentro do laboratório da UFMG contra o coronavírus

Apesar da falta de incentivo e cortes no orçamento, pesquisadores da UFMG trabalham incansavelmente para encontrar uma forma de conter o coronavírus

Márcia Maria Cruz - Estado de Minas, Fred Bottrel/Estado de Minas
postado em 29/03/2020 14:17
A peste negra, uma das mais devastadoras pandemias da história humana, se alastrou quando as fronteiras entre os países foram superadas por viajantes no século 14, em plena Idade Média. O período ficou conhecido como Idade das Trevas pelo obscurantismo. Na época, havia grande controle e perseguição da igreja ao conhecimento científico. No século 21, outra pandemia volta a assustar a humanidade e para que não voltemos ao obscurantismo medieval que quase levou à dizimação da humanidade, só há um caminho: a ciência.
Apesar da falta de incentivo e cortes no orçamento, pesquisadores da UFMG trabalham incansavelmente para encontrar uma forma de conter o coronavírus
O Estado de Minas fez levantamento sobre as frentes de pesquisa das maiores instituições do país: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de Goiás (UFG). Nesta primeira reportagem, apresentamos os esforços da UFMG.
Para demonstrar o trabalho de pesquisadores, que mesmo com cortes no orçamento trabalham incansavelmente para obtenção de testes rápidos para diagnóstico e sequenciamento do genoma do vírus, o EM produziu reportagem em 360 graus no Laboratório de Vírus do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. A atuação dos cientistas, ainda mais neste momento, salvará a vida de muitas pessoas no mundo. Em Minas, a pesquisa de ponta ocorre no câmpus na Pampulha e os resultados já são vistos em ações concretas para barrar o avanço do novo coronavírus. Ao todo, a universidade já faz 300 testes por dia ; número que deve aumentar.

Apesar da missão hercúlea diante da complexidade do novo vírus, a universidade pública passa pelo maior estrangulamento de recursos da história brasileira. Só para se ter ideia, a maior universidade mineira terá um corte de R$ 7 milhões no orçamento de 2020 em comparação ao de 2019.
O Programa de Pós-graduação em Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), que lida diretamente com a microbiologia, área do conhecimento fundamental para o desenvolvimento de vacinas, testes e medicamentos, perdeu nove bolsas de doutorado e seis de mestrado do ano passado pra cá. Vale lembrar que é um programa de excelência com nota máxima na Capes. Os cortes foram anunciados em 18 de março. ;Olha o contrassenso que estamos vivendo: numa crise causada por um micro-organismo, o coronavírus, a Capes, à surdina, na calada da noite, subtrai nove bolsas de doutorado e seis de mestrado de um programa com nota máxima;, diz o coordenador do programa, professor Flávio da Fonseca.

Mesmo nesse cenário adverso para a pesquisa e, às vezes, tendo que tirar dinheiro do próprio bolso para continuar, os cientistas mineiros não param e se engajam num esforço mundial para derrotar o novo coronavírus.
Victória Fulgêncio Queiroz, bióloga e estudante de doutorado:
;É importante estar nessa posição. Sinto que é meu dever como bióloga formada em uma universidade federal, pública, e como pesquisadora em doutorado. Tenho a noção de que isso vai contribuir muito com o estudo nos números de caso e acompanhamento do vírus no Brasil. E, ao mesmo tempo, é muito desafiador, porque é um vírus perigoso, lidaremos com amostras clínicas e temos de seguir protocolos corretos de biossegurança e trabalhar em equipe;, diz Victória Fulgêncio Queiroz, bióloga e estudante de doutorado no laboratório.

No Brasil, as pesquisas científicas são feitas em grande parte nas universidades públicas e em instituições mantidas pelo estado, como FioCruz, Petrobras e Embrapa. A ciência corre contra o tempo para dar resposta à pandemia do coronavírus. No Brasil, a resposta tem que ser ainda mais rápida: é gigantesco o número de casos suspeitos, mas o processo de diagnóstico ainda é bem lento. Como não há vacinas para a COVID-19, é preciso identificar as pessoas contaminadas para que possam receber o tratamento e tomar os cuidados para não transmitir o vírus para outras pessoas. Nesse sentido, a testagem é fundamental para barrar o avanço da doença.

Multidisciplinar

Na última semana, mais de 30 cientistas da UFMG, incluindo pesquisadores das faculdades de Farmácia e Medicina, da Veterinária e do Instituto de Ciências Biológicas, entre outras unidades, reuniram-se em videoconferência com o objetivo de traçar estratégias de apoio ao governo estadual no diagnóstico de casos suspeitos da infecção pelo novo coronavírus. ;A UFMG tem se mobilizado para ajudar. Foi uma demanda da Secretaria de Estado da Saúde. A Funed, que é nosso laboratório oficial, não está dando conta da demanda e nos pediu ajuda. A UFMG está se mobilizando para fazer uma frente única e ajudar o estado;, afirma o professor Jonatas Abrahão, coordenador do Laboratório de Vírus. Devem contribuir para a testagem os laboratórios do Instituto de Ciências Biológicas, Escola de Veterinária e Faculdade de Farmácia.

A estimativa é, quando todos estiverem trabalhando com a autorização da Anvisa, sejam feitos 300 testes por dia. A universidade também estuda parcerias com a Fundação Ezequiel Dias (Funed) para ampliar o número de testes. ;Somos um laboratório de pesquisa de 60 anos. É um laboratório grande, com cinco professores, alunos de graduação e pós-graduação são 45 pessoas. Nosso laboratório foi modificado, as salas, a ordem dos equipamentos, o fluxo para fazer diagnóstico da COVID-19. A equipe atual foi direcionada para o diagnóstico, professores e 12 alunos fazendo diagnóstico;, afirma Jonatas.

Outra ação importante é a realização de pesquisas para o desenvolvimento de testes rápidos, que podem fazer o diagnóstico em menos tempo. A tecnologia que hoje o país dispõe permite resultados em 48 horas, mas há uma demora em fazer o número de casos suspeitos, que cresce a cada dia.
Em médio e longo prazo, a tarefa urgente para os cientistas é o desenvolvimento de uma vacina, uma busca realizada por cientistas de todo o mundo. O primeiro passo é conhecer com precisão o vírus que circula no Brasil. Nessa direção, os pesquisadores da UFMG, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) sequenciaram os primeiros 19 genomas da doença em pacientes de cinco estados: Minas, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás. Pesquisa de ponta, a ação amplia a cobertura nacional da vigilância genômica viral. ;Os pesquisadores fizeram o sequenciamento em tempo recorde, em 48 horas;, informou a reitora da UFMG, Sandra Goulart Almeida.

Respiradores

A UFMG ainda integra a Rede Vírus, composta por pesquisadores dos Ministérios da Saúde (MS) e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Docentes do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) e da Faculdade de Farmácia da UFMG estão entre os pesquisadores convocados pelos ministérios. Outra ação é a produção de respiradores, equipamento hospitalar essencial para o tratamento de pacientes com a COVID-19, que desenvolveram a síndrome respiratória e precisam da ajuda de equipamentos para respirar. A reitora informou que a universidade está em diálogo com a Fiemg para a produção em escala dos equipamentos. A universidade também deverá produzir, em grande escala, máscaras com a utilização da tecnologia de impressão 3D.

Trabalho árduo em hospitais

Muita gente não sabe, mas a atuação da universidade pública tem uma face muito visível no dia a dia das pessoas. A UFMG gerencia três grandes centros hospitalares, que atendem milhares de pessoas no estado: Hospital das Clínicas, Hospital Risoleta Neves e a UPA Centro-Sul. Neste momento, além das ações já em andamento, a Faculdade de Farmácia e a Escola de Veterinária produzem álcool em gel para os três hospitais gerenciados pela universidade. ;Já começamos a produção e pretendemos mandar o máximo possível para os hospitais;, informou a reitora. A universidade também realiza campanha nacional para arrecadação de recursos para manutenção desses hospitais.

A campanha de financiamento coletivo é uma parceria da universidade com o Instituto dos Advogados de Minas Gerais (IAMG) e a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep). Iniciada em 24 de março, tem o propósito de arrecadar recursos para aquisição de medicamentos, insumos, equipamentos e contratação de serviços destinados aos hospitais. Entre os materiais, estão luvas, aventais, protetores faciais, máscaras cirúrgicas, suportes de soro e materiais de limpeza, como desinfetantes, álcool gel, papel toalha e medicamentos.
Estado de Minas

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação